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O desafio de ser bênção perto

Não seremos uma bênção longe se, primeiramente, não o somos perto. E não há nada mais perto de nós que a nossa família.

O lar é nosso primeiro desafio e onde devemos investir energia, tempo e relacionamento construtivo. Davi é lembrado na história como um líder vitorioso. Venceu o gigante, superou a perseguição de Saul, peregrinou foragido em sua própria terra, refugiou-se na casa de seus antigos inimigos e, na perseverança do Senhor, reinou sobre Israel. Por outro lado, fracassou diversas vezes em casa onde enfrentou adultério, mentira, incesto, competição e trágica rebeldia. Certamente há aqui lições preciosas e uma delas é a necessidade de não perdermos o privilégio de sermos bênção perto, na família.
É mais fácil ser um modelo para as massas que nos veem de longe do que para um único indivíduo que caminha conosco. É mais fácil brilhar em um púlpito do que exercer paciência com a esposa. É mais fácil admoestar uma congregação do que ser modelo para os filhos. Um provérbio chinês nos ensina: Antes de começar o trabalho de mudar o mundo, dê três voltas dentro de sua casa. Não importa o que você diga a seus filhos para fazerem. Eles naturalmente seguirão aquilo que o veem fazendo.

SENDO UM MODELO PARA OS DE PERTO

Ser um modelo para os de perto, portanto, é um dos nossos maiores privilégios e mais intenso desafio. Em Atos 13, encontramos o registro do envio de Paulo e Barnabé pela igreja em Antioquia. Lemos que "servindo eles ao Senhor disse o Espírito Santo...". O verbo "servindo" (leitourgounton) usado no texto aponta para aqueles que serviam ao Senhor como leitourgoi, servos. Havia três formas de "servir" no contexto neotestamentário:
Como doulos, o escravo - Nas palavras de Candus, aquele que pessoalmente acompanha o seu Senhor para realizar os desejos do seu coração. Portanto, doulos, no contexto do Novo Testamento, é aquele que tem um compromisso direto com Deus e O serve pessoalmente.
Como diakonos, o mordomo - Aquele que serve ao seu Senhor por meio do serviço à comunidade cristã. Nas Escrituras, o termo é usado para os que cooperam para suprir as necessidades do povo de Deus – e, com isto, servem a Deus.
Ou como leitourgos, o edificador - O termo, ligado à leitourgia (liturgia), não é restrito como o usamos hoje. Refere-se àquele que serve ao Senhor sendo usado por Ele para abençoar (edificar) o seu irmão. Esta é justamente a raiz do verbo que expressa que Paulo e Barnabé "serviam" ao Senhor. Afirmava, assim, que antes de tudo eles eram abençoadores do Corpo de Cristo em Antioquia.
A primeira característica apontada a respeito destes dois homens que espalharam o Evangelho pela Ásia, Acaia, Macedônia e Galácia não foi a competência intelectual, o título ministerial ou a profundidade teológica, mas sim a fidelidade a Deus sendo uma bênção para os que estavam perto.
Uma aplicação missionária é clara: não envie para longe aqueles que não são uma bênção perto. Aquele jovem que se diz chamado para o ministério, mas não demonstra o caráter de Cristo nem o desejo de servir os que se encontram ao seu redor, fatalmente não será uma bênção longe.
Uma aplicação pessoal é ainda mais inquietante: aquele que não for leitourgos – um abençoador – no seu círculo menor de convivência, dificilmente o será em lugares distantes. E não há nada mais próximo de nós do que a nossa família.
Há alguns anos, encontrei-me com um senhor, conhecido preletor sobre famílias nas igrejas de sua região. Era tarde naquela noite e, ao passar rapidamente por um supermercado, eu o percebi empurrando lentamente um carrinho de compras, quase vazio. Ao cumprimentá-lo, notei o seu constrangimento. Rodei por algumas prateleiras buscando o que precisava, mas permanecia incomodado com a impressão de algo estava errado. Voltei a abordá-lo, prolonguei a conversa e passo a passo foi-se criando ali um ambiente propício para um abrir de coração. Após algum tempo, com seu rosto já marcado por expressões de angústia, ele mencionou que a cada dia, ao sair do seu emprego, permanecia ali para deixar o tempo passar. Seu intuito era chegar em casa tarde o suficiente para que esposa e filhos já estivessem deitados. Ao indagar o porquê desta prática ele elevou a voz e desabafou: 'Minha casa é um inferno!' Conversamos, oramos juntos e nos despedimos, deixando um próximo encontro planejado. Segui, porém, com tremenda consciência de nossa limitação humana. Que o Senhor abra nossos olhos para que não ganhemos o mundo e percamos a família.

BUSCANDO O MAIOR INVESTIMENTO

O maior investimento a ser feito na família é o amor. Nada é mais construtivo, poderoso e reparador. Amar – e expressar o amor – pode salvar casamentos perdidos, reconciliar filhos aos pais e reanimar o coração mais desesperado.
Sempre leio com temor os três primeiros versículos do capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios. Confrontam minha vida ao afirmar que podemos ter dons espirituais, tamanha fé ou praticar toda sorte de ações sociais, porém, sem amor, nada haverá que, ao fim, possa ser aproveitado: nem sermões bem preparados ou liturgias cúlticas; nem grandes gestos de liderança ou realização pessoal. O amor não é apenas superior aos dons, mas um marcador de quem somos em Cristo. Somos de Cristo quando buscamos amar.
Isto significa que minha vida em Cristo não pode ser definida puramente pelos dogmas que entendo e aceito, nem mesmo pelas experiências de espiritualidade que vivencio, pois, sem amor, serão vazios de significado. Minha vida em Cristo é definida pela presença do amor que não apenas é essencial como também é auto-manifesto. Para nosso temor e tremor, o Espírito descreve neste capítulo que o amor é perceptível, ou seja, ele deixa marcas. Ele é prático, notável e visível e precisa se aplicado de forma vital em cada vida e lar.
Ele é paciente, esperando pela hora oportuna para o outro. É benigno, fazendo com que a dor do outro seja também a nossa. Não arde em ciúmes, portanto evita comparações e se nega a criticar o próximo.
Somos naturalmente seres construtores de máscaras e tais máscaras tendem a esconder aquilo que é nitidamente carnal e vergonhoso. Assim, usando máscaras bem elaboradas, podemos falar sobre fé sem de fato crer; pregar contra o pecado sem intimamente repudiá-lo; expor sobre o amor e, na manhã seguinte, irritar o esposo, esposa ou filhos. Gestos de amor provam a nossa verdadeira espiritualidade.
O oposto do amor também é evidente. Uma de suas marcas é a incrível tolerância com nossas próprias fraquezas e grave intolerância com as do próximo. Desta forma, se alguém conversa com formalidade, é antipático, mas se nós o fazemos, somos respeitosos. Se alguém brada ao pregar, está sendo artificial. Se nós bradamos, é sinal de espiritualidade. Se alguém não faz, é preguiçoso, mas se nós não fazemos, somos ocupados. Se alguém contrai uma dívida, é irresponsável. Se nós nos endividamos, é porque recebemos pouco. Se alguém discorda é soberbo, mas se nós discordamos, somos criteriosos. Se alguém critica, ele o faz por estar tomado de inveja ou ciúmes. Se nós criticamos, estamos sendo zelosos. Se alguém repete um sermão, está sendo desleixado, mas se nós o fazemos, Deus quer falar novamente ao seu povo. Se alguém erra, era de se esperar vindo dele. Se nós erramos, errar é humano. Se alguém cai, suas atitudes carnais já indicavam isto. Se nós caímos, o inimigo preparou-nos uma armadilha. Se alguém brinca, está sendo mundano. Se nós brincamos, somos informais. Se alguém ofende ao falar é descontrolado. Se nós o fazemos, somos sinceros. A ausência de amor falsifica a vida cristã, e o lar é o primeiro ambiente aonde tais sinais se manifestam.
Neste mesmo capítulo, percebemos que o amor é um aprendizado. Eu era menino e agora sou homem. Enxergava de forma obscura e agora vejo claramente. Em outras palavras, amar é um processo, uma caminhada. Nós não nascemos amando.
Para amarmos verdadeiramente, devemos pedir o auxílio daquele que é amor. O salmista, no Salmo 119.2, afirma que andará nos caminhos do Senhor quando Ele dilatar o seu coração. Precisamos de corações dilatados, abertos, prontos para amar. Peçamos ao Pai, pensando nos cenários diários de nossas vidas e, de forma especial, da nossa família, dizendo: 'ensina-me a amar'.
John Edwards, em seu livro Uma fé mais forte que as emoções (Editora Palavra), nos fala sobre a incompatibilidade do amor com as palavras de agressão. Expõe que, para amar, precisamos também nos desapegar daquilo que é incompatível com o amor. Desapego é uma palavra-chave. Jamais amaremos enquanto nossa agenda diária estiver repleta de palavras de ofensa, competitividade, ciúmes, falso zelo, discórdias, comparações desnecessárias, soberba e agressões.
Se a família é um dos maiores privilégios na terra, é também uma das maiores responsabilidades. A Palavra nos adverte que "se alguém não cuida dos seus, e especialmente dos da sua família, tem negado a fé, e é pior que um incrédulo" (1Tm 5.8). Que o Altíssimo nos ajude para que sejamos sal da terra a luz do mundo, mas também abençoadores para os de perto, especialmente a família.

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