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Martinho Lutero: revolucionário por acidente

A biografia do primeiro e principal reformador - PARTE 2. Lutero declarou que um simples leigo armado com as Escrituras era superior tanto ao papa e aos concílios sem elas.

Durante seus anos iniciais, quando Lutero lesse o famoso “Texto da Reforma”Romanos 1.7 — seus olhos eram levados não para a palavra , mas para a palavra justo. Quem, afinal, podia “viver pela fé”? Somente aqueles que eram justos. O texto era claro sobre o assunto: “O justo viverá pela fé”.

Lutero observou, “Eu odiava aquela palavra, ‘a justiça de Deus’, pela qual eu tinha sido ensinado de acordo com o uso e costume de todos os professores... [que] Deus é justo e pune o pecador injusto”. O jovem Lutero não podia viver pela porque não era justo – e ele o sabia. Durante sua confusão, Lutero muitas vezes abordou Johann von Staupitz, seu superior, sobre as suas dúvidas, pecados e ódio de um Deus justo. Ele veio tão frequentemente que Staupitz uma vez mandou ele sair e cometer um pecado de verdade: “Você quer ficar sem pecado, mas você não tem pecados de verdade... o assassinato de um dos pais, vícios públicos, blasfêmia, adultério, coisas assim... Você não deve inflar os seus pecados mancos, artificiais e fora de proporção!”

Mas Lutero não se conformou: “Mesmo que minha consciência nunca me dê segurança, ainda assim sempre duvidei e disse, ‘Você não fez aquilo corretamente. Você deixou tal coisa fora da confissão”.

 

Contradizendo Tudo

O momento, ou melhor, os momentos críticos na vida de Lutero resultaram de uma decisão de seus superiores. Eles, particularmente Staupitz, ordenaram que ele fizesse seu doutorado e se tornasse um professor da Bíblia na Universidade de Wittenberg. Dependendo do ponto de vista, esta foi a mais brilhante ou a mais estúpida decisão da história do cristianismo latino. 

Lutero resistiu ao chamado, dizendo, “Será a minha morte!”, mas finalmente aceitou. Ele logo adquiriu sua própria identidade madura como professor ou doctor ecclesiae (ou professor da igreja), atrás da qual freqüentemente buscava refúgio, até mesmo ao ponto de assinar seu nome normalmente, D. Martinus Lutherus.

Mais importante que isso, a revolução em seu pensamento teológico ocorreu na sala de palestra e estudo dos professore, de 1513 a 1519. Ele começou reinterpretando a justiça de Deus e então estendeu sua interpretação para questões centrais da teologia cristã.

No fim de 1513, início de 1514 quando ele chegou ao Salmo 72, explicou aos seus alunos “Isto é o que é chamado julgamento de Deus: como a justiça ou força ou sabedoria de Deus, é com isto que somos sábios, justos e humildes ou pelo qual somos julgados.”

Esta é uma frase notável: a última frase é sobre o que ele foi ensinado; era a ortodoxia daquele tempo: Deus julga por sua justiça. Mas a primeira frase – Deus nos dá justiça – é a que ele ensinaria cada vez mais. De fato, um pouco mais tarde, durantes estas palestras, rejeitou totalmente a doutrina comum e afirmou ao contrário que todos os atributos de Deus, - “verdade, sabedoria, salvação, justiça” – eram “as coisas com as quais ele nós faz fortes, salvos, justos e sábios”.

Junto com estas mudanças vieram outras. A igreja não era mais a instituição que se gabava de sucessão apostólica; pelo contrário, era a comunidade daqueles que tinham recebido a fé. A salvação não vinha pelos sacramentos por si só, mas pelo seu papel em nutrir a fé. A idéia de que os seres humanos tinham uma faísca de bondade (suficiente para buscar a Deus), não era uma fundação em teologia, mas ensinada pelos tolos, que não conheciam teologia. A humildade não era mais a virtude que ganhava graça, mas uma resposta necessária ao dom da graça. A fé não mais consistia em obedecer aos ensinos da igreja, mas em confiar nas promessas de Deus e méritos de Cristo.

Em resumo, Lutero trabalhou numa revolução que contradisse tudo que lhe havia sido ensinado. Como certos revolucionários em seu próprio tempo, estava tudo ali, pronto para explodir, e nem mesmo o líder principal tinha consciência de seu potencial.  

 

Reação em Cadeia

De fato, o que aconteceu foi mais uma longa e poderosa reação em cadeia do que uma explosão repentina. Começou na Noite de Todos os Santos, em 1517, quando Lutero fez uma objeção formal ao modo como o pequeno e atarracado Johann Tetzel estava pregando uma indulgência plenária.  

As indulgências eram documentos preparados pela igreja e comprados por indivíduos para si mesmos ou em favor dos mortos. Consequentemente, o comprador vivo ou morto seria liberado do purgatório por determinado número de anos. No segundo exemplo, uma indulgência plenária, ou total, libertaria pessoa totalmente e raramente era oferecida. De qualquer modo, o dinheiro da venda de indulgências era usado para sustentar os projetos da igreja, tal como, no caso das vendas de Tetzel, a reconstrução da basílica de S.Pedro em Roma.  

Tetzel orquestrou cuidadosamente seus comparecimentos para excitar o interesse do público. Ele criava seus sermões para agradar e persuadir, muitas vezes terminando com a famosa frase “Quando uma moeda no cofre tilintar, uma alma do purgatório para o céu vai voar!”

Lutero simplesmente queria questionar o tráfico de indulgências da igreja. Ele desafiou todos os que ali estavam para debater a prática do modo acadêmico adequado. Mas os eventos tomaram a questão das suas mãos.  

Suas 95 Teses foram traduzidas para a língua comum e espalhadas pela Alemanha dentro de duas semanas. Lutero foi convidado para debater os aspectos teológicos em Heidelberg, durante o encontro regular dos Agostinianos na primavera de 1518.  Então, ele passou por uma entrevista excruciante com o Cardeal Cajetam em Augsburg, naquele outono. Foi tão doloroso que, Lutero lembra, ele não podia nem andar a cavalo, porque seu intestino esteve solto da manhã à noite. 

 

Oposição à Autoridade

Lutero tinha boas razões para estar ansioso. O assunto rapidamente deixou de ser a respeito de indulgências, ou as indulgências de Tetzel, (que eram extraordinárias sob qualquer ponto de vista), mas a autoridade da igreja: O papa tinha o direito de cobrar tais indulgências?

O assunto da questão original – se os seres humanos podem tirar do tesouro dos méritos de Cristo, confiados à igreja, para alterar sua posição diante de Deus – não era uma grande preocupação para os oponentes de Lutero. Na verdade, eles eram repetidamente proibidos de debater com ele a esse respeito. A questão era, ao contrário, se a igreja podia declarar que era assim e esperar obediência.   

O assunto central tornou-se público do debate de Leipzig no fim de junho, em 1519, uma ocasião magnífica. Os estudantes de Wittenberg vieram armados com bastões. O bispo local tentou proibir o debate, e o duque George da Saxônia, que o patrocinou, colocou uma guarda armada para garantir que tudo aconteceria de modo ordeiro. No fim, ficou claro que Lutero estava formando uma revolução que atingiu a própria igreja.

Em resumo, Lutero declarou que “um simples leigo armado com as Escrituras” era superior tanto ao papa e aos concílios sem elas. Dessa forma, Lutero ricamente mostrou-se merecedor da bula (documento papal), que o ameaçava de excomunhão, que veio em 1520. Ele respondeu a ela queimando tanto a bula quanto a lei do cânon.

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