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Martinho Lutero: revolucionário por acidente

A biografia do primeiro e principal reformador - PARTE 3. Lutero disse que os cristãos eram livres da lei da igreja, em particular, ao mesmo tempo em que eram prisioneiros em amor ao próximo.

Lutero, então, explicou nos mínimos detalhes as conseqüências práticas de sua teologia. Naquele verão ele escreveu os que são, indiscutivelmente, seus três tratados mais importantes: Discurso à nobreza cristã, O cativeiro babilônico da igreja, e A liberdade do cristão.Com estes três ensaios, ele colocou a si mesmo e aos seus (então) muitos simpatizantes em oposição à quase toda a teologia e prática da cristandade no fim da Idade Média.

No primeiro, ele pede aos líderes que tomem em suas próprias mãos a reforma necessária da igreja, ao mesmo tempo em que argumenta que todos os cristãos são sacerdotes

No segundo, reduziu os sete sacramentos; primeiro a três (batismo, ceia do Senhor e penitência), depois para apenas dois, enquanto alterava radicalmente seu caráter.

No terceiro, disse aos cristãos que eles eram livres da lei (em particular das leis da igreja), ao mesmo tempo em que eram prisioneiros em amor do seu próximo.

 

“Não me Retratarei”

A Dieta (ou encontro) de Worms, que aconteceu na primavera de 1521, foi, portanto, em um sentido, pouco mais do que um efeito marola de um navio que havia zarpado. O imperador de Roma Charles V (que também era Charles I da Espanha) nunca tinha estado na Alemanha. Ele convocou a dieta para encontrar os príncipes da Alemanha, os quais conhecia muito pouco e precisava cortejar desesperadamente. Mas este frei conhecido pelo nome de Lutero também precisava ser abordado.  

Lutero deixou Wittenberg para estar presente na Dieta convencido de que finalmente teria a audiência que pediu em 1517. Quando foi introduzido na Dieta, Lutero ficou surpreso em ver o próprio imperador Charles V. ele estava cercado pelos seus conselheiros e representantes de Roma, tropas espanholas, vestidos com seus melhores trajes de desfile, eleitores*, bispos, príncipes de território e representantes das grandes cidades. No meio desta augusta assembléia estava uma mesa com uma pilha de livros.

Lutero foi questionado se havia escrito os livros, e se havia alguma parte que ele desejava retratar. Ficou surpreso; este não ia ser um debate judicial, mas um interrogatório. Lutero ficou bastante confuso, tropeçou e implorou por outro dia: “Isto toca Deus e sua Palavra. Isto afeta a salvação de almas. ... Eu imploro, dê-me mais tempo”.

Ele teve um dia e, de volta aos seus aposentos, escreveu “Assim como Cristo é misericordioso, eu não retirarei nem um pingo do texto”.

No dia seguinte os negócios da Dieta atrasaram o retorno de Lutero até tarde da noite. A luz das velas tremeluzia sobre a multidão de dignatários que se espremiam na grande sala.

Ele foi novamente questionado, “Você defende estes livros, todos juntos, ou você deseja retirar algo do que você disse?” Lutero replicou com um pequeno discurso, o qual repetiu em Latim

Havia três tipos de livros na mesa, ele declarou. Alguns eram sobre a cristã e as boas obras e estes ele certamente não corrigiria. Alguns atacavam o papado e corrigir estes seria encorajar a tirania. Finalmente, alguns atacavam o indivíduo (e, Lutero admitiu, talvez de maneira muito dura), mas ainda estes não podiam ser corrigidos porque estas pessoas defendiam a tirania papal.  

Com certeza, veio a resposta, um indivíduo não podia colocar dúvida na tradição de toda a igreja! Então o examinador declarou, “Você deve dar uma resposta simples, clara e própria. ... Você se retratará ou não?”

Lutero replicou, “A menos que eu possa ser instruído e convencido com evidências na Palavra de Deus ou com raciocínio aberto, claro e distinto... Então, não posso e não me retratarei, porque não é seguro ou sábio agir contra a consciência”.

Então, ele completou, “Isto é o que penso. Não posso fazer diferente disso. Que Deus me ajude! Amém.”

 

Cavaleiro George

Quando as negociações pelos dias que seguiram não tiveram êxito em conseguir qualquer concessão, Lutero foi condenado. Ainda assim, recebeu salvo-conduto, como havia sido prometido antes dele vir, mas somente por outros vinte e um dias.

Mas assim que Lutero seus companheiros começaram a voltar para Wittenberg, quatro ou cinco cavaleiros armados vieram da floresta, arrancaram Lutero de sua carruagem, e o arrastaram de , meio tropeçando, meio correndo. Rapidamente, ele foi informado de que fora seu príncipe, Elector Frederick, O Sábio, que o seqüestrara para mantê-lo a salvo. Logo chegou a Wartburg, um dos castelos de Frederick. Lutero era um fora da lei; qualquer um podia mata-lo sem temer represálias de uma corte da lei.

Lutero desprezava sua estada forçada em Wartburg. Como “cavaleiro George” (sua nova identidade), ele agora comia como um nobre e sua nova dieta irritava seu aparelho digestivo. Ele sentia falta de seus amigos em Wittenberg, e odiava ficar afastado da luta. Até fez planos de conseguir uma visita na Universidade de Erfurt onde estaria fora da jurisdição. Isto falhou, mas ele conseguiu um cavalo e fez uma viagem até Wittenberg, de onde retornou muito aliviado no curso dos eventos entre seus amigos.

Apesar de suas reclamações sobre solidão forçada e sua própria ‘preguiça’, os dez meses no gelo de Lutero estão entre os mais produtivos de sua vida. As obras teológicas e acadêmicas continuaram, com seu Comentário sobre o Magnificat, tocante e quase autobiográfico, o incompleto Postillae e a tradução do Novo Testamento, do qual ele fez um rascunho em onze semanas.

Mas o que começou com suas palestras e as 95 teses estava agora virando um movimento popular. Ele sentia-se obrigado a responder às perguntas práticas das pessoas. Ele o fez sob forma de tratados, tais como Sobre a confissão, A abolição das missas particulares, e acima de tudo, Sobre os votos monásticos.

O último se destaca como um dos mais extraordinários trabalhos jamais escritos por uma figura pública. Por toda Alemanha, em particular Wittenberg, monges e freiras estavam fugindo de seus monastérios e clausuras—alguns por razões de consciência, outros por pura conveniência. Desprezar a religião estava virando lugar comum. Ao mesmo tempo, os defensores da velha igreja insistiam na inviolabilidade dos votos monásticos.  

Totalmente consistente com seu, A liberdade do cristão, Lutero tomou uma estrada intermediária. Toda a questão era se e como alguém podia servir melhor ao próximo. Se alguém o fizesse sob as ordens sagradas, então que permanecesse assim. Por outro lado, os votos monásticos não eram uma prisão e se alguém serve o próximo melhor fora do monastério ou clausura, então que viva no mundo. A liberdade de servir, portanto, tornou-se um marco na Reforma Luterana Alemã. 

 

Decisões Controversas

Conforme expandiu-se sua revolução, Lutero foi cada vez mais atirado na arena pública. Ele retornou abertamente a Wittenberg, no início da primavera de 1522, e sem pedir a permissão do eleitor, retomou o púlpito e pregou sobre a obrigação de amar o próximo. A decisão de retornar cresceu da sua convicção de que movimento incipiente da reforma (alguns afirmavam que os cristãos devem se casar e que os monges e freiras deviam tornar-se leigos) não estava respeitando a liberdade cristã ou as consciências fracas.

Em tempo, Lutero foi forçado a tomar outras decisões, muitas das quais ainda são controversas.

Quando houve agitação, resultante na Guerra dos Camponeses, em 1524–1525, ele primeiro condenou os príncipes e depois os exortou a esmagar a revolta.

Quando Erasmus, famoso estudioso humanista, duvidou de que a verdade sobre se os humanos têm livre arbítrio pudesse ser conhecida, Lutero replicou, “o Espírito Santo não é um cético” e acusou Erasmus de não ser cristão.

Quando os reformadores suíços Zwinglio e Oecolampadius questionaram se o corpo e sangue de Cristo estavam realmente nos elementos da Ceia do Senhor, Lutero respondeu “Mera física!” e ajudou a inflamar a controvérsia de que por fim dividiu as igrejas Luterana e Reformada.

Seu esforço tremendo em criar um novo clero e uma igreja reformada também trouxe as autoridades civis mais diretamente para o governo diário da igreja. 

Sua decisão de se casar com uma freira que fugiu, Katharina von Bora, escandalizou a muitos. Para Lutero, o choque era acordar de manhã com “tranças no travesseiro ao meu lado”.

Sobre o esforço contínuo de criar uma Bíblia em alemão, ele disse “Se Deus quisesse que eu morresse pensando que sou um homem inteligente, não teria me colocado no negócio de traduzir a Bíblia”.

Com todas estas decisões e ações, Lutero exibiu uma incrível consistência. O grande marco de sua vida é o modo como ele juntou sua personalidade forte e sua doutrina vigorosa. Para ele, a doutrina nunca foi uma questão meramente intelectual ou acadêmica. Pelo contrário, era a própria vida.  No prefácio de “Large Catechism” (Grande Catequese), ele insiste para que os cristãos leiam e releiam suas catequeses para que “com tal leitura, conversa e meditação o Espírito Santo esteja presente e derrame sempre luz e fervor cada vez maiores e renovados”. Ele queria que todos os cristãos se tornassem pessoas ensinadas por Deus. 

 

Dr. James M. Kittelson é professor de História na The Ohio State University, Columbus, Ohio, e autor de Luther the Reformer(Lutero, o Reformador) (Augsburg, 1986).

 

Copyright © 2011 por Christianity Today International

*NT – No império romano, eleitor era qualquer príncipe alemão que podia votar e eleger um novo imperador
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