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O melhor que já houve

Cristãos modernos ainda o olham em busca de inspiração, mas hoje pouco se sabe sobre ele. O que fez o recluso analfabeto, conhecido como Antão do Deserto, para merecer tanta atenção?

Atravessando o deserto seco no Egito, um grupo de filósofos finalmente chegou na “montanha interior”, a residência monástica de um cristão chamado Antão. Os estudiosos céticos pediram ao velho homem analfabeto que explicasse as inconsistências do cristianismo, e depois de começado, eles ridicularizaram alguns de seus ensinos – especialmente aquele que dizia que o Filho de Deus morreu numa cruz.

Antão, que só falava copta (e não o grego, a linguagem internacional daquele tempo), respondeu através de um intérprete. Ele começou perguntando: “O que é melhor – confessar uma cruz ou atribuir atos de adultério e pederastia àqueles que vocês chamam de deuses?” Depois de questionar um pouco mais a razoabilidade do paganismo, ele passou ao ponto central.

“E vocês, com seus raciocínios e sofismas”, ele continuou, “não convertem pessoas do cristianismo para o helenismo, mas nós, por meio de ensino da fé em Cristo, tiramos vocês de sua superstição... Através de sua bela linguagem, vocês não impedem o ensino de Cristo, mas nós, clamando o nome de Cristo crucificado, expulsamos os demônios que vocês chamam de deuses”.

Uma multidão de seguidores estava ali, esperando para ver Antão, e entre eles estavam alguns homens que “sofriam com demônios”. Antão pediu que fossem trazidos a ele. Então ele clamou pelo nome de Cristo e, de acordo com um antigo relato, “imediatamente os homens se levantaram e ficaram sãos, voltaram à razão e deram graças a Deus”.

Os filósofos gregos ficaram surpresos, mas Antão disse rapidamente: “Por que se maravilham disso? Não somos nós que o fazemos, mas Cristo, que faz essas coisas por intermédio dos que crêem nele.”

Os filósofos então partiram, abraçando Antão quando saíram, dizendo que haviam “aprendido com ele”.

Esta história, e outras parecidas com ela, mostram que no fim de sua vida o solitário Antão tinha ganhado uma reputação em todo o mundo mediterrâneo. Não apenas pessoas simples, mas os sofisticados e poderosos buscavam a ele. Sua vida e suas palavras inspiraram companheiros cristãos a uma devoção maior e, algumas vezes, levou pagãos à conversão. Mas sua sabedoria e sua eloqüência não surpreenderam a tantas pessoas quanto sua extrema devoção a Cristo.   

Esta devoção expressou-se de maneira impressionante para sua época (bem como para a Europa cristã por outros mil anos) assim como o é para nós hoje. Este modo é chamado de asceticismo, ou originalmente, “a disciplina”, e a instituição que criou é chamada de monasticismo.

Embora Antão seja algumas vezes considerado o fundador do monasticismo, ele não foi. Mas colocou o monasticismo no mapa cristão por causa de sua prática extraordinária das disciplinas monásticas. No romance e no filme The Natural, o jogador de beisebol, Roy Hobbs, anseia por ser “o melhor que já houve”. Em termos de como os primeiros cristãos da Idade Média entendiam a vida espiritual, Antão foi, de fato, considerado o melhor que já houve. 

Antão nasceu em 251 d.C., um “egípcio de raça” (todas as citações são de The Life of Antony [A vida de Antão], de Atanásio, de onde também vem o relato acima). O Egito estava sob o controle de Roma e os cristãos ainda eram sujeitos a ondas de perseguição. Mas o Egito era também o lar de uma das comunidades cristãs mais vibrantes do império e já havia produzido duas das maiores mentes da Igreja – Clemente e Orígenes.  Conseqüentemente, muitos egípcios ricos e influentes estavam se unindo à Igreja.

Também foi assim com os pais de Antão, que eram “bem nascidos e prósperos”, e que o criaram na fé; Antão regularmente freqüentava a igreja com seus pais.

Embora ele não estivesse se interessado em aprender a ler e a escrever qualquer coisa que não fosse copta nativo, logo mostrou um grande interesse em ouvir as Escrituras lida por alguém.

Quando Antão tinha entre 18 e 20 anos, aconteceram dois eventos que alteraram sua trajetória de vida. Primeiro, seus pais morreram – não sabemos exatamente como, , embora a praga seja forte candidata. Antão na época achou-se cuidando de “uma irmã bem jovem”, bem como da herança da família de mais de 200 acres de terra.

O segundo evento aconteceu seis meses depois. Num domingo, a caminho da igreja, ele estava contemplando a passagem bíblica que descrevia os primeiros cristãos vendendo suas posses e dando tudo aos pobres (Atos 4.32-37). Quando ele entrou na igreja o Evangelho estava sendo lido e Antão ouviu: “Se vocês quiserem ser perfeitos, vão e vendam tudo que têm e dêem aos pobres; venham e sigam-me e terão um tesouro no céu.”

Antão estava perplexo – era como se “a passagem fosse lida para ele”. Ele não se preocupou com minúcias nem hesitou, mas obedeceu como tivessem, de fato, falado com ele pessoalmente. Ele doou a herança de sua família para sua cidade (embora os historiadores não sejam claros sobre qual cidade era), vendeu, ou deu o resto de suas posses, pôs sua irmã sob o cuidado de um convento e “devotou a si mesmo, daí por diante à disciplina em vez de à família”.  

“A disciplina” incluía uma variedade de práticas, desde oração constante e trabalho manual a jejuns severos e privação de sono. Ele começou a estudar com um cristão eremita numa vila vizinha e pelos anos seguintes visitou vários outros: “Ele seguiu a graça de um, a sede de oração de outro, anotou cuidadosamente a liberdade de ira de um e a preocupação com o ser humano de outro... Admirou um pela sua paciência, e outro por jejuar e dormir no chão... Ele notou, da mesma forma, a piedade de Cristo e o amor mútuo em todos eles.”

Amor mútuo, talvez, mas havia também no monasticismo inicial um espírito competitivo, na qual os monges buscavam ultrapassar um ao outro na ”disciplina”. Aqui foi onde Antão brilhou; ele tinha como objetivo “ser o primeiro de todos quando o assunto fosse crescimento moral”.

“Sua vigilância era tanta que ele muitas vezes passava a noite toda sem dormir, e o fazia não apenas uma vez, mas várias, o que causava assombro. Comia uma vez por dia após o pôr-do-sol, mas às vezes passava de dois dias sem comer, outras vezes até quatro. Sua comida era pão e sal, e sua bebida era apenas água... Uma esteira simples era suficiente para ele dormir, mas regularmente dormia mesmo no chão.”

Antão acreditava, como a maioria dos cristãos de seu tempo, que a intensidade da “alma é forte quando os prazeres do corpo são enfraquecidos”. Um corpo bem descansado, saciado de prazer e das coisas boas da vida, torna-se espiritualmente preguiçoso. Ou seja, sem dor, sem ganho. Os cristãos como Antão tomavam a palavra de Jesus literalmente sobre a incompatibilidade das riquezas e Deus, sobre os prazeres terrenos serem uma pedra de tropeço para a alegria celestial, e assim por diante. Nem todos levavam a disciplina tão radicalmente quanto Antão, mas mesmo aqueles que não reconheceram a necessidade de disciplina para o corpo e seus desejos tinham algum regime físico e espiritual.

Embora Antão já impressionasse muitas pessoas da cidade, ele continuava insatisfeito com seu progresso. Então, se mudou “para um lugar distante da vila”, entrou numa tumba e, combinando com um amigo que lhe traria pão, fechou a entrada.

Foi aí que Antão experimentou alguns de seus ataques demoníacos mais horríveis.

 

Prevenindo-se contra os demônios

As batalhas arrepiantes de Antão contra os demônios são as partes que mais trazem tormento na biografia de Atanásio e tornaram-se um assunto popular para os artistas medievais. Hoje é difícil determinar exatamente o que Antão viveu: seriam sonhos (pesadelos), encontros reais com espíritos, lutas psicológicas, alucinações, ou o quê? O que quer que fosse, o biógrafo de Antão usou-os claramente para ilustrar a força espiritual de Antão, ou melhor, como Cristo o ajudou.

Encontros anteriores parecem ser do tipo comum – “uma grande nuvem de poeira de considerações” que alguém poderia esperar que ele vivesse: “O demônio (...) tentou levá-lo para longe da disciplina, sugerindo memórias de suas posses, a guarda de sua irmã, os laços de amizade, amor pelo dinheiro e pela glória, os variados prazeres da comida, os descansos da vida e, finalmente, o rigor da virtude.”

Mas as coisas ficaram violentas depois que Antão se fechou na tumba: “Uma multidão de demônios (...) chicoteou-o com tanta força que ele caiu sobre a terra, sem fala, devido as torturas.” Quando seus amigos o acharam, pensaram, a princípio, que ele estivesse morto. Depois que foi levado de volta para a vila, se recuperou e voltou para a tumba, onde passou por algumas de suas mais vívidas experiências espirituais:

“O lugar ficou imediatamente cheio com aparições de leões, ursos, leopardos, touros e serpentes, víboras, escorpiões e lobos e cada um destes se movia de acordo com sua forma. O leão rugia, querendo saltar sobre ele; o touro parecia querer espetar com os chifres; a arrepiante serpente não o alcançava; o lobo foi direto sobre ele – e, juntos, os sons de todas as criaturas que apareceram eram terríveis, e sua ferocidade era aterradora.”

Antão sentiu como se ele tivesse sido atingido ou ferido. Mas apenas debochou dos demônios: “Se houvesse algum poder entre vocês, teria sido suficiente que apenas um de vocês viesse... É uma marca de sua fraqueza que vocês façam mímica de bestas irracionais.”  

Depois de ser atacado desta maneira não se sabe por quanto tempo, Antão olhou e viu “o teto sendo aberto, assim lhe pareceu, e um raio de luz desceu em direção a ele. De repente os demônios desapareceram de sua vista”.

Um Antão confuso perguntou: “Onde você estava? Por que não apareceu no começo, para que impedisse meu sofrimento?”

Uma voz respondeu: “Eu estava aqui, Antão, mas esperei para ver você lutar. E agora, como você perseverou e não foi derrotado, serei seu ajudador para sempre, e o farei famoso em todos os lugares.”

Agora Antão “estava ainda mais entusiasmado em sua devoção a Deus”. Ele foi mais para dentro do deserto e encontrou uma fortaleza há muito deserta com uma fonte ou poço em seu interior. Aos 35 anos, Antão entrou na fortaleza, fechou o portão (mais uma vez, depois de combinar com amigos para que o levassem comida), e começou a viver ali sozinho.

Com isso, sua reputação cresceu ainda mais, tanto que, com os anos, mais e mais pessoas viajavam até sua fortaleza na esperança de ver o herói do deserto. Alguns relataram ouvi-lo batalhar contra os demônios “emitindo sons de dar pena e chorando”. Outros recebiam consolo através do portão. E muitos, inspirados em seu exemplo, tomavam a disciplina para si.

Um dia, após 20 anos nesse ritmo de vida, Antão, “tendo sido levado em divino mistério e inspirado por Deus”, abriu o portão e apareceu. A multidão ajuntada ali estava “espantada em ver que seu corpo tinha mantido sua condição antiga, não estando gordo por falta de exercício, nem emagrecido devido ao jejum e os combates contra os demônios”. O que era ainda mais importante, eles estavam impressionados porque “o estado de sua alma era de pureza, pois não estava contrito pela dor nem relaxado de prazer... E ao ver a multidão não ficou chateado, pelo contrário, ficou exultante por ser abraçado por tantas pessoas”.

(Nesta e em outras descrições, Atanásio, como um teólogo lutando contra o arianismo, também estava tentando mostrar Antão como um exemplo do propósito maior de Deus em Cristo: Deus se tornou homem para que possamos nos tornar semelhantes a ele.)

Com isso, Antão começou seu ministério público e Atanásio relata que ele curou os doentes, exorcizou demônios, reconciliou inimigos e consolou os que sofriam. Também “distribuiu graça ao falar”, falando longo tempo com aqueles que buscavam orientação espiritual. Sua especialidade parece ter sido lidar com demônios e insistir com outros para buscar a disciplina, dizendo: “Não consideremos, ao olhar para o mundo, que desistimos de alguma grandeza, pois mesmo toda a terra é pequena em relação a todo o céu.”

Como resultado, “pela atração de seu discurso, surgiram muitos monastérios e, como um pai, ele os guiou”.

 

Indo para o um novo nível

Pelo resto de sua vida, Antão ia e voltava, ficando entre a reclusão monástica e o ministério público não apenas no deserto, mas também na cidade. Quando o imperador Maximiano começou a perseguir os cristãos em 311, Antão foi a Alexandria encorajar aqueles que estavam sob julgamento, confortar os presos, visitar os condenados (uma das punições de Maximiano era cegar um olho, paralisar uma perna e mandar o condenado para as minas) e apoiar outros durante a execução. Enquanto alguns corriam e se escondiam quando o governo fazia mais pressão, Antão continuou a aparecer em público. Mas as autoridades se recusaram a tocá-lo, talvez temendo que ele se tornasse um mártir tanto para pagãos quanto para cristãos.

Quando a perseguição de Maximiano acabou alguns anos depois, Antão retornou à sua cela no deserto e “lá era martirizado diariamente por sua consciência, fazendo batalhas nos debates da fé”. E, mais uma vez, elevou o nível de sua disciplina: começou a vestir uma camisa de cabelos (com as cerdas esfregando-se constantemente contra a pele) e parou de tomar banho (considerado um luxo).

Embora ele não quisesse nada mais do que ficar sozinho em oração, as pessoas continuaram perturbando-o. Cada vez mais aborrecido com as interrupções, ele buscou refúgio viajando pelo Nilo. Mas um dia, enquanto esperava para subir num barco que passava, ele ouviu uma voz “de cima” dizendo: “Se você realmente deseja estar sozinho, vá agora para a montanha interior.”

Ele ficou confuso sobre o que aquilo queria dizer exatamente, mas se juntou a alguns viajantes sarracenos que iam para o leste. A cerca de 100 milhas a sudeste do Cairo, viu uma montanha que sentiu ser o lugar revelado a ele, e ali ficou.

Em vez de continuar dependendo de doações, Antão plantou trigo e alguns vegetais para se sustentar – e para oferecer algo para os inevitáveis visitantes (que não paravam de chegar). Um punhado de monges se juntou a ele (incluindo Atanásio, por um tempo) e testemunhou seu asceticismo, ouviu suas batalhas contra demônios e buscou conselho espiritual.

Antão tinha cerca de 40 anos então, e pelos 65 anos seguintes (ele viveu até os 105), esta foi sua base. Sua notável devoção e longevidade aumentaram sua reputação de santidade. Atanásio registra um número de histórias notáveis deste período e o historiador é pressionado a revelar o que é verdade e o que pertence ao mundo das parábolas.

Em muitas histórias, Antão é claramente o “novo Adão”, um exemplo de humanidade restaurado, alguém que não está sujeito à criação, mas é o mestre dela. Em um incidente, Antão repreende animais que pisotearam seu jardim, e daí em diante, eles não fizeram mais isso. Em outra história, um grupo de hienas ameaçou atacá-lo, e quando Antão o ordenou que partisse, elas obedeceram.

Outras histórias mostram Antão vivendo uma série de experiências místicas. Mais de um relato mostra sua clarividência; por exemplo, um dia em oração, ele viu dois monges, que vinham para vê-lo, caídos ao lado da estrada, morrendo de sede. (Quando os monges enviados por Antão para ajudá-los chegaram até os viajantes, um deles já havia morrido.)

Ele também mostrou um dom de profecia: contou a uns indivíduos por que tinham vindo vê-lo antes que eles falassem. Ele até mesmo relatou ter tido uma experiência fora do corpo: “Ele sentiu-se sendo carregado para fora, e enquanto se perguntava o que era aquilo, viu a si mesmo, como se estivesse do lado de fora de seu corpo.”  

Embora Atanásio inclua tais histórias para impressionar os leitores com a santidade de Antão, várias vezes ele os lembra: “Trabalhando com Antão estava o Senhor, que se tornou carne por nós, e deu ao corpo a vitória sobre o diabo, para que cada um daqueles que verdadeiramente lutam possam dizer ‘Não sou eu, mas a graça de Deus que está em mim’.” E ele mostra o próprio Antão apontando outra direção para as pessoas: “Ele pedia que ninguém se maravilhasse com ele, mas que se maravilhassem com o Senhor.”

Quando tinha cerca de 105 anos de idade, seu corpo estava frágil, já havia perdido todos os seus dentes e sabia que a morte estava próxima. Ele disse a seus companheiros como deveriam dispor de suas poucas posses (um casaco de pele de ovelha, por exemplo, deveria ir para Atanásio). Então, ele exortou-os: “Estejam atentos e não destruam sua prolongada disciplina... Lutem para preservar seu entusiasmo... Vocês conhecem os demônios enganadores... não temam, ao contrário, busquem inspiração em Cristo sempre, confiem nele.”  

Depois que morreu, foi enterrado numa cova sem identificação, e a localização da mesma se perdeu na história.

“Ele é famoso em todos os lugares”, Atanásio escreveu no fim de sua biografia, “e todos se admiram dele, e até pessoas que nunca o viram sentem saudades dele”.

Conseqüentemente, por mil anos, Antão foi considerado espiritualmente o melhor que já houve, o monge protótipo e o novo Adão, um exemplo do que Deus pode fazer com uma alma devota.

Como tal, Antão inspirou o movimento monástico, que mais do que qualquer outra instituição cristã, é um dos responsáveis pela evangelização e pela cristianização da Europa – um legado irônico para um egípcio analfabeto que lutou para viver longe da civilização.

 

Mark Galli é editor sênior da Christianity Today

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