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Polos perigosos

A missão que Deus confiou a nós deve ser realizada dentro dos limites de nossa humanidade.

Há um bom tempo, visito missionários no campo – tempos atrás, na condição de pastor de uma igreja local; nos últimos anos, como líder de uma organização evangélica. Nessas visitas, estão em mira sempre dois alvos: primeiro, mostrar amor e compaixão por esses que rompem com tantas coisas, como a família, amigos e igreja; segundo, para poder ouvir o coração deles, especialmente no que se refere à missão que estão desenvolvendo.
A cada visita quase sempre constato uma situação preocupante. Alguns estão profundamente engajados no ministério, mas, ao mesmo tempo, extremamente desgastados. Suas emoções estão alteradas, o corpo pede descanso e a alma anela por estar mais perto de Deus. Encontro outros experimentando um grande deserto: desmotivados, parecem carregar um fardo pesado sobre seus ombros, que os impede de se moverem e darem um passo sequer. Compartilhar algo já lhes causa imensa dor. Silentes, preferem puxar o freio de mão e aguardar o tempo para retomar o ministério.
No Brasil, não é raro encontrar líderes que estão experimentando um cansaço fenomenal, a ponto de suas faces mostrarem o quanto estão debilitados. Fico imaginando como estariam por dentro, em suas emoções. São esses que tem acelerado freneticamente o ministério, motivados por razões que consideram justas, mas que os têm levado à própria destruição.
Outros tem feito a opção do deixa a vida me levar, vida leva eu. Frustrados, sem perspectivas, dilacerados por decepções profundas, fizeram a opção de tirar o pé do acelerador, manter uma velocidade constante, de preferência reduzida. O mais incrível é que muitos estão relativamente satisfeitos: preferem liderar com poucas demandas e satisfazem-se com resultados pífios. Manter o que existe já é bom demais.
São dois polos opostos. Nenhum deles privilegia verdadeiramente a missão de Deus no mundo. Um deles caminha na trilha do ativismo e ressalta o homem e as suas conquistas; o outro está à margem do caminho e compromete sua fidelidade ao avanço do Reino.
Como Jesus nos ensinou a servir nesse mundo? Ao convocar aqueles que seriam seus discípulos, o Mestre delineia um quadro bastante distinto daquele que conhecemos e vivemos nossos dias. Em nenhum momento Ele chama pessoas para um trabalho, mas para segui-lo (Mc1.17).
Entramos em um processo incontrolável de "linha de produção" de novos convertidos, através dos mais variados modelos de crescimento de igreja. O resultado não poderia ser outro: líderes esgotados pelo exagerado labor. Os novos cristãos, nesse caso, se formam através do nosso trabalho. E, ao receberem tal formação, se tornam igualmente trabalhadores e não discípulos. A capacitação de novos líderes passa a ocorrer através tão somente de treinamentos e não da própria vida. E, como não poderia deixar de acontecer, os nossos liderados passam a seguir homens e instituições. Discípulos, ao contrário, são gerados a partir daqueles que já seguem Jesus. Modelados pelo caráter de Cristo, eles encarnam o evangelho.
Com tantos líderes exaustos, deveríamos nos perguntar se eles são fruto de um processo perverso, instalado em nossas igrejas, o qual tem por objetivo simplesmente os resultados. E o que dizer daqueles que estão exatamente no lado oposto? Os que já passaram por experiências profundas de esgotamento e que hoje preferem liderar no estilo low profile, mostrando discrição, evitando aparecer, e não querendo chamar a atenção?
Ao viver momentos de tensão e perseguição, Jesus reagiu de maneira mansa, mas firme. Em uma dessas ocasiões ele declarou que buscava agradar aquele que o enviou (Jo 5.30). Líderes que perderam os sonhos e estão estagnados necessitam lembrar que a motivação do ministério de Jesus era agradar ao Pai Eterno. Aos seus discípulos, Jesus demonstrava sempre essa relação de amor profundo pelo Pai.
A missão que Deus confiou a nós deve ser realizada dentro dos limites de nossa humanidade. Super homens existem apenas para aqueles que querem protagonizar sucesso e visibilidade, com o risco iminente constante do esgotamento. Líderes desmotivados, no lado oposto, demonstram que os sonhos se acabam.
Não precisamos de líderes que são conhecidos por sua agenda sempre ocupada ou por sua visibilidade. Nem tampouco daqueles que apenas "batem ponto" e já não desejam ser usados poderosamente por Deus. O segredo de uma liderança equilibrada e saudável sempre se pautará pelo desejo de servir o próximo e levar pessoas a seguir Jesus de Nazaré.

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