Menu

Trabalho em equipe

Como a pregação em parceria ajudou nossa igreja e salvou meu ministério.

Aquela segunda-feira não me cheirava bem. Estava desapontado com o sermão que havia pregado no domingo e não tinha ideia do que ministrar à igreja na semana seguinte. Minha caixa de e-mails estava lotada, as entradas financeiras do mês anterior haviam sido baixas e um oficial do Corpo de Bombeiros estava em meu gabinete pronto a me passar um sermão acerca de nossas inadequadas placas de saída. Pensei comigo mesmo: Ingressei no ministério para pastorear e equipar pessoas para esse trabalho, não para passar por tudo isso!
Não conseguia tirar da mente todas aquelas frustrações, mas, logo após aquela segunda-feira tão difícil, comecei a colocar em prática um princípio que viria a revitalizar meu ministério. Tudo começou quando uma pessoa, que frequentava um grupo de estudo bíblico, procurou-me para dizer como aquela experiência estava sendo gratificante. Fui até o líder do grupo, Steve, e o elogiei pelo trabalho. Ele ficou tão feliz que eu lhe indaguei, quase instintivamente: "Steve, que tal você me ajudar ministrando essa série de estudos aos domingos pela manhã?"
"Com certeza", ele respondeu.
Entrei em pânico. Eu não o conhecia bem o suficiente e, para dizer a verdade, nunca o tinha ouvido falar em um púlpito. O estudo que ele estava ministrando, de autoria do pastor Andy Stanley, tinha o monstro Godzilla na capa. Havia feito a coisa certa? Mais tarde, descobriria que sim. Na verdade, aquele convite "precipitado" acabou por me ajudar a redescobrir a principal razão de meu chamado para o ministério. Desde então, tenho descoberto o valor de ensinar outras pessoas a pregar. Claro que isso nada tem de novo – está lá em 2 Timóteo 2:2 –, mas, colocar esse princípio em prática mudou completamente a visão de nossa igreja a respeito do ensino e da pregação, e também a minha visão ministerial.
Descobrimos que a ministração em equipe é, muitas vezes, a melhor coisa para manter as pessoas interessadas em uma mensagem do que quando apenas uma pessoa está ensinando. Já formei dupla com mais de uma dúzia de pessoas e descobri uma coisa: Foi exatamente para isso que ingressei no ministério!
Aaron é um de meus parceiros de ensino preferidos. Começamos a ensinar juntos quando ele ainda estava na faculdade e, ao longo dos anos, ele tem-me ajudado a desenvolver esse processo. Assim, já que esse artigo trata justamente do ensino em equipe, penso que nada é mais apropriado do que experimentarmos escrever juntos. Eis aqui sua contribuição a respeito de como escolher o estudo certo.

ESCOLHENDO BEM (POR AARON)
Selecionar o estudo certo é crucial para o processo de pregação em equipe. Na primeira vez que eu e Dan elaboramos juntos um sermão, descobrimos isso da pior forma. Quando essa pregação em equipe ainda era só uma nova ideia, Dan perguntou se eu gostaria de ajudá-lo com um sermão. Sem fazer quaisquer perguntas, concordei prontamente. Grande erro. Depois que concordei, Dan prosseguiu, informando-me o assunto do sermão que precisava de ajuda. Seria sobre uma passagem do Antigo Testamento que eu jamais havia visto na vida e, falando bem honestamente, não estava muito interessado em conhecer. Claro que nos encontramos e conversamos a respeito do texto – estudei a passagem – e ministramos o sermão com certo grau de sucesso, mas algo crucial estava faltando.
Depois desse episódio, descobrimos que a pregação ou o ensino em equipe não tem a ver apenas com escolher um tema e pegar a primeira pessoa que aparecer para dividir o púlpito. Não. É preciso combinar o assunto certo com a pessoa certa. Quando não estava suficientemente envolvido pelo assunto, consequentemente acabava por não estudar tanto quanto deveria. Assim, minha contribuição para o desenvolvimento do sermão era menor e minha forma de ministrar não era tão apaixonada. Então, quando eu e Dan nos encontramos para avaliar como estava indo o trabalho, chegamos à mesma conclusão: poderia estar melhor. E não foi difícil descobrir o porquê. Havia ajudado Dan a pregar seu sermão, mas não havia sido parte do processo de encontrar um sermão no qual eu me encaixasse melhor. Minha colaboração tinha de ter começado antes.
Então, na segunda vez em que Dan se propôs a dividir o púlpito comigo, o processo já havia sido redefinido. O objetivo, agora, não era apenas aliviar a carga sobre os ombros do pastor, mas fazer com que eu tivesse a chance de compartilhar algo de meu testemunho pessoal com o restante da igreja. Assim, estruturamos o sermão em torno de uma viagem que havia feito a Nova Orleans. Peguei a Grande Ideia (você vai entender o que é isso adiante) para o sermão e Dan me ajudou a colocá-la dentro de um contexto bíblico. Desde o começo, ficou muito claro para nós que aquela mensagem era totalmente diferente. Pude compartilhar episódios que aconteceram comigo no campo missionário (alguns engraçados, outros nem tanto), todos muito significativos para mim. A Grande Ideia ficou bastante clara e a igreja estava atenta. Foi um sermão muito melhor, pois eu, de fato, preguei essa mensagem, em lugar de, simplesmente, dizê-la. Que sensação maravilhosa!
Muito tempo se passou desde esses primeiros sermões, mas a lição permaneceu. Selecionar corretamente o estudo é o cerne do sucesso na pregação em equipe. Se seu companheiro não estiver "apaixonado" pelo assunto, se não estiver pregando suas próprias ideias, do seu próprio jeito, não crescerá nem aprenderá muita coisa. E o mesmo acontecerá com aqueles que terão de ouvi-lo.

A DANÇA (POR DAN)
Jim parecia outra pessoa depois que nosso grupo de homens terminou um estudo acerca dos dons espirituais. Decidimos, então, fazer uma série de sermões sobre esse tema e pedi a ele que pesquisasse um pouco a respeito. Dei-lhe algumas linhas-mestras e marcamos um almoço, uma semana depois. Pedimos alguns burritos de carne assada [prato tradicional da culinária mexicana; tortilla de farinha geralmente recheada com carne (bovina, suína ou frango)] e chá gelado light, e sentamos para conversar. Depois de algum tempo, perguntei-lhe como estava o estudo e sua resposta foi explosiva: "Uau, essa será a melhor semana de todas! Se conseguirmos fazer com que as pessoas descubram seus dons, tudo pode acontecer!" Ele prosseguiu relatando tudo o que achava que precisaria dizer naquele sermão, tinha escrito cinco páginas com base no que lera em um livro, estava de posse de um material sobre Romanos 12 e 1 Coríntios e havia reunido algumas coisas sobre o templo israelita e sobre o falar em línguas. Além disso, precisaríamos aplicar um teste sobre os dons no final do culto.
Jim tinha ideias ótimas e eu não queria acabar com o seu entusiasmo, no entanto, definitivamente, o sermão de domingo pela manhã não era o melhor momento para implementá-las todas de uma vez. Chegamos, assim, aos pontos básicos que precisam ficar claros logo que se começa a trabalhar em equipe, principalmente, se o parceiro não tiver muita experiência no púlpito.

A NECESSIDADE. Procuro sempre pessoas que estejam desejosas de comunicar aos outros uma verdade espiritual que tenham encontrado recentemente, a qual lhes tenha suprido uma necessidade e nos ajuda a identificá-la imediatamente.
UMA PASSAGEM. Quando fazem seus próprios estudos, as pessoas tendem a ter dúzias de passagens as quais elas desejam incluir no sermão. Nós procuramos nos concentrar em um texto bíblico por mensagem. Esse texto pode até levar a outras passagens, mas somente se elas ajudarem a comunicar o ponto central da mensagem.
A GRANDE IDEIA. A maioria das pessoas com quem trabalho têm muitas ideias que desejam incluir no sermão, mas sempre insisto em manter o foco em uma ideia principal. Consequentemente, tudo o que não contribui na comunicação desse pensamento central é jogado fora.
APLICAÇÃO. Essa parte é divertida, se o seu colaborador já aplicou a passagem ou o tema da mensagem em sua vida e se sabe de outras pessoas que tenham feito o mesmo. O único problema, nesses casos, é limitar o número de exemplos para manter a aplicação concisa.
ABERTURA E FECHAMENTO. Geralmente, abro e fecho o sermão. Descobri que ter o pastor-presidente abrindo a mensagem tranquiliza a congregação. Quando faço a conclusão, posso recapitular o que foi dito, esclarecer um ponto que tenha ficado vago e corrigir algum princípio doutrinário que tenha sido colocado de forma meio enviesada.

APRENDENDO (POR AARON)
Sendo eu a pessoa mais jovem envolvida na liderança da igreja, procurei cultivar um relacionamento próximo, tipo mestre e aluno, com o Dan. Isso é algo bastante necessário quando se trata de pregação em equipe. A primeira vez que dividimos o púlpito foi também a primeira vez que preguei. Por isso, inicialmente, quando trabalhávamos juntos, era ele quem fazia o trabalho pesado. Eu trazia o assunto a ser tratado, mas era ele quem encontrava as passagens bíblicas corretas, quem compunha o esboço, fazia a edição dos slides e quem tinha de encontrar a tal Grande Ideia da mensagem. Tudo o que eu tinha de fazer era aparecer na igreja no domingo com algumas ideias. Mas, na medida em que fui ficando mais confortável atrás do púlpito, pude dar uma contribuição maior no processo de preparação das mensagens.
Com o passar do tempo, Dan e eu caímos em uma confortável rotina. Normalmente, a gente se encontrava duas ou três vezes para discutir o sermão, selecionar o que íamos estudar e pregar, encontrar a Grande Ideia e apontar as necessidades que a mensagem deveria suprir. Na medida em que fomos participando juntos desse processo, vez após vez, Dan, de forma muito inteligente, começou a mudar a dinâmica. Logo, passei a ir até ele com ideias de sermões baseados em passagens que já vinha estudando e fiquei responsável por fazer o esboço, pois o Dan estava "ocupado demais". Ele me questionava sobre qual seria a Grande Ideia da mensagem e o que as pessoas poderiam aprender com aquele sermão. Já deu para perceber o que estava acontecendo? Dan, de forma muito sutil, estava ensinando e orientando este jovem tímido, buscando transformá-lo em um pregador vigoroso.
As orientações que recebi de Dan através desse processo tiveram um enorme impacto sobre a minha vida. Hoje sou um pregador muito melhor e mais confiante do que jamais pude imaginar que me tornaria. Já tenho umas três ou quatro mensagens que escrevi e preguei sozinho! Isso graças ao fato do Dan ter abraçado a ideia da ministração em equipe e de ter posto em prática a árdua tarefa de me treinar, para que também a congregação pudesse colher bons frutos disso.

CONCLUINDO (POR DAN)
Atualmente, divido o púlpito com um grupo de pessoas variado, pelo menos uma vez por mês. Já fiz isso com pessoas mais velhas, estudantes de faculdade, homens e mulheres. Atualmente, tenho considerado a ideia de usar estudantes do Ensino Médio. As parcerias não curaram meu bloqueio na hora de escrever, não fizeram com que as contribuições financeiras dobrassem, nem acabaram com todos os aborrecimentos da vida ministerial. Mas faço o que amo.
Estou ajudando no desenvolvimento de cristãos que se alimentam sozinhos, um sermão de cada vez. Agora tenho comigo cerca de uma dúzia de "Aarons", o que é altamente encorajador, principalmente, quando a segunda-feira não está 'cheirando muito bem'. Talvez a razão de Jesus ter feito discípulos não tenha sido deixá-los aqui para que iniciassem a Igreja quando Ele fosse embora. Talvez, assim como eu, Ele sentisse necessidade de tê-los por perto enquanto ainda estava por aqui.

Dan Cooley é pastor da Cottonwood Church, em Rio Rancho, Novo México, e é autor do livro Bizarre Bible Stories.

Aaron Blackwell.

voltar ao topo