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Autoridade sem autoritarismo

Sob a perspectiva bíblica, autoridade delegada por Deus é exercida com humildade para o bem dos liderados.


Eric Fromm disse que há dois tipos de autoridade: a imposta e a adquirida. Autoridade imposta é autoritarismo. A verdadeira autoridade é adquirida; conquistada pelo exemplo e não pela força. A autoridade é legítima, natural e agradável; o autoritarismo é imposto, é ameaçador, produz tensão e medo. O autoritarismo é o modelo de liderança autocrática e despótica. Nesse estilo de liderança o povo tem medo, vive sob pressão, pois o líder se sente dono do povo e não servo do povo.

A liderança bíblica, porém, coloca a pirâmide em ordem invertida. O reino de Cristo é um reino de ponta-cabeça. Ser grande é ser pequeno; ser senhor é ser servo; ser o maior é ser servo de todos. A igreja de Deus só tem uma cabeça, Jesus Cristo, e sua liderança foi timbrada pelo serviço. Não há espaço para caudilhos na igreja de Deus. Liderança cristã não é exercida segundo o modelo do mundo, mas segundo o exemplo de Cristo.

Jesus disse que o estilo de liderança do mundo é inspirado na autoridade imposta: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade (Mc 10:42). Porém, a autoridade na igreja deve ser diametralmente oposta: Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser ser o primeiro entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos (Mc 10:43,44). Jesus arremata o assunto, dando seu testemunho pessoal: Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10:45).

Há uma crise de autoridade no mundo, desde o cimo da pirâmide até sua base. Desde os governantes até os governados. A crise mais aguda que presenciamos é a de integridade. Há líderes fortes em influência, mas fracos em ética. Têm muito poder nas mãos, mas nenhuma consistência moral. Líderes que se servem do povo em vez de servi-lo. Líderes que se abastecem do poder em vez de usá-lo para promover o bem dos liderados. Essa caricatura de autoridade está se aninhando também dentro das igrejas. Há líderes que têm muito poder e pouco compromisso com a ética cristã. Governam o povo com rigor desmesurado e assentam-se na cadeira dos privilégios, esquecendo-se que o maior de todos os líderes, Jesus Cristo, não veio para ser servido, mas para servir.

Sob a perspectiva bíblica, autoridade delegada por Deus é exercida com humildade para o bem dos liderados. No reino de Deus, o conceito de autoridade muda profundamente. Maior é o que serve. Aquele que quiser ser o maior de todos, deve servir a todos. Isso não significa confusão ou anarquia. Não significa que o líder vai deixar de lado suas prerrogativas e suas funções. Significa que, ao usar a bacia e a toalha como símbolos de sua autoridade, vai impactar seus liderados não pela força, mas pelo exemplo.

Identificando e enfrentando os conflitos

A liderança lida com tensões. É impossível governar bem sem a habilidade de administrar conflitos. Normalmente, os conflitos acontecem quando os líderes ou os liderados exorbitam de suas funções. Na liderança da igreja, os conflitos aparecem quando o pastor tenta governar a igreja sem ouvir os seus presbíteros e diáconos e também quando não tem clareza para onde caminha, deixando o povo confuso. O pastor precisa ter uma visão clara e deve comunicá-la com precisão. Necessita ter a humildade de receber contribuição e estar disposto a aperfeiçoar seu projeto quando alguém lhe apresenta uma ideia melhor.

Vivemos hoje uma tendência para o culto à personalidade. Há pastores que querem ser tratados na igreja como astros de cinema. Buscam os holofotes e se colocam acima do rebanho. Querem ser servidos em vez de servir. Querem o bônus do ministério e não o ônus. Tratam a igreja como uma empresa familiar, cujo fim último é o lucro.

Outro conflito muito comum na liderança da igreja é a síndrome do dono de igreja. Há líderes que se posicionam como Diótrefes, o homem que se sentia ameaçado com toda pessoa nova que chegava à igreja. Em vez de ser um facilitador, era um estorvo (3 João 1:9,10). A igreja não é do pastor nem dos presbíteros. A igreja é de Deus. Precisamos liderá-la com habilidade vinda de Deus, com a humildade de Cristo e no poder do Espírito Santo.

Na igreja de Corinto, havia quatro grupos: Uns se diziam de Paulo, outros de Pedro, outros ainda de Apolo e outros de Cristo. Paulo coloca o machado da verdade na raiz dessa insensata tendência, perguntando: Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um. Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento (1 Co 3:5-7). Na igreja de Deus, todos nós somos nivelados no mesmo patamar. Somos todos servos. Na igreja de Deus não há chefes, caudilhos, donos. O único dono da igreja é o Senhor Jesus. Aquele que comprou a igreja tem cicatrizes nas mãos.

O líder precisa ser uma pessoa humilde. Por ser um servo de Deus, não se melindra com as críticas nem depende dos elogios para fazer a obra. O líder cristão tem coragem de pedir desculpas quando erra, tem a humildade de aprender com a experiência dos outros e tem a disposição de valorizar mais os outros do que a si mesmo. A igreja não pode ser uma feira de vaidades – e há muitos conflitos oriundos de vaidade pessoal. A igreja não pode ser uma passarela onde os líderes expõem sua mania de grandeza. O Senhor da igreja cingiu-se com uma toalha e lavou os pés dos discípulos numa bacia. A humildade é o pórtico da honra. Um líder nunca é tão grande como quando se cobre com as vestes da humildade.

Tenho pregado em mais de oitocentas igrejas no Brasil, de diferentes denominações. Tenho conversado com centenas de líderes e tenho ouvido os lamentos de muitos liderados. Quando entabulo esses dados, chego às seguintes conclusões:

A primeira é que há muitos líderes não convertidos no ministério. Há pastores que pregam o evangelho ao povo, mas nunca foram transformados por esse evangelho. Tornaram profissionais da religião. Alguns até ocupam postos de destaque na denominação e aprendem todos os cacoetes da religiosidade, mas jamais experimentaram o toque regenerador do Espírito Santo. Jesus tinha no seu seleto grupo de 12 apóstolos, um que apenas mantinha as aparências. Judas Iscariotes gozava o privilégio de ser o tesoureiro do grupo. Saiu, certamente, muitas vezes para falar das boas-novas de salvação para outras pessoas. Viu e ouviu as coisas mais extraordinárias saindo dos lábios de Jesus. Estava acostumado com o sagrado, mas era um ladrão. Os filhos de Eli eram sacerdotes, mas eram adúlteros e filhos de Belial. Esse é um risco solene: pregar as boas-novas de salvação aos perdidos e ainda ser um perdido.

Segunda conclusão: há muitos líderes não vocacionados no ministério. O apóstolo Paulo testemunhou para os presbíteros de Éfeso que recebeu o seu ministério do Senhor Jesus (At 20:24). John Jowett, em seu livro O pregador, sua vida e sua obra, disse que muita gente confunde o que é vocação. Em virtude de não ter conseguido uma vaga na universidade para fazer Medicina, Direito ou Engenharia, chega à brilhante conclusão de que está sendo chamado para o ministério. Até alegam: todas as portas estavam fechadas, então vi aberta a porta do ministério. Vocação é o contrário disso: o indivíduo vê todas as portas abertas, mas só enxerga a porta do ministério. Vocação é como algemas invisíveis. O chamado de Deus é irresistível.

Terceira: há muitos líderes preguiçosos na obra. Há muita gente que está na liderança, mas não sua a camisa. Gente que dorme em berço esplêndido. Gente que está à frente da igreja para se locupletar, em vez de pastorear o rebanho. Gente que busca os favores e não os labores. Liderança é serviço. O líder cristão é servo. O pregador, por exemplo, é chamado para pregar a Palavra, para se afadigar no estudo da Palavra. Não podemos nos alimentar de leite magro e destilar alimento sólido no púlpito. Não podemos abastecer o povo com o Pão do Céu com o vazio da nossa mente e a frouxidão dos nossos braços.

Quarta conclusão: há muitos líderes doentes emocionalmente no ministério. Há líderes que deveriam estar sendo tratados e que estão cuidando do povo. O pastor precisa cuidar de si mesmo e, só depois, apascentar o rebanho (At 20:28). O líder precisa cuidar de si mesmo para não repetir os mesmos erros que reprova na vida do povo. O líder precisa viver de forma coerente. Precisa cuidar de si mesmo para não se tornar uma pedra de tropeço para o povo. Se a vida do líder é a vida de sua liderança, os pecados do líder são os mestres do pecado. Os pecados do líder são mais graves, mais hipócritas e mais danosos do que os pecados das demais pessoas. Mais graves porque o líder peca, tendo contra si um maior conhecimento; mais hipócritas, porque o líder combate o pecado em público e, às vezes, o pratica em secreto; mais danosos, porque quando o líder tropeça, mais gente é atingida.

Quinta conclusão: há muitos líderes confusos doutrinariamente. Um líder precisa ter convicção acerca do que crê, ensina e vive. Há líderes que mudam de posição doutrinária a cada congresso que participam. Há outros que mudam o rumo na ação pastoral a cada proposta que escutam. Se os próprios líderes estão confusos, quanto mais os liderados!

Sexta conclusão: há líderes que alimentam o povo com a palha das tradições humanas, em vez de dar-lhes o trigo da verdade. Colocam fardos e mais fardos sobre o povo, preceitos e mais preceitos. Tornam a vida cristã um peso insuportável, quando Jesus veio para dar alívio.

Sétima conclusão: há líderes que olham a igreja como um grande negócio. Abrem igrejas como se abre franquias. O propósito não é a salvação dos perdidos, mas a arrecadação de gordas somas. Fazem do ministério um comércio e desengavetam as indulgências da Idade Média, mercadejando a Palavra de Deus.

Finalmente, há líderes vivendo em pecado no ministério. Gente que já perdeu o temor de Deus, que tem a consciência cauterizada. Só vão parar quando forem flagrados. Como o sumo sacerdote Josué, estão no altar, mas com vestes sujas (Zc 3:1-3).

Regras de boa convivência

O relacionamento humano precisa ser pautado por princípios mais do que por regras. Esses princípios são:

Primeiro, da fidelidade com responsabilidade. Não podemos trabalhar juntos sem acordo. Não podemos ser um time, se jogamos contra o patrimônio. Não logramos êxito se não confiamos uns nos outros. A integridade e a confiança mútua são a argamassa da boa convivência. Paulo denuncia, no final de sua vida, o abandono de Demas (2Tm 4.10) e a traição de Alexandre, o latoeiro (2Tm 4.14). A classe pastoral, infelizmente, é pouco unida. Há desconfiança. Por isso, muitos líderes lidam com a multidão, mas vivem na solidão. Cuidam dos outros, mas não são cuidados. Têm medo de abrir o coração, com o propósito de serem mentoreados, porque já sofreram decepções. Os líderes de uma igreja são diferentes uns dos outros, mas precisam trabalhar a unidade na diversidade. Eles não estão competindo, mas cooperando uns com os outros. A igreja é o espelho da sua liderança. Líderes que semeiam a desconfiança colhem conflitos na comunidade.

O segundo princípio é o exercício da verdade em amor. A verdade sem amor torna-se dura como o granito; porém, o amor sem a verdade tem consistência gelatinosa. Muitos líderes deixam pequenos problemas tornarem-se problemas gigantescos, porque lhes falta a habilidade de confrontar na hora certa, a pessoa certa, com a dosagem certa. Vivemos hoje, tristemente, a realidade da busca do carisma sem o caráter, da performance sem a ética, de resultados sem a integridade. A igreja evangélica brasileira, em muitos redutos, rendeu-se ao pragmatismo filosófico. Está interessada naquilo que funciona e não na verdade. Busca resultados e não integridade. Está atrás daquilo que dá certo e não do que é certo.

O terceiro, da honra com prestação de contas. Precisamos honrar as pessoas que trabalham conosco. Precisamos valorizá-las pessoalmente e também em público. Isso não significa elogiar quando se deveria confrontar. O confronto deve ser reservado, mas o elogio deve ser em público. Os líderes resolvem suas tensões de forma discreta, mas proclamam seu apreço de forma pública. Um líder cristão precisa ter uma vida íntegra e transparente. Precisa prestar contas de suas ações. Cresce o número de pastores e líderes que enriquecem às custas do evangelho. Fazem da igreja uma empresa, do evangelho um produto, do púlpito um balcão, do templo uma praça de negócios e dos crentes consumidores. O fim último é o lucro. Esses líderes não aceitam confronto nem prestam contas à comunidade. Colocam-se acima da ética.

O quarto princípio é o respeito à individualidade. Embora sejamos um corpo, temos diferentes membros. Embora trabalhemos juntos na mesma causa, com o mesmo propósito, somos diferentes em personalidade, temperamento e dons. A diversidade não destrói a unidade, antes é sua multifária beleza. Os líderes que abafam as outras lideranças, e colocam-se em um pedestal, estão na contramão da liderança bíblica. Um verdadeiro líder é aquele que descobre novos líderes e investe neles. Não faz uma carreira solo, mas forma uma orquestra e comanda com sua batuta esses valorosos instrumentos. Moisés treinou Josué. Elias treinou Eliseu. Paulo treinou Timóteo. Jesus deixou doze homens para levar o evangelho até aos confins da terra. Nós precisamos seguir essa mesma esteira!

O quinto, a disposição de abrir mão das próprias ideias para abraçar ideias melhores. Não somos infalíveis. Não temos a última palavra. Muito embora tenhamos sonhos e projetos, precisamos estar abertos a olhar para a vida na perspectiva do outro. Devemos desistir dos nossos sonhos para abraçar novos projetos, se estes são melhores do que os nossos sonhos. Não podemos negociar o inegociável. Porém, precisamos ter coragem de mudar os métodos. Sabedoria é escolher os melhores processos para alcançarmos os melhores resultados. Precisamos ser fiéis e também relevantes.

Quando ceder e quando enfrentar

Liderança é a arte de negociar. Um líder é um articulador, alguém que tem a capacidade de lidar com polos opostos e costurar alianças. Um líder é um influenciador: transforma conflitos em reuniões de fraternidade e crises em oportunidades. Uma coisa que o líder não pode negociar é a verdade. É ledo engano cair nas teias do pragmatismo. O líder cristão não subscreve a ética de que os fins justificam os meios. Ele trabalha com valores absolutos, com princípios absolutos, com a Palavra absoluta de Deus. Hoje, há muitos líderes sacrificando a convicção no altar da conveniência. Gente que abandona sua fé para alcançar os favores imediatos do lucro. Gente que prefere os aplausos do mundo em vez da aprovação de Deus.

Sou pastor há 30 anos. Já lidei com tensões na liderança, porém, sempre com respeito às pessoas e sensibilidade à visão dos demais líderes. Pela graça de Deus, sempre olhei para meus líderes como meus grandes amigos. Sempre procurei honrá-los. Mesmo quando tinha discordâncias pessoais, jamais permiti que essas diferenças fizessem sombras no relacionamento interpessoal.

Ninguém perde em ser humilde. Quando nos humilhamos, Deus nos exalta. Quando honramos a Deus e valorizamos as pessoas que trabalham conosco, a obra fica mais leve e o trabalho alcança resultados mais promissores.

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