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Mulheres, aquela solidão e determinados amigos

"Nesta vida, o que importa é quem você tem, não o que tem, eis outra constatação boa de ler por aqui."

Atire a primeira pedra aquele que quase nunca lembra de convidar uma pessoa só para sair, para ir ao cinema, para tomar um sorvete, para apenas dar sua companhia. A sociedade costuma montar programações com pares, com famílias. Por isso, datas festivas são tão dolorosas para tantos "sós", os feriados são incrivelmente solitários. E blá-blá-blá!

Guarde esta palavra: solidão. Ela finca estacas onde você nem percebe, pouco nota... Esteja mais atento! Como sempre nos disseram: "Pimenta só arde no olho do outro". Enquanto não é você quem está sem programa, sem amigos, sem boa companhia, a ardência atinge os olhos de quem sofre com ela.

Também li, certa vez, que você conhece melhor quem são seus amigos quando faz festas e comemorações. Mas só descobre quem, de fato, são os verdadeiros quando fica "na podre" (na pior), seja sem saúde, sem grana, sem alegria, sem status, sem ter o que oferecer.

A boa notícia é que com a solidão, você passa a ter maior oportunidade e competência para avaliar o quilate de cada relacionamento de amizade. Torna-se, não seletivo, mas sensível para saber quem é quem. Consequentemente, transforma-se em um ser perdoador, tolerante, aquele que compreende que cada um dá o que tem e o que pode. Relaxa e adquire consciência sobre em quem investir e como. Isso é uma baita lição! Mas que não chega de graça. Tem um preço. E devemos ser gratos por termos pago cada moeda do desassossego.

Por mais que você esteja sofrendo com seus dissabores e insatisfações, escreva no seu espelho que ninguém é obrigado a ser muleta de ninguém. O mundo não vai parar para consertar seu coração. Dura, mas verdadeira afirmação! E alguém ainda disse que pessoas não precisam carregar os outros nos ombros. Melhor é carregálos no coração". Pura ilusão! Gente em tribulação precisa mesmo ser carregada nos braços, ora! Salva uma vida quem faz respiração boca-a-boca, insiste na massagem cardíaca, ajoelha diante do corpo inerte, oferece os ombros...

Fomos ensinados a sermos bons profissionais, mas a maioria de nós não sabe quase nada sobre primeiros-socorros do corpo e da alma. Somos ineficientes para detectar sintomas, colapsos, fraquezas e anomalias diversas. Preferimos apenas orar... ou dizer aquele "vai passar".

Outra boa notícia é que é possível apaixonar-se por si mesma, sentir prazer na própria companhia. Por vezes, eu sentia regozijo quando chegava um final de semana em que poderia estar a sós com a Virgínia. Adorava poder me curtir, ouvir minhas músicas, meus discos, ler meus livros, cozinhar o que queria, enfeitar-me de bem-querer... Claro que, algumas vezes, precisei fazer as pazes comigo mesma, mas este período de encantamento foi reconstrutor. Enfim, passei a ser minha melhor amiga. Uau! Isso é vital.

E verdade seja dita, muitas famílias sequer percebem o quanto podem estar fazendo falta para os próprios parentes solitários. É aí que entram os amigos, seres superiores à previsibilidade do caos humano nas horas mais nefastas do dia e... da noite. Pegam você rachada, maltratada, imperfeita e "comem um quilo de sal junto". São os que optam não olhar para o próprio umbigo, não se deixam levar por melindres, nem se permitem acostumar com a indiferença.

Amigos e família de verdade sabem perdoar e escolhem caminhar mais uma milha. Nesta vida, o que importa é quem você tem, não o que tem, eis outra constatação boa de ler por aqui. Porque o "homem que tem muitos amigos pode congratular-se, mas há amigo mais chegado que um irmão (Provérbios 18.24).

Adquirir este privilégio requer luta acima da banalidade, da normalidade do cotidiano. E, decepções à parte, a vida é um mistério de idas e vindas, capaz de refazer parâmetros que não nos servem mais. O mundo nos aguarda, novos amigos nos aguardam, a graça de Deu nos aguarda, a eternidade nos aguarda! Nada pode ser comparado a tudo isso!

Eu agradeço pelos meus amigos de estiagem, de entre-safra, de seca, de verão, de insuportável sol, de incessante chuva. Cada um esteve comigo no tempo certo. Até porque "em todo o tempo ama o amigo e na angústia nasce o irmão" (Provérbios 17.17).

Virgínia Martin é jornalista, professora e roteirista, pós-graduada em Marketing, em Comunicação Empresarial, e em Pedagogia, autora de "Divorciados, curados e bem humorados".

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