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Amadas do Pai, resgatadas por Cristo e capacitadas pelo Espírito

Que mensagem do púlpito edificaria a mulher hoje?


Cristo ensinou indistintamente para homens e mulheres, pois permitiu – coisa inédita e revolucionária – que as mulheres "se assentassem aos seus pés", ou seja, fossem diretamente instruídas por Ele. Homens e mulheres foram batizados sem distinção de gênero, revertendo assim toda a discriminação que pesava sobre a mulher. Em Cristo, podemos restaurar o projeto original de parceria e mutualidade na relação homem/mulher a ponto de o apóstolo Paulo admitir que "somos um" nEle.

O mandamento essencial de amar a Deus e ao próximo como a si mesmo diz respeito a todos os discípulos de Cristo. Mas sua aplicação tem implicações diferenciadas para ricos e pobres, senhores e servos, homens e mulheres. É interessante notar que diante da pergunta de qual é o maior mandamento, Jesus começa respondendo: "Ouça". Cada pessoa precisa começar ouvindo Deus no seu íntimo e perceber o que o Espírito Santo lhe revela sobre o caminho a seguir, já que "todas as coisas são lícitas, mas nem todas lhe convêm". O processo de santificação é individual, mesmo que alguns princípios sejam aplicáveis a todos, como, por exemplo, as bem-aventuranças.

No momento atual, creio que a Palavra que a mulher precisa ouvir é: Escolhe a vida, para que vivas, tu e a tua descendência, amando ao Senhor teu Deus, dando ouvidos à sua voz, e apegando-te a ele; pois dito depende a tua vida e a tua longevidade (Dt 30:19,20). A mulher está embriagada pelo poder recém-conquistado e não percebe que deixou a sociedade escolher por ela. Ela se livrou do papel de Amélia, para se tornar uma supermulher. Passou de um extremo para o outro e precisa encontrar o equilíbrio, reconhecendo o seu tamanho real, permitindo-se ser apenas humana, em construção, aprendiz, escolhendo dar prioridade à sua relação com Deus, abrindo-se para um vínculo de intimidade e apego, buscando nEle sabedoria para priorizar o que é essencial.

VÍNCULOS SUPERFICIAIS

Durante muitos séculos as mulheres foram confinadas ao espaço da casa, proibidas de estudar ou trabalhar fora, tuteladas pelo pai e depois pelo marido. Seu único objetivo era conseguir algum reconhecimento através da maternidade. Ela vivia na sombra do marido, sem projetos pessoais a não ser o bom andamento do lar. No século XX, com a pílula anticoncepcional e o movimento feminista, as mulheres 'viraram a mesa'. Quiseram provar sua capacidade competindo com os homens em um mundo construído por eles. Um mundo muito desenvolvido do ponto de vista tecnológico, mas muito pobre do ponto de vista relacional. Os meios de comunicação se multiplicaram e os vínculos ficaram cada vez mais superficiais. No caso do Brasil, a situação é agravada por um modelo econômico que gera injustiça social e exclusão, corrupção e concentração de renda.

Hoje, as mulheres estão sendo empurradas para o mercado de trabalho porque o sistema precisa de consumidores compulsivos – ou seja, de pessoas que trabalham cada vez mais para ter mais e assim garantir um reconhecimento social. Neste processo competitivo, muitas mulheres colocaram em segundo plano seus relacionamentos, inclusive o projeto de ter filhos, e tornaram-se caricaturas do masculino: mulheres ambiciosas, mandonas, frias e calculistas. Os relacionamentos afetivos foram rompidos e muitas se queixam de ser solitárias, carentes e estressadas.

Está na hora de elas avaliarem o seu caminho, pois a sabedoria é perceber por onde andaram, quais foram suas motivações, os ganhos e perdas destas escolhas. A mulher precisa resgatar sua feminilidade, sua afetividade, sua capacidade de sentir empatia e compaixão. Pois, se o mundo adotou o lema de Descartes – "Penso, logo existo" –, Cristo nos propõe outro paradigma: "Amo, logo existo". Assim, precisamos reencontrar o caminho do coração que nos permite construir relações de afeto com o outro e principalmente com Deus.

RESGATE DO AFETO

Ao reafirmar a prioridade das pessoas sobre as coisas, da intimidade e do compromisso sobre relações funcionais e descartáveis, do bem estar coletivo sobre um projeto egocêntrico de poder, elas podem ajudar a questionar os rumos do país e propor alternativas mais coerentes com o Evangelho: um desenvolvimento sustentável do ponto de vista sócio-ambiental, uma redistribuição das riquezas, a começar pela terra, bem como educação, saúde e condições de vida dignas para todos.

Infelizmente, a igreja aderiu sem reservas à teologia da prosperidade, uma versão religiosa do modelo capitalista. As bênçãos são medidas pelo sucesso financeiro e a relação com Deus torna-se utilitária. Este modelo é contrário à mensagem de Cristo e precisa ser denunciado para voltar à essência da fé que é tornar-se ao longo da vida mais amoroso, mais solidário, mais engajado na construção de um mundo mais fraterno e justo.

A contribuição da mulher como cidadã do Reino de Deus terá consequências nas relações interpessoais, permitindo ao homem o resgate do afeto tão negligenciado por nossa cultura machista. Os homens foram massacrados por um modelo que lhes nega o direito de chorar, de mostrar suas dúvidas e medos, de serem vulneráveis. O acolhimento da mulher permite finalmente depor as armas e estender os braços um para o outro, construindo uma parceria e um companheirismo que os complementa e enriquece emocionalmente.

Os filhos serão os primeiros beneficiados por esta transformação no padrão de interação e na dinâmica da família. Quando cessa a luta, há espaço para o lúdico, para rir juntos, para desfrutar da presença de cada um, sem cobranças nem comparações. Cada um encontra segurança para desenvolver suas próprias habilidades e colocá-las ao serviço dos outros. Os recursos humanos são multiplicados e compartilhados.

É possível, assim, sinalizar o Reino de Deus, sendo agentes de reconciliação e transformação.

A mulher precisa, em primeiro lugar, cuidar do seu coração porque dele procedem as fontes da vida. Ela precisa peneirar o impacto negativo de sua história familiar e da sociedade para encontrar a sua vocação: servir a Deus através do próximo. Isto só é possível quando firma sua identidade, não no ter e no fazer, mas no ser, consciente de ser filha do Deus altíssimo, adotada e amada incondicionalmente. Com esta convicção, ela pode reconhecer a verdade sobre quem ela é: suas qualidades, talentos e dons, mas também suas fraquezas, incoerências e falhas.

Cultivando a humildade e a simplicidade, ela contribui para construir relações de respeito mútuo e coloca-se a serviço do outro para alavancar seu crescimento e mobilizar seus recursos. Uma relação homem/mulher apaziguada gera famílias onde os filhos podem desabrochar e descobrir suas próprias vocações. Abrir mão do poder para amar repercutirá também na estrutura da igreja de forma a restaurar o projeto original de corpo e noiva de Cristo, em relações mais horizontais de edificação pelo exercício dos dons.

CARVALHOS DE JUSTIÇA

Em vez de tentar usar Deus ao nosso serviço, somos chamados a servi-lO, sendo carvalhos de justiça, indo ao encontro dos que sofrem toda sorte de exploração, sendo voz dos que não são ouvidos, levando esperança aos excluídos. A mulher precisa caminhar ao lado do homem, não atrás como fazia antigamente, nem na frente, como é tentada a fazer hoje. Ela precisa olhar além do seu umbigo, de seus projetos egocentrados, para engajar-se na transformação da sociedade.

Sou grata por mulheres como Zilda Arns que desenvolveu a pastoral da criança e Marina Silva que levantou a bandeira da luta contra a corrupção e a favor dos excluídos, pois são fonte de inspiração. Foram duas mulheres – Rachel Carson e Ellen Swallow – que iniciaram o movimento ecológico. Saúdo as empreendedoras sociais como Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares. Três mulheres – a presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, a militante Leymah Gbowee, também liberiana, e a jornalista e ativista iemenita Tawakkul Karman – foram laureadas com o Prêmio Nobel da Paz de 2011. Entre nós, temos Margaretha Adiwardana, presidente e fundadora da Associação Missão Esperança (AME), que socorre as vítimas de desastres ambientais em todo o mundo, em uma perspectiva de Missão Integral que gere condições de sustentabilidade, educação e crescimento.

Não posso deixar de mencionar as muitas missionárias anônimas que dedicam suas vidas a pregar o Evangelho levando não apenas a Palavra, mas também proporcionando condições de vida digna através de ações sociais que promovam o desenvolvimento individual e coletivo. Fomos criadas à Imagem de um Deus trino, um Deus cujo amor se expressa de forma perfeita na relação entre o Pai, o Filho e o Espírito, e que nos convida a participar desta comunhão. Por isto, nossa essência é sermos filhas amadas do Pai, resgatadas por Cristo e capacitadas pelo Espírito. Qualquer projeto que não esteja fundamentado nesta essência gerará frustração, desencontros e amargura. Cabe a nós escolher a melhor parte: a intimidade com Deus que gera vida em abundância!

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