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O “sim” e o “não” do processo de cura

O que se deve pensar sobre pessoas que experimentam a cura interior e depois retornam a seus velhos hábitos?

"Eu sou o Senhor que te sara". A afirmação divina, registrada em Êxodo 15.26, tem servido de alento e esperança para milhões e milhões de pessoas ao longo dos séculos. Em meu ministério de cura, tenho presenciado as mais variadas situações envolvendo a ação curativa do Senhor. Há aqueles que são curados fisicamente; outros são restaurados emocionalmente por Deus, na experiência conhecida como cura interior. Muitas pessoas, sobretudo nos últimos tempos, têm experimentado a cura divina na esfera psicológica, familiar ou na área dos relacionamentos. O tema da cura percorre por toda a narrativa bíblica, da criação à queda, da redenção à consumação. Cada um desses estágios envolve cura, restauração, reconciliação e a transformação do povo de Deus em espírito, alma – mente, vontade e emoção – e corpo através do poder do Espírito Santo.

Tenho visto também, por outro lado, diversas pessoas que passam por experiência bem diversa. Em algum momento de suas trajetórias de fé, elas receberam do Senhor uma restauração emocional ou psicológica, algo que renovou suas vidas inteiramente. Contudo, com o passar do tempo, esses crentes passam a ter extrema dificuldade para crer que, de fato, foram curados e restaurados. Começam, então, as dúvidas sobre se, efetivamente foram alcançados de maneira milagrosa pelo favor e perdão divinos. Entre a dúvida e a autocondenação, acabam voltando atrás, muitas vezes em situação espiritualmente ainda pior que a anterior. Como a cura se manifesta entre a redenção e a consumação? E as primeiras curas experimentadas por essas pessoas são verdadeiras? Como podemos entender isso, principalmente aqueles de nós que cremos e "praticamos" a cura?

Leanne Payne é bastante conhecida nos círculos cristãos pelo seu ministério de cura interior. Em seu livro The healing presence: Curing the soul through union with Christ [inédito em português, o título da obra seria "A presença que cura: Curando a alma através da uniãocom Cristo"], ela afirma que a cura é bloqueada, entre outras coisas, pela falta de autoaceitação de quem realmente somos. Quer dizer, somos criados à imagem de Deus, mas temos dificuldade de acreditar nisso. De onde essa falta de autoaceitação vem? O grande teólogo alemão Karl Barth disse: "A mente não redimida do homem, separada da mente do Criador, nega sua origem, nega-se a si mesma". Como isso acontece? Barth vê essa luta do "eu" como uma batalha dentro de nós entre o "sim" e o "não". Nós pertencemos ao "sim" de Deus, e não ao "não" do pecado e da nossa natureza caída. Ainda assim, o "não" tem um poder maior de convencimento do que o "sim". Isso fala de forma sucinta a respeito do processo de cura interior. O conhecimento de quem somos em Deus é o ponto de partida para a cura. Tal conhecimento é expresso na história do menino afligido por um espírito que lhe provocava mudez, cujo pai clamou: "Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade" (Marcos 9.24). É como Barth destaca em outra de suas sentenças: "Somos pó e cinza com nosso 'sim' e com nosso 'não'".

RESTAURAÇÃO

Nossa identificação está ou em Deus ou no pecado do qual fomos libertos. Uma vez livres do pecado, ele perde o poder sobre nós. Outro teólogo, o NACIONALIDADE Miroslav Volf, escreve: "Quanto maior o mal sofrido, mais entranhado ele fica na identidade da pessoa que o suportou (...) Quando a transgressão nos define, assumimos 'identidades distorcidas, congeladas no tempo e fechadas para o crescimento'. (...) Em casos menos severos, a transgressão pode não nos definir totalmente; ainda assim, ela se aloja no fundo de nosso ser e lança uma sombra escura em tudo o que fazemos e pensamos".

Durante uma sessão de cura com uma mulher chamada Marjorie, ela contou-me a respeito de seu sentimento de rejeição. "Minha primeira experiência de cura interior", ela começou, "envolveu uma lembrança que tive de ter sido trancada para fora de casa quando tinha cerca de cinco anos de idade". Aquela primeira sessão, e uma subsequente, revelaram que seu pai havia ficado bastante perturbado quando sua mãe descobriu que estava grávida dela. O fato de seus pais estarem passando por uma crise no casamento apenas aumentou ainda mais o problema. Aquela pessoa contou mais tarde que outra experiência em busca de restauração revelou que ela própria rejeitava e condenava a si mesma. Depois de muitos anos, através da cura interior, ela experimentou o perdão dos outros – e perdoou também a si mesma. Só que, agora, está sentindo a rejeição mais uma vez, só que por parte da família de seu marido. Havia certa tensão entre eles devido aos problemas de saúde de seus sogros e de algumas questões mal resolvidas. Ela sentia que a família do marido a odiava e que o velho ciclo da rejeição estava a todo vapor. O poderoso "não" estava de fato projetando uma escura sombra sobre sua vida.

Por outro lado, como Barth observa, embora "não haja um 'sim' tão determinante que não possibilite a existência do 'não'", também é verdade que "não há um 'não' tão determinante que não seja passível de ser substituído pelo 'sim'". Também tenho visto essa realidade em meu ministério. Depois de ter sido rejeitada por seus pais, Susan, outra de minha aconselhadas, viveu com seus avós durante grande parte de sua infância. Quando seu avô morreu, foi morar com uma senhora idosa por dois anos. Ela me contou que, por toda sua vida, sentiu-se abandonada e rejeitada. Essa era sua identidade. Durante as sessões de cura interior, sua percepção de si mesma como filha de Deus foi sendo lentamente restaurada. Aos poucos, ela foi sendo capaz de perdoar a seus pais. Pude perceber o progresso em sua cura quando ela começou a permitir que as pessoas se aproximassem dela e a amassem.

Porém, tempos depois ela foi profundamente magoada por um amigo próximo. Susan foi lançada de volta ao trauma de rejeição que sofreu em sua infância. Ela sentiu sua alma voltando àquele velho e conhecido estado de coração frio e fechado. Mas ela, de repente, se deu conta de que estava abrindo uma porta para o isolamento em sua vida de novo, e decidiu, então, pedir ajuda a Deus, até que o perdão aconteceu e a amizade foi restaurada. A cura é um processo e o mal que aconteceu no passado de Susan está saindo de seu íntimo à medida que sua identidade em Deus está sendo revelada.

GRAÇA QUE BASTA

A questão da nossa identificação em Deus é levantada de forma ainda mais acentuada pelos exemplos de pessoas que não são curadas da maneira como gostariam de ter sido. Isso significa, portanto, que a cura não aconteceu? Ou sugere, de alguma forma, que o Senhor não abençoou essa pessoa com seu grande "sim"? Tomemos como exemplo o "espinho na carne" de Paulo. Não sabemos qual era essa sua aflição, mas fica claro que era penosa para o apóstolo e que lhe causava desconforto. Ele pediu três vezes a Deus que o removesse; ainda assim, continuou a servir ao Senhor com mais zelo ainda, pregando e ensinando a respeito de seu Reino com poder e autoridade – inclusive curando os enfermos e expulsando demônios em nome de Jesus. Deus tinha um propósito ao recusar o pedido de Paulo para ser curado daquele mal, chamado pelo próprio apóstolo de "mensageiro de Satanás" – e considerava que a graça do Senhor lhe bastava, já que "o poder se aperfeiçoa na fraqueza."

De uma maneira mais específica, isso significa que aquilo que fazemos e sofremos não define quem somos. Não somos definidos por nossas fraquezas, ou pelo fato de termos sido curados de uma ou mais delas; somos definidos pela chama da presença de Deus em nós, que nos oferece uma nova identidade, a qual queima em nós como fogo inextinguível. Nossos corpos e almas são templos do Senhor, e embora possam ser assolados, continuam a sê-lo. Algumas vezes, um templo em ruínas, mas ainda assim, sagrados.

Portanto, não devemos nos desencorajar e nem nos surpreender com nossas experiências inconstantes de cura, pois a cura de fato, vai e vem. Em alguns momentos, sentimos de modo inequívoco a ação do Senhor. Em outros, no entanto, quando não recebemos a cura e testemunhamos o "não" do pecado, precisamos lembrar que isso não nos define e nem muda o "sim" pronunciado por Deus em nós. Sabemos que isso é verdade quando vemos que o Reino de Deus tem poder para entrar em lugares temíveis, onde o pecado parecia ter tomado conta. Na jornada da cura, podemos abraçar tanto a corrupção quanto a graça, tanto a fraqueza quanto a força de Deus, sabendo que a própria presença e caráter do Senhor nos curaram com um grandioso "sim".

Sharon L. Lewis é fundadora e diretora executiva do Amazing Love Healing Ministry (www.amazinglovehealing.com)

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