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À sombra do Monte Hood

A difícil experiência de encontrar Deus no mistério da dor.

Todo o mundo emocionou-se com o salvamento dos mineradores que permaneceram soterrados por mais de dois meses numa mina no Chile. Foram momentos de angústia e incerteza não apenas para os 33 trabalhadores presos nas profundezas da terra, mas sobretudo para suas famílias que, do calado de fora, não podiam ter a certeza de que veriam novamente seus maridos, pais e filhos. O desfecho feliz do drama, no início de outubro, foi comemorado por toda a humanidade. Infelizmente, nem todas as tragédias terminam com lágrimas de felicidade.  Numa noite de 2006, tive o sono interrompido por uma chamada telefônica. Do outro lado da linha, alguém trouxe-me rapidamente de volta à consciência e a uma terrível realidade: meu irmão mais novo estava preso numa caverna de neve no Monte Hood e uma tempestade sem trégua impedia o resgate.

A montanha provou ser a última aventura de Kelly. Perder o meu irmão daquela maneira foi um episódio doloroso que mostrou de maneira clara minha fragilidade espiritual. Nenhum de nós está imune aos sofrimentos e tristezas que habitam esse mundo, afinal de contas. Embora eu seja um pregador, professor de teologia da história e reitor de um seminário teológico, achei agonizantemente difícil lidar com a morte de meu irmão. Uma coisa é falar sobre a morte em termos abstratos, seja no púlpito ou cercado por alunos numa cátedra. Outra, inteiramente diferente, é enfrentar o desaparecimento de alguém que você ama muito, mas muito mesmo. A verdade em matéria de se perder uma pessoa amada é que fere as partes mais profundas da sua alma.

Eu fui o primeiro a receber a notícia, alguns dias depois. Ouvir aquelas palavras anunciando a morte dele foi como um golpe no plexo solar tirandoo ar de mim; porém, contar a tragédia para o restante da minha família foi ainda mais terrível. Eu já havia experimentado sofrimentos antes, mas esse transcendeu qualquer emoção que eu tenha vivido anteriormente. Minha visão escureceu. Meus pés estavam pesados e pareciam resistir em levar-me ao quarto ao lado, onde minha família aguardava ansiosamente as últimas notícias da missão de resgate naquele monte cheia de neve. Karen, a mulher de Kelly, as crianças, nossa mãe, três irmãos e uma irmã – todos receberam a notícia com muita dor. Eu nunca havia ouvido um choro como eu ouvi naquela noite na vila ao pé da montanha. A Bíblia algumas vezes se refere ao “pranto” como um tipo especial de choro desamparado. Foi isso que eu ouvi naquela noite – pranto. E espero jamais ouvir aquele som novamente.

 

A face dolorosa da morte ­– A morte é feia e nós não podemos – na verdade, não devemos – tentar torná-la palatável ou explicá-la com banalidades com aparência de piedade. Sim, a morte é uma cruel, brutal e terrível transgressora nesse mundo. É uma intrusa e uma ladra. Ela destroi relacionamentos insubstituíveis como o que tinha com meu irmão. Nós partilhamos a mesma história e ele me conhecia de uma forma que nenhuma outra pessoa conhecia. Agora, eu tinha de acostumar-me com ideias assustadoras, como a de que ele nunca mais retornaria minhas ligações. Eu nunca mais ouviria suas alegres provocações me chamando de “Bebê Frankie”. Nunca mais estará. Essa expressão “nunca mais” é extremamente desalentadora, mesmo para quem, como eu, crê no Senhor. Algumas vezes eu o vejo num sonho e tento alcançá-lo – mas ele não está lá.

Somos seres criados para a vida e não para a morte. Kelly era um exemplo dessa realidade: ele tinha um entusiasmo audaciosopor viver a vida plenamente. Mas quando a morte chega de repente, vinda das sombras, ou mete as suas garras em nós até o nosso último suspiro, os que sobrevivem experimentam entorpecimentoe desorientação. De alguma, forma nós sabemos em nossos corações que não era para ser assim. Mas uma pergunta me assombra. Onde estava Deus quando Kelly congelava até a morte no Monte Hood?

Para mim, o importante não é se eu devo ou não fazer essa pergunta, mas como eu a faço. Alguém pode fazê-la num acesso de raiva, levantando o punho cerrado em direção a Deus. Muitos de nós, se formos sinceros para admitir, já fizemos isso. Mas uma vez que a raiva primal estabelece-se a uma baixa fervura, nós podemos, sim – e, eu diria até, devemos –, fazer essa pergunta. Eu não estou sugerindo que simples mortais possam julgar a Deus ou chamá-lo à responsabilidade. O Senhor Altíssimo não se reporta a mim. Mas uma questão honesta posta por um coração partido é, a meu ver, algo justo e bom.

Fazer essa pergunta é um ato de fé. Pressupõe um relacionamento íntimo no qual a criatura, na verdade, se conecta ao Criador. Se Deus é meu Pai, não posso eu humildemente perguntar a ele porque não veio em socorro de Kelly?  Para mim, não questioná-lo seria o mesmo que não levá-lo a sério. Então, onde estava Deus? Eu não sei. Talvez eu nunca saiba. Talvez o maior desafio para a minha fé seja chegar ao ponto em que chegou o reverendo Martin Luther King Jr, que o chamou de “o Deus escondido”. Cristãos contemporâneos com frequência se incomodam em admitir que Deus, às vezes, se esconde de nós. Mas o rei Davi não teve medo de questionar seu Criador: “Senhor, por que estás tão longe? Por que te escondes em tempo de angústia?” (Salmo 10.1).

Até onde podemos saber, Deus nunca respondeu a Davi. E ainda, o mais desconcertante,o Senhor não apenas ficou em silêncio, mas também comemorou seu silêncio pela posteridade. Ao incluir os Salmos nas Escrituras Sagradas, Deus fez do seu, digamos, “ato de esconder-se”, uma parte da adoração de Israel e preservou isso para a ponderação de toda a humanidade. Eu, de minha parte, ainda estou tentando compreender a morte de Kelly. Eu, honestamente, não sei por que Deus não o salvou da prisão gelada na montanha. O que eu sei é que meu relacionamento com Deus entrou em outra dimensão – mais mística e mais honesta.

 

Só sabe quem perdeu – O luto é um predador implacável. Aqueles que já perderam seus entes queridos me dizem que nunca alguém vai escapar completamente dele. Estranhamente, uma parte de mim não quer que o luto acabe; isso porque ele me conecta ao Kelly. Mas a outra parte de mim já está cansada de carregar o fardo de um coração partido. Acontece que, em meio à nossa tragédia familiar, eu fiz uma descoberta peculiar. Pode ser que alguém pense que luto e desapontamento com Deus poderiam levar à amargura em relação a ele.

Em meu pesadelo eu não apenas orei intensamente em secreto como também declarei publicamente minha fé e confiança em Deus pela CNN. Mas, ainda assim, meu irmão Kelly congelou até a morte. Houve desapontamento, tristeza e confusão, mas, estranhamente, não houve distanciamento de Deus. Pelo contrário, eu me aproximei mais dele através da dor. Para falar a verdade, o Senhor é mais enigmático do que eu pensava, mas ainda não consegui me “livrar” dele. Parece que existe uma atração gravitacional em direção a ele.

Não fui o primeiro a notar essa atração gravitacional em meio à angústia do silêncio divino. No Salmo 13, Davi clama nestes termos: “Até quando, Senhor, se esquecerá de mim? Até quando esconderá de mim a sua face?” (vs 1). Alguns versos mais tarde, o mesmo aflitoDavi declara que confia no amor infalível de Deus. Mesmo que tenha argumentado com Deus para vir em seu resgate, Davi se percebe inexoravelmente ligado ao Senhor. Parece paradoxal que Davi confie num Deus que se esconda dele quando mais precisa. Mas, meditando em seus salmos, percebe-se um tipo diferente de relacionamento com o Senhor – um relacionamento que muitos cristãos, aliás, não entendem. É um relacionamento onde fórmulas espirituais simplistas e clichês religiosos não têm lugar. O relacionamento de Davi com Deus combina uma honestidade brutal com aquilo que Lutero chamou de “fé que se agarra”. É um relacionamento onde a esperança se justapõe ao desapontamento.

Uma das mais profundamente difíceis lições que aprendi em meio a toda aquela consternação espiritual à sombra do Monte Hood, foi a de que Deus se manifestou a nós em nossa dor. Tenho experimentado a divina atração gravitacional puxando-me em direção a Deus mesmo quando ainda me encontro atordoado pela sua aparente ausência. Meu conceito de fé se tornou abraâmico – o que significa que eu devo confiar em Deus, muito embora eu não o entenda.

Muitos cristãos conhecem o Credo de Niceia a e aquela estrofe maravilhosa que diz: “No terceiro dia ele ressuscitou”. Eles sabem a história do corpo morto de Cristo sendo colocado na tumba de José de Arimateia na sexta-feira e pulsando com nova vida no domingo. Contrariando as leis naturais, Jesus estava novamente respirando e caminhando entre os seus discípulos atônitos. Um seguidor incrédulo se sentiu compelido a colocar o seu dedo na ferida do Cristo Jesus para convencer-se de que o Jesus crucificado estava mesmo vivo. Foi difícil de acreditar, mas lá, diante todos eles, estava Jesus.

 

O que a tumba vazia de Jesus tem a ver com a tumba de neve de Kelly James? Tudo. Kelly confessou, assim como eu e outros cristãos tem feito por quase 1.700 anos, que “nós aguardamos a ressurreição dos mortos.” Cristãos nicenos não estão imunes ao desânimo do desespero e da dor. Através dos séculos, e entre lágrimas suficientes para encher um oceano, muitos de nós tivemos que enterrar os nossos amados. Mas nós os sepultamos com uma promessa: “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias dentre aqueles que dormiram... Pois da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados” (I Co 15.20, 22).

Essa promessa magnificente não nos torna imunes contra a dor de perder um irmão amado ou mesmo de um desapontamento com Deus. Entretanto, leva minha fé a profundezas insondadas onde a esperança começa a dar sinais de vida através do sofrimento. Como um raio de sol penetrando através de um céu nublado, a fé prenuncia que um tempo melhor está a caminho.

 

Frank A. James III é reitor do Gordon-Conwell Theological Seminary

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