Menu

Dez coisas para eu voltar para a igreja

A igreja que me quiser como membro não poderá fazer parte do gueto cristão. Cheguei a um ponto em que, simplesmente, cansei da cultura evangélica, das atitudes discriminatórias dos crentes e da hipocrisia generalizada.

Há anos, parei de ir à igreja. Cheguei a um ponto em que, simplesmente, cansei da cultura evangélica, das atitudes discriminatórias dos crentes e da hipocrisia generalizada. Não me lembro de um momento específico de desistência, uma última gota, digamos assim. Foi um processo e uma soma de fatores. Hoje, continuo me considerando cristão, acredito em Deus e tenho fé em Jesus Cristo, mas não sinto a menor falta de frequentar cultos dominicais. A única coisa que me incomoda é não ver meus filhos crescendo na tradição religiosa cristã de uma igreja – porém, minha esperança é que eles aprendam e absorvam a essência e os mandamentos cristãos dentro de casa.

Para esta coluna, resolvi me perguntar o que teria de mudar na igreja para que eu voltasse a frequentá-la. Sem querer ser pretensioso, cheguei a 10 pontos:

Respeito às minorias – Eu realmente jamais voltaria a frequentar uma igreja que não respeitasse todos os tipo de minoria e, particularmente, a comunidade LGBT. Se meus amigos gays não são bem-vindos socialmente a uma igreja, então eu tampouco posso ser.

Respeito a outras crenças – Sejam católicos, judeus, muçulmanos ou praticantes de Candomblé. Não importa; um verdadeiro cristão e sua igreja devem respeitar as diferenças, dialogar e conviver com as outras religiões, inclusive atuando junto com elas em esferas não religiosas. O mesmo vale em relação aos ateus.

Fim dos dogmas – Jacques Ellul já disse que fé pressupõe a dúvida, caso contrário não é fé: é dogma. Eu só volto para uma igreja que  esteja aberta a discutir e questionar todos os seu valores e regras, à luz do espírito bíblico, e sem atitudes dogmáticas.

Emancipação da mulher – A submissão da mulher ao homem descrita na Bíblia é um óbvio reflexo do contexto histórico e social dos tempos bíblicos. É inadmissível que, em pleno século 21, mulheres não possam ser pastoras ou sejam tratadas como membros de segunda classe nas igrejas.

Manifestação política – Eu só voltaria para uma igreja que não se abstivesse de criticar políticos e governos por atitudes incompatíveis com a fé cristã, Não me refiro a costumes, mas a questões de direitos humanos e igualdade social. Particularmente, eu só seria membro de uma igreja que não se calasse diante de políticos e líderes cristãos praticantes de discursos de ódio, adeptos da corrupção e de outras atitudes pecaminosas, como temos visto com frequência nos dias de hoje.

Ação social e defesa dos direitos humanos – Uma igreja que me queira de volta terá de ter um forte programa de assistência social e de defesa de direitos humanos, independentemente de objetivos proselitistas. Tal igreja ajudará o próximo em face de suas necessidades, sem exigir qualquer retorno espiritual.

Sermões inteligentes – A igreja para a qual eu for me integrar, um dia, terá sermões inteligentes e desafiadores. É inaceitável que tenhamos de ouvir mensagens rasas e preguiçosas na igreja, muito aquém do que ouvimos na universidade, na imprensa ou no trabalho. A igreja não pode ser intelectualmente inferior ao seu contexto.

Excelência artística – Se um dia eu voltar para a igreja, a música tocada ali não poderá ser inferior à música de outras bandas amadoras laicas. A arquitetura do templo não poderá ser inferior ao padrão médio da sociedade. Jamais vou aceitar a mediocridade cristã. Se algo é feito para Deus, tem de ser melhor do que aquilo que é feito fora da igreja.

Fim do gueto – A igreja que me quiser como membro não poderá fazer parte do gueto cristão. Seus membros serão cidadãos ativos na sociedade, com amigos, colegas e relacionamentos extrarreligiosos. Eles não ficarão preocupados em dividir o mundo entre cristãos e não cristãos, mas estarão dentro deste mesmo mundo, interagindo, para influenciá-lo e mudá-lo.

Laicidade – A igreja que eu frequentaria seria a favor da laicidade. Ela entenderia que quem não é cristão não tem de ser obrigado a viver de acordo com os princípios da Bíblia. Ela lutaria por uma sociedade melhor, e não mais religiosa, ou mais cristã – e, também, entenderia que só a laicidade é garantia da liberdade religiosa a longo prazo, sendo fundamental para a própria liberdade da Igreja.

Esta é a igreja ideal que estou procurando.

Mais nesta categoria: « Minha história judaica
voltar ao topo