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Por um Brasil onde o futebol seja apenas um detalhe

Durante a Copa, a sensação geral era de que vivíamos no país mais perfeito do mundo.

Este texto foi escrito no intervalo da fatídica semifinal da Copa do Mundo em que o Brasil foi massacrado pela Alemanha. No momento, o placar é de 5 a 0 para os alemães, caracterizando o pior primeiro tempo do Brasil na história da competição. A casa ruiu; é simples assim.

Parte da torcida já deixou o estádio, abandonando seus heróis aos leões germânicos. Muitos dos que ficaram estão vaiando o escrete brasileiro. Finalmente, o Brasil mostra seu verdadeiro e vergonhoso espírito de união e solidariedade com o próximo. Enquanto o Brasil jogava bem e avançava no Mundial, o país era uma alegria só, todos de amarelo gritando em uníssono pela seleção. Campanhas publicitárias preenchiam todos os espaços da mídia e repetiam ad nauseum palavras como "juntos", "Brasil", "união" e "nação". O Brasil até parecia de fato possuir uma sociedade unida e solidária. Mas, a realidade é sempre outra. Cinco gols dos alemães deixaram à mostra para o mundo a falta de solidariedade e o excesso de intolerância do brasileiro. As vaias à seleção e o abandono do estádio pelos torcedores não me deixam mentir.

Mas não só o mito da solidariedade brasileira que foi desmascarado pelos gols alemães. A utopia da felicidade nacional também ruiu. Durante a Copa, a sensação geral era de que vivíamos no país mais perfeito do mundo. As poucas vozes críticas que se negaram a silenciar durante a Copa eram taxadas de ranzinzas, antipatrióticas; coisa de gente chata. O Brasil parecia perfeito. Era, no entanto, uma alegria efêmera, baseada nos deuses futebolísticos. E bastou o maior destes deuses, Neymar, ser despido de sua pseudodivindade e o Brasil levar uma goleada para a euforia acabar – e o pior é que, quando a alegria do futebol acabou, não havia outras alegrias para substituí-la.

A alegria da Copa não resolveu os problemas brasileiros. Não melhorou a saúde, a educação, a segurança. Não resolveu a intolerância religiosa; não nos ensinou conceitos básicos de cidadania. A maior parte dos brasileiros não tem hospital para levar seus filhos doentes. A maioria das crianças estão em péssimas escolas. A polícia segue truculenta e incompetente.
E a Alemanha marca o sexto gol. E a torcida vaia novamente.

A corrupção, esquecida durante a Copa, continua dando as cartas no país. São escândalos e mais escândalos envolvendo partidos e políticos que estarão presentes nas eleições de outubro. Durante a Copa, era quase impossível achar notícias sobre as questões de fato relevantes para o futuro do Brasil. O futebol era mais importante. Só que os problemas nacionais não tiraram férias para ver a Copa. E, enquanto o Brasil já ganhou cinco mundiais de futebol, nunca conquistamos um Prêmio Nobel sequer; e isso merece reflexão. A falta de um Nobel é a maior prova de que nossas prioridades estão invertidas. Preocupamo-nos mais com um jogo de bola do que com soluções que trarão melhorias para a sociedade.

Porém, vejo com otimismo a derrota. Talvez, agora, vamos entender que, como disse José Simão, precisamos construir um país em volta dos estádios. Talvez, agora, vamos lembrar que não podemos basear nossa felicidade em um jogo de futebol. Talvez, percebamos que onze rapazes de camisa amarela não são capazes de compensar as mazelas nacionais. Talvez, entendamos que o trabalho vem antes do lazer, ou seja, que mais importante que jogar bola é resolvermos nossos problemas e criarmos uma sociedade de verdade para nossos filhos.

E a Alemanha marca o sétimo gol.

As vaias para Fred são as mais altas, e isso é injusto. Fred não é o culpado. Não é justo que seja o bode expiatório. Fred pode, no máximo, marcar gols, e gols nunca vão resolver nossas mazelas. O culpado somos nós. Eu e você. Somos nós que não conseguimos construir um país onde o futebol possa ser não a única fonte de alegria da pátria, mas apenas um jogo. A culpa é minha, a culpa é sua; a culpa é nossa. E só nos resta transformar a tristeza pela derrota em garra, força de vontade e dedicação para criarmos uma nação onde o futebol seja apenas um detalhe, e não a razão de ser.

E o Brasil marca um gol, mas é tarde demais para virar o jogo. O juiz apita. Mas nunca é tarde demais para se construir um país.

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