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Escândalo é crucificar pessoas

Devemos imaginar que atitude Cristo tomaria diante da cena da transexual na cruz.

 “Eu quero agradecer. Sou lésbica, casada, mãe. O que vocês fizeram foi um ato de amor e, podem ter certeza, esse movimento vai salvar muitas vidas. Vocês são os pacificadores de uma guerra entre o amor e o ódio; são a peça-chave para a paz. Vocês são o verdadeiro amor de Deus. Muitos se levantarão contra, chamarão vocês de oportunistas e traidores, mas não desanimem (...). A missão de vocês é linda, é abençoada. Sou grata por ver o nascimento desse movimento. Obrigada por nos mostrar que há esperança e que o amor de Deus vai vencer.”     

Foi com estas palavras que Katherine Araujo Frazão agradeceu a atitude dos participantes do Jesus Cura a Homofobia, ato paralelo que aconteceu durante a Parada Gay realizada em São Paulo no último dia 7 de junho. O texto foi publicado na página do evento em rede social. No mesmo espaço, outra mensagem chamava a atenção: “É essencial que nós construamos um diálogo com teologias políticas progressistas e inclusivas para a construção do mundo comum baseado no respeito à diferença e na igualdade de direitos. Parabéns a todos e a todas que compõem o movimento Jesus Cura a Homofobia (…) por deixar claro que os líderes fundamentalistas não os representam e não falam em nome de toda a comunidade cristã brasileira, como afirmam”. Quem disse isso foi o deputado federal Jeanm Wyllys (PSOL-RJ), um dos grandes defensores dos direitos da chamada comunidade LGBT.

Infelizmente, só tomei conhecimento do movimento depois da Parada Gay, senão teria estado lá, participando. Contudo, só de ler estas e outras mensagens no Facebook, e ainda ver fotos dos cristãos que naquele domingo trocaram a igreja pela Avenida Paulista, fui invadido por um sentimento de esperança. Ultimamente, tem sido difícil ver a atitude de vários líderes cristãos que, em nome do Cristianismo, manifestam-se de forma preconceituosa, vergonhosa e pecaminosa. Atitudes de pastores como Silas Malafaia e Marco Feliciano, ou de políticos cristãos como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro, dão vontade de nunca mais passar nem perto de uma igreja. Mas, de repente, surge um ato como o Jesus Cura a Homofobia, que resgata os verdadeiros valores do Cristianismo e usa como slogan o texto de João 13.34: ”Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar uns aos outros”. Que bênção! E como isso me deixou feliz! Senti até orgulho de ser cristão e de minha origem evangélica. É bom demais saber que ainda há evangélicos preocupados com o mandamento mais básico do Cristianismo.

Vale dizer que a fonte de inspiração para o Jesus Cura a Homofobia é campanha norte-americana I’m sorry, promovida pela Marin Foundation. Tal movimento foi criado por Kevin Harris em 2010, quando procurava uma maneira de demonstrar aos participantes da Parada Gay de Chicago como ele e seus colegas cristãos se sentiam em relação à forma como a Igreja havia falhado em demonstrar amor à comunidade LGBT. A solução foi ir até o evento empunhando cartazes e vestindo camisetas com os dizeres I’m sorry – “Eu sinto muito” –, em um explícito pedido de perdão à comunidade gay. Mais tarde, a foto de um cristão do grupo  abraçando um manifestante gay só de cueca correu e emocionou o mundo, dando grande visibilidade ao movimento.

Mas, e a encenação da crucificação de Cristo feita por uma pessoa transexual na Paulista durante a Parada Gay? Não seria um escândalo? Nós, cristãos, não devemos reagir? Tais perguntas ficaram na cabeça de muitos evangélicos e minha opinião é clara: sim, devemos reagir. Antes, porém, devemos imaginar que atitude Cristo tomaria diante da cena, para então reagirmos como  o Filho de Deus faria. O fundador do movimento Jesus Cura a Homofobia, José Barbosa Júnior, fez este exercício e disse o que pensava em sua página no Facebook. O resultado não poderia ser mais certeiro:

”O que Jesus faria se visse a transexual na cruz? Creio que ele subiria naquele trio elétrico e diria baixinho, em seu ouvido: ‘Eu sei o que você está passando’. Depois disso, a tiraria da cruz e, abraçado a ela, sairia Avenida Paulista afora, cuidando de suas mais profundas dores. A cruz? Ficaria lá, vazia... Como sempre deveria ficar. Escândalo é uma sociedade que ainda crucifica pessoas.”

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