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Espiritualidade e mudança de época

As práticas de espiritualidade, hoje, podem significar tudo ou qualquer coisa.

Até algum tempo, afirmar-se que determinada pessoa era "espiritual" significava dizer que ela era dedicada ao campo das experiências religiosas, sem preocupação com as coisas materiais. O espiritual era aquele que cuidava das "coisas do espírito". Isso porque mundo espiritual e mundo material foram sempre vistos como antagônicos. Possivelmente, pela influencia da cultura grega, o cristianismo foi se construindo com essa dicotomia entre o material e o espiritual, entre o sagrado e o profano, entre a vida privada e a pública. A espiritualidade se limitava ao espaço religioso, de tal modo que as vivências públicas relacionadas a atividades como economia, política, lazer, saúde, educação etc ficavam delegadas ao mundo profano.
Assim, ser religioso praticante e ser espiritual passaram a significar, quase sempre, a mesma coisa. Com essa concepção, as práticas religiosas tendiam a alienar as pessoas das necessidades relacionadas ao corpo, ao lazer ou às lutas pela defesa e garantia de direitos. Isso não significa dizer, por exemplo, que religião e política estivessem separadas em suas engenhosas formas de atuação. Algumas vezes, aliás, estiveram juntas nos projetos de conquista e dominação de impérios poderosos; outras vezes, surgiam aparentemente distintas, como se separadas fossem: porém, sutilmente unidas, sendo a religião o agente de alienação – o "ópio do povo" –, propiciando a acomodação e a inércia de populações que não reagiam às ditaduras, aos processos de dominação ou de colonização.
Afinal de contas, o que é espiritualidade? De um lado, podemos compreender a espiritualidade como uma interação de Deus com os seres humanos. Porém, podemos percebê-la, também, como desdobramento das inter-relações das pessoas com os "espíritos", ou paradigmas, de cada época. Assim, é comum e correto falar-se, por exemplo, em espírito iluminista, espírito do capitalismo, espírito de religiosidade. Acontece que nossa geração tem passado por processos de transformações profundas. Não estamos, apenas, numa época de mudanças, mas numa mudança de época. Axiomas fundamentais estão interferindo no curso de nossa história. Saímos da perícia racionalista para o mundo da subjetividade, da intuição. Para a sociedade pós-moderna, não existe mais uma verdade absoluta, um ser único – o tempo presente fermenta a proliferação do relativismo e do pluralismo.
As práticas de espiritualidade, hoje, podem significar tudo ou qualquer coisa. Comparando-se essas vivências de espiritualidade com os ensinos e práticas do Jesus histórico, vamos encontrar muitas diferenças, e essa transição de época desafia a espiritualidade, missão e construção teológica dos seguidores de Cristo nessa geração. Não receio em afirmar que a espiritualidade cristã vive uma de suas crises mais profundas. A crise espiritual gera a banalização das virtudes e dos princípios mais importantes da vida. A corrupção, e hipocrisia de nossos lideres políticos; a decadência das relações familiares; a violência e tantas outras características danosas desta época são evidências da decadência dos valores éticos e morais do povo brasileiro.
A espiritualidade tem sido praticada, também, como ferramenta para a prosperidade material e satisfação de desejos. Sendo assim, a espiritualidade não é uma abordagem, apenas, de interesse de pessoas religiosas – ela passou a ser também objeto de entretenimento, seja em cultos e celebrações, seja em espaços de lazer e esportes, seja no mundo corporativo. Cria-se, assim, uma enorme panaceia espiritual: a noção do sagrado e da devoção se diluem nas mais variadas experiências místicas e em atitudes exteriores que passam longe da genuína devoção, da piedade e da fé viva.
Mesmo assim, ainda acredito numa espiritualidade que nos torne mais humanos, mais próximos de Deus, das pessoas e de todo o meio ambiente de que somos parte. Que possa gerar mais vida do que lucro material; mais virtudes do que sucesso; mais amor às pessoas do que apego às coisas; mais solidariedade do que competição; mais integridade do que religiosidade; mais renúncia do que egoísmo. Continuo sonhando e agindo na busca de uma espiritualidade mais comprometida com Deus e a vida abundante para todas as pessoas. Uma espiritualidade que combata toda forma de injustiça e opressão.
Ainda há tempo! E que Deus nos ajude no caminho da vida, construindo justiça, liberdade, democracia plena e garantia de direitos para todos.

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