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Não cair em tentação

O mal é uma semente germinada na interioridade humana.

A ORAÇÃO ENSINADA POR JESUS CRISTO a seus seguidores, que começamos a analisar em nossa última publicação neste espaço [edição nº 31, out/nov de 2012], o Pai, o pão e os pecados são nossos; porém, as probabilidades de não cairmos em tentações são, também, uma responsabilidade coletiva. Todos nós vivemos num emaranhado de sistemas e convivências; somos responsáveis em construir uma ambiência favorável, ou não, às tentações e aos males que nos rodeiam. Nossas organizações sociais, politicas e econômicas impedem ou favorecem as tentações. Veja-se a triste realidade da corrupção na política nacional – tal prática só é possível porque é sistêmica, envolvendo desde as mais altas autoridades até o simples funcionário de gabinete, que atende os pedidos por telefone ou faz os depósitos dos mensalões da vida no banco. De maneira que, se alguém é tentado, o é também por uma conjuntura da qual toda a comunidade foi construindo ou aceitando no seu ambiente cultural.

Sem dúvida, o mal é uma semente germinada na interioridade humana. Quando encontra terreno fértil no espaço externo, tem tudo para proliferar o dano. Portanto, não basta lutarmos, em nosso espírito e em nosso íntimo, contra o pecado e nossas tendências a praticar o mal; precisamos, de maneira sábia e diligente, ir transformando os esquemas e a conjuntura do mal que foram se consolidando no processo histórico de nossas configurações culturais, politicas, econômicas e sociais. A Bíblia, por exemplo, afirma que a exaltação precede a queda. Mas, por mais que a exaltação, como os demais pecados, tenha origem nos desejos interiores, todos esses impulsos são catalisados por condições externas, e, portanto, organizadas coletivamente. Quando construímos, em nossos templos, estruturas arquitetônicas que separam o povo dos líderes ou usamos estéticas pessoais comunicando poder e arrogância, predispomos as pessoas à queda sem, muitas vezes, perceber que fomentamos o mal da politicagem religiosa, a discriminação das pessoas, a exaltação e a altivez. Da mesma forma, quando elaboramos ou somos simpáticos a ensinos e teologias que favorecem a banalização do sagrado, oferecemos aos charlatães a chance de negociar a fé com os cliente da religião.


É assim que a tentação interior vai encontrando, nas estruturas e elaborações externas, espaço para proliferação. Quantos líderes religiosos estão emocionalmente enfermos? Muitos deles, por certo, já traziam suas doenças psicoemocionais e encontraram na religião o catalisador de suas enfermidades. Outros começaram na fé de maneira sã, mas adoeceram contaminados pelas mazelas emocionais inerentes aos espaços religiosos. Sim, há tentações e pecados resultantes de nossa experiência coletiva religiosa; portanto, não é justo condenar somente o erro que se torna visível através de uma única pessoa quando todos, juntos, criamos o ambiente favorável que propicia a queda.


No Brasil, as leis estão organizadas para o favorecimento de um grupo privilegiado, controlador e manipulador, de maneira que, diante de seus erros, são protegidos usando as "formas da lei". Os trâmites processuais, as possibilidades de recursos e liminares, tudo conspira a favor da impunidade, da procrastinação, do adiamento da justiça. Diante de outras nações, os pecados de corrupção são do povo brasileiro; precisamos, então, de arrependimento, confissão e mudança radical.


Orar é o compromisso e a prática de um estilo de vida que, encontrando-se com Deus, rompe com os círculos perversos do ambiente social, econômico e político. Por isso, a oração do Pai Nosso é mais do que uma prece religiosa. Quem ora ao Pai nosso ora e luta pela erradicação dos males que nos rodeiam. Orar dessa maneira é orar para erradicar o fanatismo, a arrogância, a corrupção, a injustiça e a violência. Portanto, Jesus Cristo nos ensina a orar para vencermos as tentações, que são nossas. As internas – quem sabe? –, vencemos com os exercícios espirituais, com a ajuda do Espírito Santo, com a formação do caráter e o autocontrole. E as externas, aquelas oriundas das estruturas sociais corrompidas e das conjuntaras culturais apodrecidas, com nossa influência cristã sobre o mundo e nossa mensagem profética de restauração.


Da mesma forma que o pão nosso é "de cada dia", as tentações também o são. Mas podemos vencê-las com determinação, sabedoria e mobilização da sociedade civil organizada. Que Deus nos ajude, pois, a não cair em tentação, para que sejamos livres do mal.

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