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A luz da esperança

Uma nova geração decidiu acordar o gigante adormecido.

Quem viu os movimentos de rua que sacudiram o país e conhece, de alguma forma, a história da Igreja Evangélica no mundo, não pode deixar de se lembrar dos conteúdos e propostas do Pacto de Lausanne. Aquele evento, realizado há quatro décadas na Suíça, reuniu cristãos dos quatro cantos do mundo. Em oração, negociação e reflexão, eles traçaram caminhos que ainda hoje desafiam a Igreja a um engajamento maior com a evangelização do mundo e a responsabilidade social em favor dos empobrecidos e injustiçados. Criou-se, naqueles dias, um acordo do que já se denominava de teologia da missão integral, pela qual os cristãos explicitavam o compromisso de anunciar o Reino dos Deus com todas as implicações do Evangelho de Jesus – através do testemunho de Cristo, da denúncia de toda forma de injustiça e do anúncio das boas novas com vida, palavras e obras de misericórdia.
Em 1974, teólogos da América Latina enfatizaram com mais profundidade a relação entre a Igreja e o mundo, com ênfase em justiça e libertação. Foi um histórico clamor à soberania de Deus, sob o sopro do Espírito Santo, por um compromisso em favor dos empobrecidos e oprimidos; um chamado à adoração profunda, à unidade de todo o povo de Deus; um esforço pela edificação doutrinária e teológica e um desafio à evangelização global. A partir dali, o anúncio da salvação deveria passar, necessariamente, pela prática de obras de misericórdia e justiça, pelo testemunho pessoal relevante e por um engajamento sociopolítico consequente.
A teologia da missão integral, representada por um segmento evangélico, e a teologia da libertação, inspirada por teólogos católicos, surgiram no contexto cristão latino-americano como resposta de uma geração ao processo de exploração e empobrecimento da região. Hoje, temos um novo panorama religioso, mas os modelos econômicos e as formas de organização política continuam oficializando a injustiça, fomentando a corrupção e desencadeando a violência e a morte. No Brasil do século 21, perdemos a confiança nas instituições, nas casas legislativas, nos palácios do poder – e também o encanto com as expressões religiosas, inclusive evangélicas, que tendem a reduzir a religião a meros empreendimentos comerciais da fé. Todavia, uma nova geração decidiu acordar os que desejavam manter o gigante deitado em seu berço esplêndido. Juntos, temos a oportunidade de denunciar, em nome de Deus, a corrupção, o cinismo dos políticos, o mercantilismo dos líderes religiosos, a indiferença dos detentores do poder econômico e o silêncio dos omissos.
Aos sensíveis e comprometidos com a vida e com o Reino de Deus, permanece vívida a voz de Lausanne. Ela clama por um envolvimento mais profundo na luta pela justiça, pela construção de pontes de reconciliação entre o homem e Deus e pela pacificação dos seres humanos entre si. Então, que se arrependam e se convertam os políticos, os empresários, os clérigos, os intelectuais, os artistas e os trabalhadores. Que Deus nos conceda a graça e a sabedoria para a construção de uma democracia realmente representativa, justa e fraterna, que garanta o direito dos espoliados e empobrecidos.
Somos uma nação com muitos instrumentos de gerenciamento da coisa pública; então, que a eficiência na montagem de estruturas de arrecadação pelo Estado seja vista também no atendimento à criança sem escola, ao doente sem médico, ao trabalhador sem emprego, à família sem teto.
Quiçá as campanhas políticas, doravante, espelhem a realidade das ruas e que o interesse público seja o grande vencedor em todas as disputas eleitorais. Que o país da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos também ganhe as manchetes internacionais por sua boa ética e integridade, por sua paz social e pela qualidade de vida de seu povo. Nas ruas e avenidas de centenas de cidades brasileiras, um povo cansado reencontrou a luz da esperança. Temos instrumentos, recursos e condições de continuar construindo um Brasil realmente de todos. Assim, haverá festa e alegria nos estádios, nas comunidades, nas praças, nas igrejas, nos lares. E nós, cristãos, através de uma espiritualidade profunda e responsável, podemos, junto com toda a sociedade civil organizada, ser instrumento para o surgimento desse novo país. Que o Deus da vida nos ajude!

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