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A hora de renunciar

Não vale a pena ganhar nada neste mundo se o custo for perder nossa alma.

O papa Bento 16 renunciou. Covardia ou coragem? Suicídio político ou sabedoria pessoal? Retrocesso ou avanço? Retirada ou recomeço? Traição a um mandato institucional ou fidelidade a uma verdadeira vocação? Talvez nunca saibamos as reais razões desta renúncia. Seus frutos ainda precisarão de tempo para serem analisados. Uma coisa é certa: há momentos nos quais líderes devem renunciar.
Todas as vezes que tivermos de conquistar ou manter posições de poder dentro de uma instituição na qual a vida já não está mais presente – pois sufocada foi por relações funcionais e hierárquicas; todas as vezes que tivermos de dar sorrisos a quem não respeitamos, de "bajular" publicamente pessoas que privadamente desprezamos, então está na hora de renunciar.
Precisamos renunciar quando nossa alma estiver mais apegada às fofocas, às falações espúrias e superficiais; quando o nosso tempo é gasto muito mais em como vamos manter nossa posição; quando o conforto trazido pelo dinheiro nos faz dependentes de um status capaz de nos fazer vender nossa própria alma; então quando tudo isso se configura, é hora de renunciar.
Devemos renunciar quando Deus for apenas uma palavra ao lado de outras num vazio discurso público, ao qual chamamos tantas vezes de oração. Quando fazemos os planos, combinamos votações, armamos para quem nos ameaça, minamos os opositores, acordamos e dormimos pensando em como vamos ganhar o jogo, e, depois da vitória alcançada por meios corrompidos, oramos agradecidosa Deus. Se é assim, então chegou a hora de renunciar.
Quando as pessoas as quais amamos mais de perto (esposa, esposo, filhos...) começam a perceber a nítida separação entre a persona social que somos no âmbito público e a real pessoa que
somos "dentro de casa"; quando esta cisão destrutiva do respeito e admiração das pessoas mais próximas se instala nas nossas relações, destruindo o amor e substituindo- o por um ódio contido tantas vezes expresso em depressão, tristeza, revolta; quando nossa posição pública ameaçar as mais importantes relações da nossa vida, então chegou o tempo da renúncia.
Quando estivermos em uma situação na qual "temos" de fazer e falar coisas que corrompem nossa alma em tudo quanto há de mais sagrado para nós; quando nossa posição "exigir" violações
aos nossos valores; quando pessoas ocuparem em nossa vida o lugar de Deus, deixando-nos dependentes do seu humor, da sua aprovação; então renunciar é uma exigência da sanidade e da santidade.
Quando uma instituição perde o seus ideais fundantes, suas balizas direcionadoras e se transforma num "antro" de pessoas incapazes de olhar para além do seu próprio umbigo, obcecadas por posição e poder; quando uma instituição se torna corporativista protegendo os seus, mesmo que esses "seus" tenham causado a outrem maldades inomináveis, então renunciar é a única opção  saudável. A renúncia feita pelas razões certas não é desistência. É um ato de coragem de poucos. Envolve um forte enfrentamento da opinião pública, um confronto com o senso comum, uma disposição de, pela via da retirada, confrontar uma instituição. Uma das mais fortes manifestações de protesto pode ser precisamente a renúncia. Jesus, uma vez, nos alertou: De que vale ganhar o mundo todo e perder a nossa alma? Entendamos a palavra alma aqui como nossa essência, aquilo que realmente somos, o "lugar" mais profundo do nosso ser. Deus nos conhece a partir daí, posto que olha para nós de dentro para fora. Imagine perder esta alma por causa de posições de poder dentro de instituições? Não vale a pena ganhar nada neste mundo se o custo for perder nossa alma. Acredite-me: quando nosso ser está ameaçado, então a renúncia é o ato de coragem mais são e santo.

Eduardo Rosa é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca, um dos líderes do ministério Renovare Brasil e mestre e doutor em Teologia pela PUC-RJ.

 

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