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Raiva sem violência

A raiva é uma força que podemos canalizar para o que é positivo.

A raiva - ou indignação, ou ira, como alguns preferem – é um sentimento. E, como sentimento, em si, não é boa nem má. Sentir raiva é inerente à natureza humana. Até Deus se enraivece; e as Sagradas Escrituras têm registros da ira do Senhor. Acontece que a maioria das pessoas apresenta dificuldade em aceitar o sentimento da raiva; elas aprendem desde pequenas que não podem sentir raiva. Então, passam a negar e disfarçar esse tipo de sentimento. Essa dificuldade é decorrente da confusão que fazemos entre sentir e agir. Sentir raiva é uma coisa; ter um comportamento raivoso é outra, totalmente diferente. A Bíblia permite que tenhamos ira, mas nos aconselha a não pecarmos por causa dela. Como indivíduos, não somos responsáveis pelo que sentimos – mas somos responsáveis pelas ações que praticamos por causa dos nossos sentimentos.
A melhor referência que temos à possibilidade de nos irarmos e, mesmo assim, mantermos um comportamento adequado, e que já citei em meu livro: Raiva – Seu bem, seu mal, é o da pessoa de Cristo. Há três situações no Evangelho em que os escritores registraram a indignação do Filho de Deus. A primeira foi quando o Mestre se viu diante de um deficiente físico, um homem que tinha uma das mãos atrofiadas e não podia trabalhar ganhando o pão de cada dia. Pois Cristo rompeu com as leis judaicas que faziam menção àquele tipo de condição, chamando-o à frente das pessoas, e ali o curou. Porém, o Filho de Deus ficou indignado com as pessoas que censuraram o milagre que fizera.
Na segunda vez, ele ficou indignado com os próprios discípulos. Eles haviam dispensado os pais que tentavam trazer suas crianças para que Cristo as abençoasse. A indignação foi tanta que ele, contrariando seus auxiliares, ordenou que chamassem os pais e seus filhos de volta; e então, na frente de todos, abençoou cada um dos pequeninos. E a terceira situação envolveu os mercadores que estavam no templo tirando proveito dos peregrinos que vinha de longe. Caso seus animais não fossem aceitos para o sacrifício, os viajantes eram obrigados a adquirir outros, aprovados pelos sacerdotes, vendidos ali mesmo – e com preço bem alto. Enfurecido, o Mestre expulsou os exploradores do templo, chamando-os de ladrões. E, quando os vendilhões tentaram pegar alguma coisa de volta, Jesus não o permitiu, virando as mesas.
A diferença mais importante que se percebe entre a ira de Cristo e aquele sentimento de raiva que nós temos é que, muitas vezes, agimos assim porque nos sentimos simplesmente contrariados ou lesados de alguma forma. Naqueles três episódios em que o Filho de Deus ficou irado, sua indignação foi direcionada aos que tinham poder e autoridade em suas mãos – todavia, não protegeram nem defenderam os que eram indefesos, desprotegidos. Sim, o Salvador ficou enraivecido contra os religiosos que se mostraram insensíveis com o sofrimento do deficiente físico; com os discípulos, que endureceram o coração e não permitiram que as crianças chegassem até ele; e com os líderes religiosos no templo que, aproveitando-se de sua posição, exploravam os devotos. Outra diferença é que Cristo não negou, escondeu ou disfarçou sua raiva. Quem estava ali, viu muito bem o que ele fez – e Jesus não teve medo de se expor e confrontar aqueles que agiam deliberadamente de modo errado.
A raiva é uma força que podemos canalizar para o que é positivo. Se ficamos indignados com as injustiças sociais, podemos protestar contra aqueles que têm o poder, tanto político quanto financeiro, de mudar as coisas. O que o Evangelho não aceita é que a energia da raiva seja canalizada para a destruição. Faz-se necessário, então, que revisemos as motivações das nossas indignações. Se for por causa da nossa própria pessoa, que possamos crescer até o ponto de sabermos que não somos mais que pó – e pó não é muita coisa, mesmo. E que nos avaliemos para a descoberta da finalidade que damos aos sentimentos da raiva. Isso porque, como é uma força, a raiva não some pelo simples fato de negarmos ou de fingirmos que ela não existe.
Que façamos como Cristo! Que nossas indignações sejam pela defesa dos indefesos, dos sem voz, dos fragilizados. Se assim o fizermos, com certeza, o Evangelho que professamos será muito mais eficiente e faremos diferença no meio em que vivemos.

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