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Somos todos terminais

O luto é o momento que as palavras perdem o sentido. O melhor consolo que se pode dar ao outro é conseguir sentir pelo menos um pouco de seu sofrimento, tornando-se igual na dor

Costuma-se chamar de doentes terminais àqueles que, acometidos por uma enfermidade mortal, já não têm muitos dias de vida. Porém, não estamos, todos, a caminho da morte? No entanto, lidamos com doentes graves como se só elas fossem deixar este mundo. Temos grande dificuldade em assumir a finitude do nosso corpo. Nossa cultura evita, a todo custo, a ideia da morte; no entanto, morrer faz parte da vida.

Psicologicamente falando, é muito importante que o ser humano, desde pequeno, entre em contato com as tristezas da despedida de um ente querido. Os pais e adultos não devem poupar seus filhos de cerimônias fúnebres – principalmente, se a pessoa que partiu era alguém com quem a criança tinha um vínculo afetivo. Os funerais nos ajudam a fechar o ciclo de relacionamento com aquele que se foi.

Outra enorme dificuldade que temos é a de falar sobre a morte. Vamos pela vida como se fôssemos viver eternamente neste corpo, evitando a qualquer custo a ideia desconfortável de que, a qualquer momento, podemos morrer. No entanto, velhos e jovens; ricos e pobres; adultos e crianças; famosos e anônimos; cultos e ignorantes – todos, sem exceção alguma, terão que lidar com a realidade da sua própria transitoriedade. Quando assumimos nossa finitude e aceitamos o fato de que chegará o momento em que morreremos, por uma ou outra causa, damos mais valor à vida e atribuímos importância a assuntos que realmente têm importância. Passamos a deixar de lado coisas insignificantes e gastamos nosso tempo e energia no que realmente vale à pena. Há ainda outra vantagem quando vivemos conscientes de que o fim chegará, não como algo mórbido e negativo, mas sim, uma realidade da qual ninguém consegue escapar. Essa consciência nos leva a agir de tal forma a deixar as coisas desembaraçadas para aqueles que nos sucederão e terão de administrar o nosso legado familiar e material. 

A verdade é que não há como nos acostumarmos com a morte. Ela sempre deixa um rasgo de tristeza em nossos corações, independentemente do motivo pelo qual ocorra. Trágica ou natural, precoce ou por velhice, a morte, pelo simples fato de ser morte, já traz consigo a dor. E a dor deixada por ela é horrível.  Mas o jeito mais rápido de elaborar a dor do luto é encararmos com todas nossas entranhas a intensidade plena do sofrimento. Precisamos entrar na dor para depois sair. Quem foge dessa dor nunca deixa de tê-la em sua presença. Só consegue sair do processo de elaborar todo o sofrimento que a morte traz aqueles que têm coragem de entrar nele. É claro que, como cristã, creio na ressurreição e na vida eterna; porém, todos, cristãos ou não, choramos a dor da separação, a angústia da ausência física.

Esse tipo de dor foi vivenciado e entendido por Cristo Jesus. Lázaro, seu amigo pessoal, havia morrido, e o Filho de Deus sabia que iria ressuscitá-lo. Mesmo assim, ele chorou com as irmãs de Lázaro. Ali, Cristo se identificava com o ser humano que pranteia a perda do ente querido. Sim, a dor causada pela morte é legítima e reconhecida por Deus na pessoa de Jesus, que chorou ao ver o sofrimento de Maria e Marta. Sendo assim, não precisamos mascarar a dor. Não precisamos fingir que não estamos sofrendo, como se isso demonstrasse alguma força. A força na hora do luto se faz pela identificação com o outro, como Cristo fez. Muitas pessoas acreditam que só podem consolar o enlutado se tiverem um discurso bonito ou se souberem o que falar para quem passa pela dor da morte. Todavia, o luto é o momento que as palavras perdem o sentido. O melhor consolo que se pode dar ao outro é conseguir sentir pelo menos um pouco de seu sofrimento, tornando-se igual na dor. Um abraço silencioso, um toque no ombro ou um simples olhar podem dizer muito mais que mil palavras em um funeral. Quando aceitamos a realidade da morte em nossas próprias vidas, temos mais recursos para, simplesmente, chorar com os que choram.

 Lembro-me de um homem de 50 anos que, gozando de boa saúde, soube que uma parente sua tinha recebido o diagnóstico de que desenvolvia um câncer agressivo. Desenganada, ela teria mais algum tempo de vida – semanas, talvez meses; e ele disse: “Bem, ela está como eu. Esta é a minha condição, também”. Aquele homem estava consciente da verdade bíblica dita pelo rei Davi no Salmo 103.14 e 15: “A vida do homem é semelhante à relva; ele floresce como a flor do campo que se vai quando o vento sopra.”

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