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Carências e relacionamentos erotizados

Todos nascemos com necessidade de pertencermos e sermos aceitos pelo outro.

O ser humano nasce com necessidades a serem supridas, e uma delas é a afetiva. Todo bebê necessita de aconchego, de carinho, de sentir a pele e o corpo da mãe. E, à medida que vamos crescendo, também continuamos necessitando dessa proximidade, sobretudo dos pais ou daqueles que cuidam de nós. Com o tempo, a criança percebe que aqueles que estão à sua volta, sobretudo sua mãe, não pertencem exclusivamente a ela. Se a mãe for alguém que soube dar aceitação e acolhimento àquele ser humano, ele vai alcançando maturidade emocional para, aos poucos, também ir se desligando dela, até se tornar um adulto. Por outro lado, quanto mais falta uma criança tiver da presença e do carinho da mãe ou substituta e também do pai, mais ela sofrerá com as lacunas que vão ficando em sua vida afetiva.
Gilberto Safra, doutor em psicologia clínica, interpreta esse processo dizendo que todos nós nascemos com necessidade de pertencer e de ser aceito por um rosto, que no caso é uma pessoa. Se esta pessoa não souber dar esta aceitação, ocorre uma espécie de estagnação naquele espaço emocional onde houve a falta. E a dor provocada por essa falta é horrorosa, uma agonia impensável. O que fazemos então? Saímos à busca de algo que possa aliviar um pouco aquela lacuna. Assim é que muitos se apegam aos vícios; outros se tornam exigentes e extremamente apegados com os relacionamentos. Há também aqueles que adoecem fisicamente, trabalham demais, comem excessivamente, e assim por diante.
O detalhe é que é muito comum misturarmos nossas carências afetivas com nossos desejos eróticos. Muitas mulheres buscam suprir, na vida sexual, suas necessidades afetivas. Na ausência que tiveram do afeto proporcionado pela proximidade de um corpo em fases mais básicas da vida, procuram algum afeto na relação sexual, buscam encontrar carinho no intercurso carnal. Naturalmente, órgãos sexuais podem proporcionar prazer, mas apenas um prazer sexual. A carência continua. É possível haver relação sexual sem carinho – mas é claro que ela será bem mais completa se for também uma interação carinhosa. Indivíduos assim precisam assumir que há rombos no próprio afeto e aprender a ser a própria fonte para dar a si mesmo um pouco daquilo que faltou no passado.
É nesse tipo de contexto que a homossexualidade, sobretudo a feminina, surge como uma solução. Muitas mulheres que não assumem essas faltas em sua história de vida se envolvem sexualmente com outras mulheres, e até acreditam que são lésbicas. Em situação de grande carência, o corpo da outra assume o papel do da mãe que um dia foi ausente e esses sentimentos misturam-se com os desejos eróticos. E, nesta busca de afeto no feminino, é possível também canalizar o prazer sexual para com outra mulher. A relação homossexual passa então a ser não apenas fonte de prazer e alívio da energia sexual como um meio de suprir a carência afetiva e as faltas já existentes – ainda mais quando a experiência com o sexo oposto foi negativa. Processo semelhante também ocorre entre os homens, quando o vácuo afetivo foi deixado pelo pai.
Cada vida é uma história, e as faltas e privações são diferentes de pessoa para pessoa. Mas é muito comum se confundir a necessidade de afeto com o desejo sexual. Por isso, é tão importante sabermos diferenciar o que é afeto, carinho, toque físico e necessidade sexual. Desvincular uma dessas coisas das outras, contudo, é muito difícil, já que se confundem em diversas instâncias. Vamos lembrar que Jesus recebeu o toque de Maria e também o da meretriz que chorou a seus pés, enxugando-os com seus cabelos e ungindo-os, provavelmente, com o perfume que usava para se prostituir. Pois Cristo recebeu esse contato sem qualquer conotação sexual. Ele aceitou também que João, o discípulo amado, recostasse sua cabeça em seu peito, e não manteve com ele nenhum relacionamento homossexual. Então, é possível sermos afetivos sem envolvimento de natureza carnal.
O problema é que a maioria das pessoas não sabe fazer esta distinção e nem respeitar o outro dessa maneira. Alguns têm tanto medo do envolvimento que não dão carinho algum a ninguém. São indivíduos secos, que se mantêm distantes da intimidade com o outro. Outros dão o carinho, mas dentro de um contexto sexual, uma espécie de "pacote" completo – e o outro, carente, só vai sofrendo cada vez mais com culpa e frustração.
Que sejamos afetivos e amorosos como Cristo foi. E que saibamos dar afeto a quem necessita de afeto.

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