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Alma artesã

Temos o desafio cotidiano de trazer cor, sabor, som, ritmo, amor e beleza à vida que encontramos no Criador. A arte nos humaniza e nos deixa mais parecido com Jesus

O homem reflete um designer único, recebido pelo desejo do Deus trinitário, Criador de tudo. A criatividade e a imaginação que nos humanizam são presentes de Deus para todos em suas áreas de atuação. Temos a capacidade criativa de tornar visível o que é invisível; de trazer à luz aquilo que ainda não existe – característica que nos torna únicos. E assim, vamos recuperando a imagem de Deus que foi distorcida pela queda. Assim, nossa alma artesã reflete a Imago Dei presente em todas as criaturas feitas pelo grande artista divino.

O conceito de alma artesã foi abordado com muita amplitude e propriedade em recente encontro de que participei em São Paulo. Erwin Mcmanus, artista em várias áreas, escritor e pastor da Mosaic Church, na Califórnia (EUA) – uma das igrejas mais influentes naquela cultura urbana –, encorajou-nos a pensar e ampliar nossa visão. Ele falou sobre as muitas possibilidades de fazer arte a serviço do Reino de Deus, olhando-a como terreno do sagrado e caminho onde deveríamos transitar constantemente, tornando a vida mais bela.

Décadas atrás, esse conceito foi desenvolvido por Francis Schaeffer e Hans Hookmaker. Depois, com Rory Noland, músico e ministro de arte que fundou um ministério chamado Coração do Artista – nome de seu livro mais conhecido, o qual tive a honra de prefaciar em português. No encontro, fui encorajado, juntamente com músicos e ministros de adoração, a recuperar uma teologia saudável e correta, que enxergasse o Criador e a capacidade criativa que ele compartilhou com todos os seres humanos: a de fazer e difundir o que é belo. Oportunas foram as reflexões de Erwin sobre arquitetura cultural e o designer da alma. Com suas palestras, repensamos e olhamos a história geral e a história da Igreja, onde estamos e onde deveríamos balizar nossa presença e missão. Erwin falou não somente a músicos, mas a jornalistas, psicólogos, pintores, atores, dançarinos, advogados, designers, blogueiros, políticos, empresários, apresentadores de TV e rádio, teólogos, filósofos e cientistas da religião. O amigo e pastor Ed René Kivitz, coordenador do encontro, trouxe a cada participante reverberações e provocações saudáveis.

Somos alma vivente. Somos alma artesã. Somos criaturas criativas e precisamos, permanentemente, criar para nos tornar mais humanos, mais sensíveis, mas inseridos e encarnados na existência real, ampliando, na imaginação, o que podemos ser e fazer visivelmente. É isso que nos tornará mais parecidos com o Criador e, portanto, mais sintonizados com a cultura presente em todas as etnias, raças e nações. Nisso, somos diferenciados das outras criaturas, já que temos a capacidade de crer e de manter relacionamentos em várias amplitudes. Ao mesmo tempo, somos a única espécie capaz de desumanizar a imagem criativa de Deus presente no ser humano, e isso é caminho terrível de anti-vida. Portanto, temos o desafio cotidiano de trazer cor, sabor, som, ritmo, amor e beleza à vida que encontramos no Criador. O Evangelho que influenciou e influencia historicamente a arte pode embelezar e nutrir tudo o que somos e vivemos – desde, claro, que estejamos abertos a isso –;Evangelho que traz, também, a possibilidade de redenção daquilo que foi distorcido em todas as culturas e formas de arte

Fomos criados para toda boa obra no que somos e fazemos. Uma obra criativa e inspirada, capaz de refletiur a imagem de Deus e sua presença onde ele nos colocar. Através dela, convidamos cada ser humano a se tornar mais parecido com o Criador – sendo, assim, instrumentos de transformação e da beleza de seu ilimitado amor e poder criativo. Por isso, que jamais deixemos que a religiosidade arranque de nós a liberdade e criatividade que a fé nos convida a viver e desfrutar.

Somos alma artesã. Arte que nos humaniza e nos deixa mais parecidos com Jesus. Arte que nos faz sonhar e revelar ao mundo a essência e a mensagem do Senhor como fontes relacionais de valores e beleza. Trazendo sentido e sentido e alegria à nossa existência, nos tornaremos mais criativos e generosos na nossa própria vida e em relação aos outros seres humanos. Este é o caminho a que temos que retomar e percorrer, e nele permanecer. Vivamos, então, a espiritualidade criativa da alma artesã.

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