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O Evangelho e a bioética

Estamos diante de novos conceitos de adoração a Deus e de mordomia da vida.

NÓS, SERES HUMANOS E CRISTÃOS, não podemos fugir das questões que se apresentam para uma vida digna e justa entre os homens. Olhar a vida da maneira mais ampla possível, em todas as suas direções e dinâmicas, em busca de caminhos e alicerces para nossas decisões pessoais, familiares, comunitárias e sociais, é atitude que nos possibilita uma caminhada responsável nesta existência. As decisões oriundas dessa motivação deixam repletos os escritórios de aconselhamento, consultórios terapêuticos, fóruns, organizações internacionais e políticas e diversas outras instâncias onde se lida com suas consequências.

A filosofia e os questionamentos existenciais nos ajudam na intrincada e inesgotável jornada do ser, isto é, de aprender a ser e fazer, promovendo e trazendo sustentação à vida em todas as suas possibilidades. A ética e a bioética se apresentam nesse caminho, requisitando de cada um de nós posicionamentos sérios e maduros, como humanos e como crentes que somos. Essas duas áreas, aliás, estão absolutamente integradas à vida e à espiritualidade. Ciência e fé fazem parte da agenda dos cristãos, que devem considerar a criação e sua sustentabilidade como missão.

Diante de questões que vivemos na sociedade e nas nossas comunidades locais, precisamos compreender mais sobre temas dessa agenda contemporânea. Ética é uma palavra derivada do grego com duas possíveis origens: a primeira é a palavra éthos, que abrange costumes e cultura; e a outra significa algo como propriedade de caráter.

O homem é um ser moral e relacional. É, também, um ser social, e precisa se inserir de maneira madura no que é e faz para promover o bem comum em seus limites. A ética nos leva à integralidade da vida numa visão correta, abrangente e holística. Ela se confunde com a história e o desenvolvimento do ser humano em todas as suas épocas. Assim como a bioética – de bios, ou vida –, ela precisa ser vista, abordada e discutida, hoje, de modo multidisciplinar. Da união das duas, temos em pauta o conhecimento científico em contraposição aos valores humanos. Para vivermos e aplicarmos princípios éticos diante dos avanços da tecnologia, são necessárias avaliações e discussões que envolvem a educação, o direito, a sociologia, a economia, a teologia, a psicologia e a medicina, entre diversos outros campos do saber.

O termo bioética foi usado em 1927 numa publicação de um pastor evangélico alemão chamado Fritz Jahr. Ele se referia a questões e tensões científicas e humanísticas surgidas a partir de uma tentativa de retirar a compreensão teológica ou religiosa dos pressupostos para a observação e construção de alicerces éticos. A expressão ganhou dimensão quando o biólogo e oncologista americano Van R.Potter a mencionou em seu livro Bioética: Ponte para o futuro. Na obra, ele propôs um ramo do conhecimento que ajudasse a pensar sobre os avanços da ciência acerca da vida humana e dos seres vivos em geral. Uma frase de grande incômodo e discussão até hoje reverbera: "Nem tudo que é cientificamente possível é eticamente aceitável".

Olhar com carinho e seriedade a bioética trará limites e finalidades de intervenção do homem sobre a vida e sobre tudo que a promove e dá sustentabilidade, identificando valores positivos e negativos nela envolvidos e de referência e apontando para consequências, benéficas ou não, desses avanços para a humanidade. Estamos diante de novos conceitos de adoração a Deus e de mordomia da vida, envolvendo tudo que somos, temos e podemos ser como seres humanos e cristãos, criados para a glória de Deus e para cooperarmos com o Criador no cuidado e preservação da criação.

Ler o Salmo 139 e a descrição belíssima e poética da geração de um ser humano criado por Deus nos colocará, por exemplo, diante de questões como o aborto e a manipulação genética. Sem dúvida, um dos grandes desafios da Igreja, hoje, é colocar em sua pauta essas e outras relevantes questões que exigem posicionamento cristão, como direitos humanos, violência, cidadania, eutanásia, clonagem, transgenia, uso terapêutico de células-tronco, sempre com uma abordagem que leve em conta a ética e a bioética, agrade a Deus e promova a vida em todos os seus sentidos.

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