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Em paz com a consciência

Os reformadores compreendiam que Deus se revelou a todo homem e para toda cultura, através de um Evangelho que tem linguagem e abrangência universais e que gera uma criatividade que não se esgota em possibilidades.

Não se muda a mentalidade de um povo e de uma nação da noite para o dia. Da mesma forma, não se pode transformar o pensamento de uma pessoa de uma hora para a outra. Pessoas, povos e nações se desenvolvem a partir das heranças recebidas. É impossível não associar a cosmovisão da vida com influências que recebemos em nossas famílias e nos contextos onde fomos educados e criados. Hoje, no Ocidente, vivemos e pensamos a partir das influências do humanismo, do renascentismo, do iluminismo e do impressionismo. O racionalismo, o secularismo e o liberalismo também construíram nossa civilização, da mesma fora como o fizeram o catolicismo, o protestantismo e, mais recentemente, com força, o ateísmo,

De todos esses movimentos, herdamos nossa formação cultural, empírica, social e moral. Santo Agostinho foi um dos que sempre entenderam a fé e a cultura caminhando juntas. Para ele e muitos outros pensadores, as duas coisas não poderiam ser olhadas de forma distante da realidade e somente pelo viés da mística. Os reformadores – Lutero, Calvino, Charles e  John Wesley, por exemplo –, procuravam não se distanciar do jeito de pensar e viver de um grupo social ou povo em suas lutas por uma vida digna e igualmente desfrutadora na existência humana. Eles compreendiam que Deus se revelou a todo homem e para toda cultura, através de um Evangelho que tem linguagem e abrangência universais e que gera uma criatividade que não se esgota em possibilidades.

O movimento da Reforma reafirmou que a graça e a natureza têm a mesma importância e relevância, e que devem ser consideradas de maneira integrada, em um mesmo plano de valoração. Portanto, a fé considera que a cultura pode ser distorcida pela queda do homem; mas, ao mesmo tempo, no movimento da redenção na história, pode ser redimida e resgatada no seu melhor onde se deteriorou. Esse é um convite para todos nós, cristãos, a fazermos arte e valorizarmos a cultura. É por isso que Don Richardson, missiólogo conhecido, encoraja-nos a estarmos sempre buscando encontrar em cada cultura e jeito de viver aquilo que traduz a mentalidade de cada povo, etnia e nação. É caminho libertador que nos faz admirar, transitar e usufruir de toda manifestação de arte e expressões que nunca se esgotam em repercutir o belo. O ser humano, independentemente de sua fé, é dotado da capacidade criativa que recebeu do doador da vida.

No ambiente evangélico protestante, vez por outra nos damos conta de como podemos nos perder no caminho de olhar com respeito e abordar temas interessantes e pertinentes que repercutem nas áreas da fé e da espiritualidade. Muitas delas que norteiam uma vivência de forma mais abrangente ou mais limitada. Cristãos nem sempre buscaram maneiras possíveis para responder às questões que envolvem a cultura e fé com uma prática cotidiana de forma mais coerente com aquilo que creem e professam. Porém, quando o fizeram, enriqueceram a época em que viveram e influenciaram sua geração.

A cultura sempre foi resultado de toda e qualquer atividade criativa do ser humano, desenvolvida dentro das leis e estruturas dadas para a vida em comum por um ser moral, ético, criativo e de recursos infinitos, como nos revela seu poder em sua Criação. Cultura é um sistema integrado de valores, crenças, ritos e instituições que resulta num modo de viver e pensar. Esse sistema busca expressar, com muitas vertentes, sua mentalidade, e influencia a dinâmica da vida, da fé e da espiritualidade. É o místico e o infinito que se encarnam e tomam forma cotidiana e finita nas coisas simples da vida.

Precisamos ampliar e mudar uma mentalidade paralisante que ainda resiste neste início de século 21 nas igrejas. Precisamos transitar nos espaços culturais e de arte que estão à nossa disposição. Precisamos apreciar expressões de arte como a literatura, a poesia, o cinema, o teatro, a música, a dança e outras manifestações na expectativa singela de encontrar o significado pelo qual foram concebidas e delas usufruir o que é belo, inspirador, revelador. Mais do que isso, precisamos criar e promover a arte e a cultura em todos os segmentos e contextos onde estejamos. Se multiplicarmos isso, teremos uma trajetória mais contemplativa e estaremos mais em paz com nossa consciência – cristã, diga-se de passagem.

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