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Noites de angústia

Cristo nos mostra o caminho a seguir. Um caminho de entrega e de confiança, que gera em nós esperança e coragem para prosseguir amando e fazendo o bem.

No Getsêmani, Jesus convida Pedro, Tiago e João para orar. O grupo vivia dias tensos; todos estão exaustos e os discípulos acabam dormindo. Sozinho, na calada da noite, Jesus, tomado de pavor, diz: “A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui e vigiai” (Marcos 14.32-34). Como entender tamanha tristeza de Jesus e as gotas de sangue que brotam de sua fronte? Diante do poder político injusto e perverso e uma dinâmica religiosa distante de Deus, Jesus não está indiferente. E, sabendo-se na iminência da morte, ele assume completamente sua condição humana. O Filho de Deus sente o peso da impotência, da fragilidade, do desamparo, da perplexidade, da tentação de desistir.

Naquele momento, ele tem consciência de toda a maldade humana, até mesmo daquela praticada nos nossos dias. Jesus conhecia as injustiças da sua época e sabia, também, do que estava por vir no século 21 – o drama dos refugiados, a crueldade dos terroristas do Estado Islâmico, a crise política e econômica global, a corrupção, a violência e a injustiça no Brasil dos nossos dias. Cristo tinha consciência de um tempo em que violência, corrupção e mentira caracterizariam a sociedade. Ele sabe muito bem do pecado que habita no coração de cada um de nós, dos nossos ódios, do nosso orgulho, do nosso egoísmo, da nossa omissão de cada dia. E na naquela noite, na véspera de morrer, Jesus se angustia e chora por si e por nós.

No drama do jardim, Jesus se associa às nossas dores e às nossas tragédias, tanto as coletivas como as pessoais. Afligimo-nos com o diagnóstico de uma enfermidade grave, com a perda de um ente querido, com a ruptura na família. Desesperamo-nos com o desemprego e a falta de recursos para honrar os compromissos no fim do mês. E diariamente nos angustiamos com as notícias dos jornais. É na noite, na escuridão, que, invadidos pelas trevas, choramos sozinhos nossas dores, nossos medos e nossa solidão. Esta é uma realidade percebida por aqueles que estão engajados na luta por um mundo melhor, por aqueles que são sensíveis ao drama humano. Muitos optam pela via da negação: nada veem, nada sentem. Anestesiados pelas drogas ou pelo álcool, pelas distrações como as redes sociais e pelo consumismo e pela alienação religiosa, multidões se tornam insensíveis, distantes, omissas, alienadas e cínicas.

Naquela noite, entre as árvores do Getsêmani, Jesus não somente chora. Ele assume sobre si todas as injustiças e perversidades perpetradas na história da humanidade. Sim, de todos – e as minhas também. Em seguida, ele ora: “Aba, Pai, tudo te é possível. Passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim, o que tu queres”. Invadido por uma misteriosa confiança, ele se entrega a Deus, seu Pai, e está pronto para enfrentar seus inimigos, que representam aquilo de pior que o ser humano pode produzir: o ódio, a traição, o abandono, a injustiça, a tortura, a humilhação, a morte. É a partir de sua angústia noturna que Jesus nos indica o caminho a seguir, uma entrega total, em confiança completa nas mãos do nosso Deus, um pai com muitas coisas de mãe. É ele que nos consola e apazigua nossa alma, para que possamos enfrentar a vida e a morte com esperança e coragem.

Naquela tarde, Jesus Cristo morre no Calvário. Entregando-se por nós, ele quebra o ciclo do mal, pois só um poder maior – o poder do amor – poderia vencer o pecado incrustado na experiência humana. Nos três dias seguintes, o corpo de Jesus jaz numa tumba fria. Todas as esperanças se esvaem; todos os ideais elevados sucumbem. Os discípulos, amedrontados, fogem, sem projeto ou direção. Porém, na manhã de domingo, Deus dá a resposta final. O mal é efêmero e o bem é eterno; a vida é mais forte que a morte. Ele ressuscita, e as trevas do pecado e da morte se dissipam diante da luz divina. Também vivemos nossas noites de angústia, mas Cristo nos mostra o caminho a seguir. Um caminho de entrega e de confiança, que gera em nós esperança e coragem para prosseguir amando e fazendo o bem até mesmo a quem, aparentemente, não o merece.

Exilado em Patmos por seu testemunho de Cristo, o apóstolo João, certa vez, também viu a solidão e o medo rondarem sua alma. A Igreja, então nascente, experimentava anos de muito sofrimento, prisões e mortes. João também tem suas noites de angústia, e entre as revelações do Apocalipse, vê o céu se abrir e ouve uma voz que diz: “Eu sou a brilhante estrela da manhã.”

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