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Ao Caio Fábio

Você é muito mais interessante do que o personagem que criou e nunca foi otário, muito menos desinformado.

Eu era daqueles que faziam força para não imitá-lo no púlpito. Tinha-o como referência fora dele. Você era um pastor sem cheiro de gabinete mofado ou cacoetes evangélicos. Contudo, ainda no seu apogeu, já me incomodava a sua superexposição. Contraditório: o que parecia ação profética na cidade virou autopublicidade. Sua opinião era formada e divulgada sobre quase tudo diante dos flashes e microfones. Virou palpiteiro da Globo e cúmplice das redes de comunicação evangélicas, lideradas por parlamentares promíscuos.

Não manda essa de que o gueto evangélico lhe fez mal. Você é que brincou com fogo e acordou mijado! O fato é que jogou o jogo daqueles que dizia desprezar. Caiu de boca e se lambuzou. Quer dizer que, entre tanta gente endiabrada pela luxúria religiosa, Caio era um meigo pastor inocente? Você nunca foi otário, muito menos desinformado. Compreendemos o mecanismo de memória seletiva: a verdade ao nosso respeito dói, mas liberta.

Suas aparições públicas recentes me convencem de que falta pouco para perder de vez a noção. É triste quando lapsos de discernimento nos levam a dizer bobagens e repeti-las à exaustão. Mais terrível ainda é quando perdemos o senso do ridículo. Você se posta como um avatar, um ser iluminado que responde a qualquer pergunta sem esforço. Especialista de nada, autoridade em tudo. Passou da fase do debate e, hoje, reage a posições contrárias às suas com desdém, deboche, escárnio e cinismo. Aparece como um tipo de Jó vitimado pelo sistema, mas é a pura manifestação de reflexos distorcidos de si mesmo. Os moços que o rodeiam são os que mais se divertem com as suas tiradas “altamente intelectualizadas”. Passivos, não discordam nunca.

Caio, você precisa do contraditório. Longe de ser afronta, a confrontação sadia gera palavras assertivas. Tenho profunda admiração por você, mas convenhamos: é demasiadamente exibido, e por isso vacila tanto. Sua contumaz busca pela celebridade o apequena. Na boa: voltou para o caminho que deu em nada? Vai continuar “inocente” ou ser oráculo underground dos evangélicos é algo que realmente o seduz?

Foi duro ouvir até o fim suas entrevistas em programas de auditório. Fiquei olhando e ouvindo, ora com pena, ora com raiva. Caio Fábio envelhece, mas não cresce. O sensacionalismo evangélico do qual compartilha e mantém a audiência nas alturas é populismo. Amanhã, vai precisar de uma dosagem mais forte ainda para chocar. Não é à toa que o estão colocando em programas no limiar entre a polêmica e o humor: Superpop, The noite... Acho que você é bem maior do que os papéis que esses diretores dos horários nobres estão lhe atribundo. Portanto, pergunte-se: estão rindo para você ou de você?

Jogo de cena e repetições. Raso, mas extremamente confiante. O discurso é gerado pela raiz de amargura; a agressividade, medida. Ótimo show para o horário nobre da TV brasileira! Não falta gente para repetir falações de pastores coach. Cara, chega de expertise existencial que beira os testemunhos dos doidões que se transformaram em santos! Preserve-se. Ouça o conselho de Paulinho da Viola: “Faça como o velho marinheiro que, durante o nevoeiro, leva o barco devagar.”

Em termos midiáticos, qual a diferença entre você, Edir Macedo, Valdemiro Santiago e Silas Malafaia? E não vale dizer que transformou a gravata em tiara. Virar o discurso do avesso é o suficiente? Exílio na internet basta? As estéticas e as linguagens, claro, diferem – no entanto, são iguais na concepção: ícones de nichos do mercado evangélico tupiniquim. Dirigem-se às massas e causam profundo constrangimento às pequenas comunidades cristãs. Fazem grandes dívidas na mídia e esperam compartilhar a fatura com os irmãos “conscientes da missão”. Competem no mercado religioso com altivez e repetem o mantra de que “não se arrependem de nada que fizeram”.

Saia desse bolo, Caio! Sacuda a poeira dos pés. Dirija-se à sociedade com leveza e resista à pretensão de ganhar público pelo efeito do choque. Aprenda a conviver com uma plateia menor. Queira ser menor. Ria da própria insignificância. Conhecedor que é da natureza humana, você perceberá que esta fala não foi escrita para ridicularizá-lo, nem brota da pena de um dos seus detratores. Você é muito mais interessante do que o personagem que criou. Antes de mergulhar sete vezes, arranque a capa. Fica leve, irmão, pois no sossego e na leveza estão a sua força e beleza. Ademais, você, pastor amado, não precisa provar nada. A ninguém.

Beijo. Dema.

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