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Não fui eu!

Everaldo foi apenas um detalhe; o que importava, mesmo, era o “pastor”

Aspirante ao cargo eletivo mais importante da República, o pastor incorporou o título ao nome. Everaldo foi apenas um detalhe; o que importava, mesmo, era o “pastor”. Independentemente do resultado das urnas, o recado foi devidamente registrado. 

O despreparo de Everaldo (PSC) ficou mais do que evidente nos debates. As perguntas não eram processadas; por isso, as respostas fluíam como um teatro de improvisos absurdos. O pastor decorou a ideia de Estado mínimo e quis posar de neoliberal. Porém, bufão o definiria melhor. O liberal John Stuart Mill (1806-1873) teria um acesso de riso ao ouvir as proposições de Everaldo. Sem constrangimento, subverteu os conselhos de que, para manter as empresas rentáveis no Estado capitalista, é forçoso aquiescer diante das pressões das massas operárias. Com Everaldo o caldo é mais grosso. Tirania da maioria na pura versão do utilitarismo: a maior felicidade para o maior número possível de pessoas. E quanto às minorias? Ora, como diria o Justo Verrísimo, personagem de humorista Chico Anysio, “quero mais é que se explodam!”   

A cruzada dessa candidatura justificou-se na medida em que defendia os valores da família tradicional. A repercussão da presidência de outro pastor, Marco Feliciano (PSC-SP), na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara de Deputados, talvez tenha sido o fato político que mais expôs a Frente Parlamentar Evangélica na atual legislatura. Feliciano tornou-se figura pública alvo de contradições não por causa das suas pregações bizarras, mas devido às suas atividades parlamentares. 

Surge como natural, neste contexto de cruzada moral, a candidatura do grande artífice deste discurso. Não é para ganhar, mas para “demarcar território”. Após a eleição, Everaldo volta para onde sempre esteve: os corredores dos palácios dos governos e da Câmara Federal. Na ponta da língua, o discurso pela família tradicional; nas mãos, pastas que escondem outros papéis.

As pesquisas de intenção de votos chegaram a dar admiráveis 4% para Everaldo. Nada mau para quem jamais concorreu a cargos eletivos, como foi forçado a admitir na bancada do Jornal Nacional, sabatinado pela Globo. Há muitas hipóteses para explicar o surpreendente desempenho.  O logotipo do partido, um simpático peixinho; a proposta, lançada ao vento, de privatizar a Petrobras e a Infraero; a redução da maioridade penal como bandeira; o poder das orações; e até a confraria do bigode grosso. O pastor candidato contou, ainda, com fiéis intercessores: bispo Manoel Ferreira, presidente vitalício da Convenção das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira e presidente de honra do PSC; pastor Silas Malafaia, mandachuva da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo e defensor aguerrido da marcação de posição pelos evangélicos na eleição; Magno Malta, pastor e senador (PR-ES), que chegou a postular a candidatura à Presidência da República nestas eleições, mas teve a honra negada pelo partido; e o próprio Marco Feliciano, a honra; Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), líder máximo da Igreja Assembleia de Deus Tempo de Avivamento. 

É triste admitir que a face da Igreja Evangélica no Brasil está devidamente representada pelo rosto de Everaldo. Em seu ambiente de trabalho ou de estudo, os evangélicos tiveram de, durante toda a campanha eleitoral, encarar os deboches. Nas redes sociais, as tiradas de Everaldo são repetidas com adaptações jocosas, até mesmo insinuando um suposto flato em rede nacional. O pior é ouvir de uns “irmãozinhos” que a perseguição dos ímpios aos crentes emergentes é algo previsto nas profecias bíblicas.

Durante um tempo, defendi, nos círculos acadêmicos e em entrevistas, a tese de que, em época eleitoral, alguns líderes evangélicos blefavam, negociando em nome de uma base eleitoral inexistente. Errei feio. Os tais continuarão falando em nome dos evangélicos e fazendo os seus acordos devidamente autorizados pelos milhares de crentes que chancelam seus atos e falas. A ideia do pastor com a chave do curral não é uma imagem ofensiva; são as ovelhas que preferem assim.

Perplexo, deixo o meu registro: Não faço parte disso! Confesso que, no ambiente privado, dou o meu “pum”. Agora, o cheiro que o Brasil sente em decorrência da corrida pelo poder de setores da Igreja Evangélica na esfera pública não vem de mim. Minhas mãos não estão sujas – e nem amarelas. 

 

 

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