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Curralinho e o rio Canaticu

O Evangelho encarnado dialoga respeitosamente com as culturas.

O município de Curralinho fica na imensa ilha de Marajó, no estado do Pará. Entre os dias 17 e 23 de abril, estive imerso naquele maravilhoso mundo. Para chegar lá, é preciso ir até Belém, tomar o barco e armar a rede, essencial para suportar as 16 horas de viagem pelas águas infindas da região amazônica. Viagem missionária, daquelas em que a gente leva bagagem, muita fé e amor para repartir.

O silêncio do rio Canaticu desliza, enquanto o silêncio da mata fechada chega a assustar. A família ribeirinha que nos recebeu mostrou-se amistosa, porém, econômica nas palavras. Não houve aquelas saudações efusivas que a gente sempre espera ao chegar. As declarações de boas vindas foram expressas através dos sabores: açaí, tapioca com coco, frango assado na brasa e cuscuz amarelo, melado na manteiga fresca.

No dia seguinte, a luz do sol nos revelaria cenários lindos. Penso que fui acometido por sentimento semelhante ao dos colonizadores europeus ao aportarem na terra brazilis. A cultura dos ribeirinhos do Canaticu faz lembrar fortemente os costumes indígenas amazônicos – povo da mata e dos rios, das cores e dos sabores, da brisa e do silêncio. Dentistas, médicos, professores, missionários, fisioterapeutas e marinheiros abriram suas mochilas e começaram a trabalhar. Os barcos chegavam com crianças e idosos. A notícia correu depressa. O pequeno cais da Igreja Batista Luz da Vida transformou-se numa plataforma de encontros culturais.

Na humanidade, encontramos o outro. Senti enorme orgulho de ser pastor da Igreja Batista Memorial da Tijuca. E fiz a descoberta antropológica evidente, mas que faltou aos portugueses de outrora: os nativos brasileiros, ribeirinhos ou interioranos, assumidamente selvagens, são gente; humanos que não veem graça na nossa "civilização" desigual, violenta, apressada. Eles não ajuntam em celeiros, e por isso, não andam ansiosos quanto ao dia de amanhã. Basta, a cada dia, a sua caça. A castanha recolhida hoje não vai sobrar para amanhã; o peixe a ser comido será tirado do rio, como sempre foi.

Absurdo considerar aqueles que estão fora do mercado capitalista como indolentes ou preguiçosos. A lógica da produção em larga escala para consumo, através de moedas de troca, é um dado cultural, e não da natureza. Nosso mundo é cheio de coisas 'fantásticas", que foram fabricadas para nossa alegria; mas nem todas as tribos, povos e raças vivem inquietos, como nós, com o que haverão de comer ou de vestir.

Naquele braço do Canaticu, enquanto servíamos aos ribeirinhos, reforcei a ideia de que nossa forma de vida ocidental, capitalista e antropocêntrica, é apenas uma opção cultural, entre tantas possíveis. Rubem, nativo da terra, nos hospedou com generosidade. No dia da partida, lhe dei uma lanterna, daquelas que vêm com um elástico para colocar na testa. Percebi que lhe seria útil, já que os ribeirinhos se deslocam no escuro, através de pequenas embarcações, ou caminham pela mata densa, onde a luz solar não penetra. O ribeirinho embrenhou-se no mato e logo trouxe um saco de castanhas. Naquele gesto de reciprocidade, entendi a sua gratidão. Tocante diversidade! Sim, o grande patrimônio são as pessoas, e não as coisas reluzentes.

Não me iludo. O Município de Curralinho está longe de parecer o paraíso, e os seus habitantes são tão ambiguos quanto nós. O mito do bom selvagem é algo superado. Tenho convicção que o Evangelho encarnado, conforme anunciado pelo apóstolo aos gentios, dialoga respeitosamente com as culturas e transforma o belo em mais belo ainda. Ninguém precisa converter-se às culturas urbanas burguesas para se transformar num seguidor de Jesus Cristo. Neste sentido, a teologia paulina continua como referência. Pregar o Evangelho não é promover a concepção de que existem culturas malditas que serão salvas por culturas divinas. A missão da Igreja não passa pela propaganda de um modo de vida que sobrepuja o outro.

Nesta viagem a um canto tão pouco conhecido do país, uma reflexão sobre a Igreja de Cristo é inevitável. Não o pensar acadêmico ou teológico; simplesmente, refletir como um brasileiro crente em Jesus de Nazaré. Deitado na rede, enquanto o sono não vinha, fiquei pensando: a Igreja vive falando na conversão dos índios, dos ribeirinhos...E Deus, será que ele não espera pela conversão de sua Igreja a este Brasil profundo?

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