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A arrumação da vida

Para mim, é mais fácil ficar livre de coisas do que de ideias.

Tradicionalmente, no início de cada ano, faço uma arrumação minuciosa em casa. Parece que o início de um novo período nos anima a colocar as coisas em ordem, como metáfora de um novo ciclo na vida. Mais especificamente, gosto de abrir as gavetas para localizar os excessos. A faxina da qual me ocupo não inclui água e produtos de limpeza; no meu ritual anual, munido de sacos de lixo e caixas, tento localizar o que está fora do lugar ou, simplesmente, aquilo de que não precisamos mais. E tenho a nítida impressão de que arrumar os cômodos da casa é mais fácil do que dar um jeito no interior dos armários e nas famigeradas gavetas – aquelas que, contra a nossa vontade, têm uma voracidade imensa por acumular objetos, quinquilharias de todo tipo e aquelas coisas que rotulamos com a famosa justificativa de que um dia, quem sabe, precisaremos delas.

Nesse rito pessoal e anual de arrumação, tocar os brinquedos dos meus filhos mostra de maneira clara o quanto o tempo é veloz. Cada boneco com o qual conversaram animadamente, cada carrinho ou trem que os levou a distantes lugares imaginários, traz à minha memória fases específicas da vida deles. Numa boa arrumação, concluímos que a memória afetiva evocada por cada objeto vale mais do que os valores pecuniários despendidos em sua aquisição. Tantos presentes caros jamais foram alvo da atenção deles!

Arrumar o fundo do baú nos primeiros dias de janeiro nos ajuda a não acumular supérfluos ao longo do ano. Os economistas nos contam que o desenvolvimento do Brasil nos últimos anos tem a ver com os incentivos governamentais para que o mercado consumidor interno mantenha-se aquecido. São incentivos para que o brasileiro mantenha-se ocupado, comprando sempre mais. Alguns "afortunados" da classe C sentem-se em plena ascensão social pelo fato que ampliaram o seu poder de compra: chegam mesmo a confundir cidadania com direito ao crédito.

A cultura do consumo não estimula a reflexão no início do novo ciclo. O que compramos mal vai, certamente, ficar empilhado nas prateleiras sem uso e sem importância. Podemos viver bem sem tais objetos; então, para quê adquiri-los? Existe o folclore de que as mulheres são consumistas desvairadas e os homens, consumidores racionais. Balela. Generalização machista sem propósito de um tempo em que as mulheres eram financeiramente dependentes dos seus maridos. As pesquisas demográficas dão conta de que mais da metade dos lares brasileiros são mantidos por mulheres.

Quando me intrometo a organizar o guarda-roupa de minha mulher, compartilho sugestões do que poderia ser doado e o que poderia ser reposicionado. Falamos de leveza e de desapego. Deparamo-nos com a história que construímos juntos; lembranças que se manifestam nas cartas amareladas pelo tempo e nas fotografias escondidas na parte mais alta do armário. Na tentativa de tirar os excessos, descobrimos no fundo o que nos é essencial e mantemos bem guardado. Olhares cúmplices abrem baús de tesouros conquistados juntos. De novo, a certeza de que o que temos de mais valioso não depende da fatura da loja e que o que realmente guardamos a sete chaves não está à venda – e nem faria sentido para quem quer que fosse. É nosso. Só nosso.

O ritual prossegue com os livros. Eles são tirados das estantes e limpos com uma flanela. Alguns são escolhidos para passar adiante; outros, colocados na lista imaginária dos que precisam ser lidos. O cerimonial inclui a leitura de anotações feitas há muito tempo, nas margens ou em pedaços de papel que se deixam encontrar enquanto folheio os livros. Redescobertas. Em alguns casos, sinto-me lido pelo olhar fixo dos autores.
Para mim, é mais fácil ficar livre de coisas do que de ideias. Tento ser tão desprendido em termos de disposição intelectual quanto julgo ser em relação às coisas. Pudera, nesta arrumação, localizar os excessos que residem na minha mente – tantas coisas que fui juntando com o tempo e que estão devidamente alojadas no meu íntimo. Assim como o que encontro nos armários, nem tudo é bom. Geralmente, minha mão não alcança esses conteúdos que ficam lá dentro; por isso, preciso de braços finos e leves para mexer sem machucar. Quem quer arrumar a vida tem de aprender a pedir ajuda.

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