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A Frente Parlamentar Evangélica

Quais os interesses defendidos pelos membros desse grupo no Congresso?

A Frente Parlamentar Evangélica é uma associação civil, de natureza não-governamental, constituída no âmbito do Congresso Nacional, integrada por deputados federais e senadores da República Federativa do Brasil. Esta é a autodefinição do grupo. A justificativa para sua formação vem da Bíblia – mais precisamente, do texto de Provérbios 29.2: "Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme".
A hermenêutica bíblica aplicada valoriza a dicotomia entre as ideias de justo e de ímpio. Pois é: para o "bom eleitor", meio verso bíblico basta. A Frente Parlamentar Evangélica, ou FPE, apresenta-se como a "liga da justiça" num Brasil que jaz no maligno. Importa bater de frente com as outras frentes parlamentares na disputa das questões morais. Até porque, conforme a alusão que os ilustres parlamentares ligados à Frente fazem à frase antológica do reverendo Martin Luther King Jr, o que deve nos preocupar não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons. Definitivamente, as dicotomias morais e espirituais, na retórica da Frente Parlamentar Evangélica, são combatidas através de intervenções políticas.
O que fazem os diletos parlamentares evangélicos quando não estão reunidos em seu culto, realizado às quartas-feiras, às 8h30, lá nas dependências da Câmara dos Deputados? Quando contratamos os serviços de um advogado, regularmente assinamos uma procuração em que definimos o tipo de representação que aquele profissional exercerá em nosso nome. Tratando-se de delegação política, os parlamentares que compõem a Frente Evangélica receberam uma procuração irrestrita para atuarem na Câmara e no Senado Federal?
Quais os interesses defendidos pelos membros desse grupo? Na essência do conceito de representação política, está associada a ideia da defesa de interesses. Consultar as bases é o mesmo que reportar-se a quem são devidos os relatórios das performances. No entanto, falta à comunidade evangélica a capacidade de monitoramento dos seus ditos representantes. Se levássemos mesmo a sério a pertinência da observação da FPE, encontraríamos interesses que em nada fazem lembrar o Sermão do Monte.
Hipótese forte: dada a radicalização do embate envolvendo a natureza da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados – para cuja presidência foi eleito um pastor, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) ,desencadeando intensa polêmica –, a bancada evangélica deve crescer na próxima legislatura. No mínimo, veremos, no próximo período eleitoral, o uso do tom exaltado, misturado à terminologia bíblica, para justificar a representação política religiosa. Candidatos a salvadores da pátria e a protetores da família aparecerão diante de nós. Nesse diapasão político-eleitoral, pouco importam as agremiações partidárias e as biografias dos candidatos; muito menos, se tal postulante é pentecostal ou faz parte de uma igreja que lembra a fleuma dominical inglesa. Quando da composição da Frente, no início da 54ª legislatura, foram listados 79 parlamentares – 76 deputados federais e três senadores. Claro, muitas variáveis precisam ser levadas em conta na análise do trabalho dos congressistas, e não se devem generalizar padrões de comportamento. Portanto, superando o susto ou o ufanismo que o número de membros da FPE possa nos trazer, há que se perguntar pelo desempenho de suas excelências.
A nota triste: a regra geral dos sistemas políticos representativos é que quem vota não monitora a vida parlamentar do seu eleito. Esse é um defeito de fábrica das democracias. Representação é confundida com delegação irrestrita – e parece que os crentes das igrejas evangélicas brasileiras são ativos nos períodos eleitorais, mas passivos no que se refere à exigência de prestação de contas.
O problema é que hoje, na comunidade evangélica, quem é critico em termos sociais é tido como da turma do contra, assim como aqueles que fazem perguntas teológicas são olhados como apóstatas liberais. Mas será mesmo que teremos que engolir a seco a dita representação política evangélica? Além da oração, não teremos nenhum outro recurso para reclamar do que consideramos desvios de rota? De fato, quando os justos governam, o povo se alegra. O problema é quando o ímpio domina.

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