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Junho de 2013

Uma ordem corrompida não pode ser respeitada, nem reproduzida.

Até junho de 2013, prevalecia em muitos de nós a impressão de que a relação dos jovens brasileiros com a política era de significativo desinteresse. Essa percepção era reforçada quando estabelecíamos os contrastes com as gerações de décadas anteriores. Os jovens dos anos 1960 e 70 resistiram como puderam à ditadura militar. Havia protestos, barricadas nas ruas, enfrentamentos. Houve mortes. Mais tarde, o pais voltaria à democracia. Os que viveram no início dos anos 90 animaram-se com o "fora Collor", movimento que saiu às ruas pedindo o impeachment do então presidente da República. Foi uma mobilização mais descontraída, que passou à história do país pela imagem dos rostos pintados. E Fernando Collor foi apeado do poder por corrupção.
A democracia, fadada a mero conjunto de regras e procedimentos, teria esvaziado completamente a noção de participação? A conclusão simples levava a apontar o espantoso silêncio da juventude como indício de certo bem-estar. Com as utopias eliminadas, caberia à moçada divertir-se o quanto pudesse e concentrar o foco nos estudos, em busca de bons resultados na vida adulta. O convite desse mundo encantado e cheio de oportunidades privilegia a resignação fatal diante do capitalismo e a celebração do individualismo. Com sua prosa agradável, os filósofos Renato Janini Ribeiro e Mario Sérgio Cortella já haviam advertido que faltava ao jovem contemporâneo a noção do "horizonte adversário"; o grande desafio seria descobrir os bons combates, os motivos para viver e lutar.
O problema é que, olhando-se a política, a sensação comum é de desprezo e nojo. A corrupção generalizada na gestão da coisa pública leva ao desânimo e às generalizações. Melhor, então, deixar tudo como está e cuidar da própria vida, no salve-se quem puder nosso de cada dia. Em termos de ética cristã, parece que os evangélicos brasileiros preferem sublinhar o termo ordem. Para tanto, alimentam-se de textos bíblicos que falam da importância de nos submetermos às autoridades constituídas. Para as nossas fileiras mais conservadoras, qualquer grito é quebra de ordem, exceto o brado do "amém".
Deveríamos recuperar a dimensão original da política e, assim, vermos pessoas nas ruas se manifestando como algo natural e saudável. A finalidade da política é a felicidade e a essência da democracia é a participação popular, e não apenas a transformação da indignação em mero desabafo ou mais um espetáculo para se exibir no Facebook. Mas a finalidade da Igreja também passa pelo bem comum. Temos compromisso com nosso país. E, enquanto alguns pastores ficaram preocupados porque os "seus" jovens faltaram ao culto para comparecer às manifestações, outros foram marcar presença com seus rebanhos nas ruas. Acontece que todo cuidado é pouco com a criminalização, a priori, da política. Será mesmo que as multidões festivas pelas ruas são mais puras do que os parlamentares que as representam? As igrejas falam abertamente de cidadania e abaixam a voz quando pronunciam a palavra política.
Passado o tempo da perplexidade, é preciso fazer um ajuste de contas com os omissos que, ao afirmarem que o Brasil jaz no maligno, se aplicam tão somente a povoar o céu. Nessa leitura, fica tudo simplificado, reduzido, espiritualizado. Erguemos as mãos para louvar ao Cristo glorificado e perdemos a coragem de seguir os passos do Cristo encarnado. Assim, a sociedade fica confusa com nossa resignação. Pode ser desagradável lembrar, mas o fato é que prestaremos contas a Deus das nossas omissões.
A esperança é que a juventude das nossas igrejas tome gosto pelo que viram e ouviram e não se sinta culpada por ser ativa na vida política brasileira. Assim como os governos viram-se pressionados a ouvir e atender à voz das ruas, que as igrejas evangélicas sejam chamadas a conversar com seus próprios membros. O contexto social que emerge do atual momento da vida nacional reclama dessa nova geração de brasileiros um compromisso com a ética e uma capacidade de indignação contra o desvio, o engano, o mal feito. Uma ordem corrompida não pode ser respeitada, nem reproduzida – então, que o bom Deus nos conceda autoridade profética para contestá-la. Que o nosso caminhar como comunidade de fé seja caracterizado pela fome e sede de justiça.

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