Menu

Fogo amigo

Estudioso do neopentecostalismo brasileiro, o pastor David Bledsoe mostra porque a Igreja Universal presta um desserviço à fé cristã.

Estudar o neopentecostalismo brasileiro já não é novidade. Fenômeno religioso que que mais cresce no país, o movimento tem atraído a atenção de sociólogos, acadêmicos e jornalistas, além de muitos estudiosos da religião, graças ao seu caráter expansionista e poderio econômico – além, claro, da agressividade na captação de recursos financeiros e dos escândalos que volta e meia surgem em seus arraiais. O que não é muito comum é ver um estrangeiro debruçar-se sobre este multifacetado e controvertido universo espiritual com a dedicação de um detetive e a motivação de um missionário. Pois o pastor americano David Allen Bledsoe, 44 anos e há 14 no Brasil, fez isso, usando como objeto de estudo a mais proeminente denominação neopentecostal do país, a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Durante três anos, Bledsoe frequentou cultos, ouviu fiéis e líderes e pesquisou um bocado sobre as origens e o desenvolvimento do grupo liderado pelo polêmico bispo Edir Macedo.
O material foi transformado em livro pela Editora Hagnos. Movimento neopentecostal brasileiro: Um estudo de caso aborda também a história dessa vertente teológica em solo brasileiro, seus principais grupos e seu modus operandi. Nas palavras do autor, o trabalho visa a colaborar com a Igreja brasileira no sentido de desvendar aspectos que considera essenciais. "Há poucos estudos que analisam os ensinos e abordagens neopentecostais com parâmetros evangélicos, sob uma perspectiva missiológica", diz Bledsoe. "Eu queria verificar se igrejas como a Universal impulsionam ou prejudicam a evangelização do povo brasileiro e de outras nações para onde suas igrejas enviam missionários". A alternativa a que chegou, admite, é a segunda. Um dos motivos, segundo ele, é a projeção de uma caricatura de Cristianismo diante da sociedade.
Vivendo em Belo Horizonte (MG) com a mulher e os dois filhos, Bledsoe faz diagnósticos precisos sobre a realidade espiritual do país. "Uma das maiores dificuldades é o desenvolvimento de liderança, particularmente na educação teológica e na formação de seu caráter". No país a serviço da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, o pastor Bledsoe, que possui doutorado em Teologia e formação em Administração e Engenharia, colabora com as igrejas da denominação nas áreas de evangelismo, treinamento e liderança, além do magistério. Demonstrando excelente domínio da língua portuguesa, ele atendeu CRISTIANISMO HOJE:

CRISTIANISMO HOJE – Por que o senhor, sendo estrangeiro, resolveu fazer um estudo sobre o movimento neopentecostal brasileiro?
DAVID BLEDSOE – Em primeiro lugar, porque eu queria informar melhor a Igreja no Brasil sobre o discurso principal desse movimento, suas razões de existência e crescimento, entre outras características. Escolhi a Igreja Universal como foco porque ela é a manifestação neopentecostal mais reconhecida no país. Além disso, comecei a me preocupar mais com os membros das igrejas neopentecostais em relação ao seu entendimento da salvação. Percebi um problema grave através de conversas com eles – encontrei muitas pessoas sinceras e fervorosas, mas com dificuldades em articular uma razão para sua salvação que se baseasse na fé evangélica.

O que difere seu estudo dos anteriores sobre o mesmo assunto?
Há muitos bons estudos sobre o movimento neopentecostal escritos por sociólogos, antropólogos, historiadores e jornalistas. Contudo, há poucos que analisam os ensinos e abordagens neopentecostais com parâmetros evangélicos. Não descobri nada escrito, por exemplo, sob uma perspectiva missiológica. Eu queria verificar se igrejas como a Universal impulsionam ou prejudicam a evangelização do povo brasileiro e de outras nações para onde suas igrejas enviam missionários.

E qual é a resposta?
Lamento dizer que denominações como a Igreja Universal acabam causando danos à evangelização no Brasil. Em primeiro lugar, porque projetam uma caricatura de Cristianismo diante da sociedade. Segundo, porque essas organizações religiosas são muito antropocêntricas e pouco centradas em Cristo – ao contrário, há uma forte ênfase no diabo, no poder maligno. É claro que o Evangelho deve libertar a pessoa do domínio de Satanás; mas há uma preocupação enorme no discurso neopentecostal e entre os fiéis com isso, mostrando um erro grave. Além disso, é raro ouvir um adepto desse movimento que faça menção ao nome de Jesus para a base de sua salvação. Com pode alguém ser cristão sem Cristo? Em quarto lugar, há nesses meios um pragmatismo exacerbado. Ora, os meios devem ser tão justificáveis como os fins quando se fala em esforços missionários. Por último, vemos que muitos termos, temas e eventos importantíssimos na história da fé evangélica são ausentes ou redefinidos nessas igrejas, e isso é traço de facção.

Então, a Igreja Universal não é uma denominação evangélica?
De acordo com o padrão evangélico estabelecido no meu livro – e esse padrão baseia-se principalmente nos documentos do Movimento de Lausanne –, ela acabou sendo desqualificada como tal. A Universal propaga uma mensagem distorcida do Evangelho, prendendo seus adeptos em uma cosmovisão religiosa popular, em vez de libertá-los dessa artimanha diabólica. Ela também emprega rituais religiosos narcisistas e animistas. Outra característica que a desqualifica como evangélica é que não promove laços fraternais esperados para uma igreja baseada no Novo Testamento – ali, a pessoa se relaciona com Deus principalmente através da instituição e do que ela oferece em trabalhos especializados. Por último, a Iurd adota postura sectária, agindo com aversão e superioridade para com os outros grupos. Isso, sem falar na exploração de seus fiéis, tratando dízimos e ofertas como um ato quase sacramental. Os grupos neopentecostais têm mais em comum do que diferenças. Certamente, há nuances em cada igreja; todavia, todas elas acabam empregando estratégias parecidas: escolha de locais para seus templos onde ocorre grande movimento de pessoas; uso do rádio e da TV; múltiplas reuniões por dia; ênfase na cura e na libertação; orações fortes e tratamento de causas sentimentais e impossíveis etc.

Se não podem ser consideradas evangélicas, o que seriam essas denominações?
Seria melhor encará-las como grupos religiosos populares que saíram do evangelicalismo brasileiro, ou melhor, de pentecostalismo brasileiro, mas que não tiveram continuidade em áreas fundamentais para serem incluídos no campo evangélico. Elas são evangélicas apenas no mesmo sentido que a Igreja do Socorro, em Juazeiro do Norte [no Ceará, importante centro de peregrinações populares em torno da figura do falecido padre Cícero Romão, tido como santo pelos devotos], pode ser considerada uma Igreja Católica Apostólica Romana – isto é, seria uma forma popular de catolicismo.

No livro, o senhor diz que o modo de operar das igrejas neopentecostais influencia as denominações pentecostais e até mesmo as históricas. Como isso ocorre e qual as consequências de tal processo?
O período neopentecostal é descrito como a terceira onda do pentecostalismo brasileiro. O termo se encaixa bem, pois ondas têm a capacidade de transbordar e misturar-se com outros elementos. Paulo Ayres Mattos diz que o neopentecostalismo é uma série de continuidades e descontinuidades. Igrejas pentecostais formadas antes dessa terceira onda, bem como igrejas renovadas e igrejas da missão, têm recebido influências neopentecostais. Embora algumas tentem alertar seu povo contra essas influências, podemos observar muitos elementos neopentecostais em cultos de igrejas de outras linhas teológicas – principalmente, em relação à confissão positiva e à pregação da prosperidade.

Edir Macedo, certa vez, comparou a Igreja Universal à massa de bolo – nas suas palavras, "quanto mais apanha, mais cresce". O senhor concorda?
É uma característica própria da Iurd crescer no meio de múltiplos escândalos. E, muitas vezes, esses escândalos a seguem por onde quer que vá, criando novos dramas no campo missionário. Mas há um ponto que quero destacar: não devemos pensar que o impacto da Iurd já terminou na sociedade brasileira, diante de seu declínio recentemente revelado no último Censo. A meu ver, ela se enraizou de tal maneira e em tantas áreas na sociedade brasileira que, provavelmente, garantiu seu futuro como instituição na história e no futuro do Brasil. A Universal é associada, na mente do brasileiro, à Rede Record, a catedrais bonitas em regiões nobres de grandes cidades e a uma voz de peso em várias camadas da política nacional. Ela não é mais encarada apenas como um monte de templos em áreas periféricas, embora esteja lá, ainda. Além disso, o seu discurso principal e as abordagens empregadas encaixam-se perfeitamente na cosmovisão do religioso brasileiro popular.

Podemos dizer então que o nepentecostalismo brasileiro está sempre se reinventando?
Concordo quando dizem que o impacto e o funcionamento das igrejas neopentecostais possa sofrer alterações nos próximos 20 anos. No entanto, seus líderes já provaram ser bem criativos e pragmáticos e serão capazes de fazer as alterações necessárias, ainda mais porque não precisam seguir tradições e detalhes doutrinários. Tenho lido muitas previsões dando conta de que o neopentecostalismo já está em declínio, através de algumas interpretações iniciais feitas com as estatísticas reveladas no último recenseamento. Entretanto, não vejo que ele vai perder muita força nem antecipo que haverá uma onda de igrejas neopentecostais fechando suas portas. Sempre teremos pessoas com problemas físicos, econômicos, conjugais e outras crises para superar. Além disso, o brasileiro é naturalmente místico, o que supera a visão racional das coisas. As pessoas encontram ali um serviço especializado, baseado em lemas como "pare de sofrer" ou "aqui o milagre acontece". Então, basta entrar, cultivar fé e colaborar. Portanto, essas igrejas sempre terão clientela.

O conhecimento teológico e o estudo da Bíblia não são muito valorizados nas denominações neopentecostais, cuja plataforma está ancorada na experiência pessoal do crente. Porém, muitas correntes evangélicas que as criticam por isso enfrentam problemas nessa área, inclusive falta de interesse dos membros no estudo da Palavra de Deus. Há relação entre essas duas realidades?
Boa pergunta. Em geral, a confessionalidade não é algo que se destaca muito nas igrejas evangélicas brasileiras em geral. Muitas denominações, lamentavelmente, ou não promovem ou deixam sua confissão de lado. E os pentecostais, geralmente, têm um pé atrás com o estudo exegético da Palavra, o que pode ser comprovado por uma frase constantemente ouvida nesse meio: "A letra mata". Entretanto, as igrejas de hoje precisam renovar seu compromisso também na centralidade das Escrituras para fé e prática. A falta da ênfase na hermenêutica evangélica, em busca da intenção original dos autores bíblicos para aplicá-la aos nossos dias, abre espaço para misticismo, leituras superficiais, subjetivismo relativo e até reinterpretações seculares. Posso até imaginar o apóstolo Paulo no céu, frustrado, ouvindo o que pregamos e dizendo: "Mas como esse cara chegou a essa conclusão sobre o que eu escrevi?!?"

Com a clara separação entre o neopentecostalismo e os outros setores do protestantismo brasileiro, pode-se falar em "dois brasis" evangélicos?
Sociologicamente, seria bom se pudéssemos criar essas categorias, para que sociedade brasileira pudesse entender melhor as duas realidades distintas. Pórem, isso será difícil até que a Igreja Evangélica brasileira, através de suas diferentes confissões e associações, resolva se esforçar para refletir teologicamente e, então, possa responder profeticamente às tendências, discursos e práticas que caiam fora dos ensinos e valores de Jesus e dos apóstolos. Temos as Escrituras e 2 mil anos de Cristianismo para nos nortear sobre as essências. Naturalmente, há um espaço para não ser tão fechado em questões secundárias, e devemos respeitar as diferenças.

Ultimamente, outras igrejas brasileiras e entidades evangélicas têm feito críticas às práticas neopentecostais. Muitos líderes se dizem prejudicados por elas, já que, na percepção social, todos são evangélicos – assim, escândalos pontuais acabam prejudicando a imagem da Igreja como um todo. Por que, então, faltam iniciativas mais claras no sentido de delimitar essas diferenças?
É outra boa pergunta que eu já fiz para mim mesmo: Por que não se coloca uma linha divisória clara em relação ao neopentecostalismo? Acontece que a cultura brasileira, em geral, não é de confronto; ela é mais pacífica e tolerante. Minha intenção não é julgar os irmãos brasileiros por não fazer o que eu queria ver, mas este é um dos motivos que me levaram a publicar o livro. Quero contribuir para uma conversa necessária sobre o que é ou não ser evangélico. Penso que isso precisa ser mais discutido entre líderes, em suas próprias denominações e em associações, já que o movimento evangélico não possui uma cúpula que declara julgamentos finais que todas as igrejas aceitarão, e nem queremos isso. Outro motivo é que a apologética é uma área que precisa ser mais apreciada e desenvolvida no campo evangélico. Por último, mas não menos importante, há um entendimento ingênuo, entre nós, do significado da conversão. Se a pessoa foi batizada em uma igreja evangélica, supomos que ela é, de fato, evangélica. Porém, como já se disse, passar a noite na garagem não faz de ninguém um carro...

Essa falta de uma conversão genuína pode ser apontada como o motivo de tanta flutuação de pessoas pelas igrejas?
O brasileiro gosta de fazer parte de um projeto maior, que favorece movimentos como as igrejas neopentecostais, por exemplo. Vejo que o brasileiro, em geral, não é tão anti-institucional e nem tem tanta resistência às estruturas burocráticas, desde que funcionem para seu proveito. Se acha que o sistema dá certo para ele, o sujeito não se importa com suas ineficiências e eventuais problemas.

Mas hoje em dia, os chamados "desigrejados" – pessoas que já tiveram envolvimento direto com igrejas e que, com o passar do tempo, foram se desgastando e decepcionando, passando a viver uma fé de expressão individual ou em pequenos grupos, sem a presença de uma liderança formal – são um segmento crescente. Na sua opinião como pastor, esse modelo de fé é legítimo e atende às necessidades espirituais e devocionais do indivíduo?
A meu ver, a igreja local pode existir em contextos que não exijam bagagens institucionais. A Igreja primitiva se reunia nas sinagogas quando podia, mas também nas casas dos irmãos. A Igreja neotestamentária é aquela em que os crentes têm compromisso com o Evangelho e também uns com os outros, para estudar e seguir os ensinos de Cristo e dos apóstolos, à luz das Escrituras Sagradas. Isso pode ocorrer em residências, salões ou templos. Agora, sua pergunta sinaliza uma situação que me preocupa. As igrejas do Novo Testamento possuíam líderes e características que as igrejas de hoje devem possuir também, como a centralidade de Cristo e a vigilância em relação aos ensinos contrários aos conteúdos ministrados por Jesus e pelos apóstolos. Esse modo de vida se manifestava de muitas maneiras práticas, como a caridade e a pureza, no sentido de viver distintamente da sociedade. Precisamos refletir sobre se o que temos em nosso meio realmente é a fé dos apóstolos e se a temos manifestado em caridade e pureza comportamental. Isso só será possível se o Senhor derramar um verdadeiro avivamento nacional. A igreja é um grupo, mas nem todos os grupos são igrejas.

No momento em que o ateísmo e a rejeição à fé crescem em todo o mundo, inclusive no Brasil, o que se pode esperar para o futuro, em médio prazo, da Igreja Evangélica?
Devemos esperar o aumento do número de pessoas sem religião, além do fortalecimento de outras crenças não cristãs. Por outro lado, a influência do secularismo e do relativismo é tendência global e vai repetir-se aqui. A Igreja Evangélica no Brasil estará envolvida nessa nova realidade. Embora haja desafios, estou esperançoso.

O senhor é missionário internacional da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, organização que já teve forte influência no exterior, inclusive no Brasil. Como é esse trabalho, hoje?
Nos últimos anos, minha junta missionária, junto com muitas outras, tem priorizado o envolvimento com povos não alcançados, em vez de investir no que chamam de campos missionários históricos. É uma visão bastante estreita de missões, e acredito que irá mudar aos poucos. Além disso, há um pensamento geralmente aceito entre os evangélicos norte-americanos de que o Brasil e outros países na América Latina já são bastante evangelizados e poderiam, portanto, andar com suas próprias pernas, sem ajuda de fora. Entretanto, ainda há áreas nas quais obreiros vindos de fora, como eu, podem colaborar, como desenvolvimento de liderança e educação teológica. Posso dizer que tenho tido o privilégio de trabalhar com líderes brasileiros, e o Senhor tem me usado para aperfeiçoar alguns deles. Na Cidade do Cabo [sede do III Congresso Mundial de Evangelização do Movimento Lausanne, em 2010], ouvi muitos relatórios dando conta de que a evangelização tem ido razoavelmente bem em muitas partes do mundo. Porém, as maiores dificuldades, segundo os missionários, é o desenvolvimento de liderança, particularmente na educação teológica dos mesmos e na formação de seu caráter. Vejo essas áreas como o fermento, que somente se manifesta depois de ser amassado e assado no fogo.

Quais devem ser as principais expectativas do obreiro cristão do século 21?
As expectativas dos obreiros de hoje não devem fugir ao padrão bíblico esperado. Penso que Paulo resumiu bem isso na exortação que fez ao seu jovem discípulo Timóteo: "Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, fazendo isso, você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem."

voltar ao topo