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Pastor no tempo presente

Eugene Peterson lembra que a autoridade de um pastor vem de sua imersão na comunidade, do testemunho de que é possível viver a Palavra de Deus.

Em seu livro Um pastor segundo o coração de Deus (Textus, 2000), o professor, poeta e escritor norte-americano Eugene H. Peterson lembrou que, embora os pastores representem a autoridade de Deus, precisam lembrar sempre que a prática da fé requer uma atitude exatamente oposta: o exercício da obediência. Embora muitas atividades no escritório pastoral exijam que usemos de autoridade, no nome de nosso Senhor, nossa identi¬dade cristã consiste em servir.
No caso de Eugene Peterson, servir, durante sua caminhada ministerial, incluiu uma tarefa singular: ajudar pastores na difícil tarefa de pastorear – daí ter sido chamado de "pastor dos pastores". Em seu livro autobiográfico Memórias de um pastor (Mundo Cristão, 2011), Peterson disse ter observado a existência de muita confusão e insatisfação ao seu redor em relação à identidade pastoral. E afirma que não existe um modelo a ser seguido quando se trata de tornar-se um ministro do Evangelho. Ao me tornar um, descobri que se trata mais de um modo de vida com um contexto específico: a vida emocional, familiar, a experiência na fé e aptidões trabalhadas em uma congregação real ou no ambiente em que se vive – a pessoa como ela é e onde vive. Sem copiar. As maneiras em que a vocação pastoral é concebida e se desenvolve são únicas para cada pastor.
Nascido em 1932, no estado americano de Washington, e graduado pelo Seminário Teológico de Nova Iorque e pela Universidade John Hopkins, o Rev. Eugene Peterson fundou em 1962 a Igreja Presbiteriana Cristo Nosso Rei, em Bel Air, Maryland (EUA). A partir de 1991, passou a dedicar mais tempo ao ensino e à literatura, tornando-se, em 1993, docente em Teologia Espiritual no Regent College, no Canadá.
Vivendo hoje em uma casa à beira do lago em Montana, ao lado de sua esposa Janice, com quem teve três filhos (Karen, Eric e Leif), Peterson falou à redação de Leadership Journal (a revista LIDERANÇA HOJE americana) sobre seu chamado pastoral, acerca de autoridade e da função do pastor na igreja.

LIDERANÇA HOJE - O "chamado" é algo que acontece uma só vez, ou algo que se desenvolve ao longo da vida?
Eugene Peterson - Para mim, foi algo que se desenvolveu. Eu tinha 25 anos quando soube que havia um nome para aquilo que me tornaria: "um pastor". É algo diferente para cada um. Algumas pessoas sentem seu chamado desde cedo. Há aqueles que descobrem sua vocação na meia-idade. Não se trata de algo perfeitamente claro. Mas eu creio que Deus usa tudo em nossas vidas – família, experiências passadas, formação – e as usa como parte do Seu chamado. Pode não ser um chamado para pastor, mas acredito que Deus não desperdiça nada.
Sempre pensei que seria professor. E, durante os primeiros anos na igreja, eu agia como um professor, ensinando a verdade às pessoas e compartilhando conhecimento. Finalmente percebi que não é esse o trabalho do pastor. As pessoas vivem vidas complexas e cheias de ambiguidade. Faz parte do meu trabalho entrar nesse universo, encontrar uma linguagem e preservar essa ambiguidade sem abrir mão da verdade.

Como pastor, qual é seu papel fundamental?
Minha função como pastor é mostrar como a Bíblia foi vivida. Claro que é importante mostrar que a Bíblia é verdadeira, mas existem teólogos e apologistas para isso. Apenas aceitei o fato de que ela é verdadeira e não me incomodei muito a respeito disso. Eu precisava mostrar para os fiéis de minha congregação que é possível viver as verdades bíblicas e tentar evitar abstrações sobre doutrinas importantes. Eu queria saber como essas ideias são vividas em todas as circunstâncias da vida das pessoas, no trabalho, na cidade ou em casa. É papel do pastor encarnar o Evangelho. E isso, é claro, só pode ser feito com indivíduos, e não de maneira abstrata. É por isso que, para mim, uma congregação pequena é algo essencial. Isso me permite que eu conheça as pessoas para quem estou pregando e ensinando.

De onde vem a autoridade pastoral?
Bom, certamente não se trata de uma autoridade hierárquica. A autoridade de um pastor vem de sua imersão na comunidade, vem do testemunho de que é possível viver a Palavra de Deus. Essa é nossa função, não apenas pregar, mas viver a verdade, assim como cultivar relacionamentos que tenham integridade. Não se trata de dizer às pessoas o que pensar e fazer, mas de viver a vida cristã junto com elas. Somos participantes naquilo que elas fazem e isso é algo único na missão de um pastor. Precisamos de discernimento ao fazer uso de nossa autoridade, pois se trata de uma posição de poder. Muitas pessoas nos admiram e confiam em nós sem ao menos nos conhecer.
A vida de Cristo é desenvolvida através da comunidade. E se nós, como pastores, não fizermos parte dessa comunidade, estaremos abdicando de nossa autoridade com nossos membros. É um sinal de alerta quando um pastor não deseja estar com os membros de sua igreja. Existem muitos pastores nos Estados Unidos que nunca visitam suas congregações. "Não é minha função", eles dizem. "Isso é função dos diáconos". Essa atitude diz muita coisa. Um pastor que age dessa forma não está vivendo em comunidade. Conheço pastores que não visitam os doentes e os moribundos porque isso tomaria muito de seu tempo. Eles pensam em termos de funções e responsabilidades. Podem até estar desempenhando trabalhos da igreja, mas não estão se comportando como pastores. Isso requer relacionamento interpessoal.

Alguém certa vez observou que o pastor não serve ao rebanho; ele serve a Deus ao guiar o rebanho. Concorda?
Eu discordaria em parte. Acho bastante perigoso quando pastores desenvolvem uma postura de autoridade que diz: "Eu sou o porta-voz de Deus e vocês irão ouvi-lo através de mim". Somos o corpo de Cristo e temos apenas um pastor, que é Jesus. Fazemos isso em uma comunidade, mas não através de uma abordagem de comando. A maneira como entendemos nossa autoridade e as palavras que usamos para transmiti-la devem ser bem pensadas e precisas.

Desde que entrou para o pastorado, como as percepções da autoridade pastoral mudaram?
Uma das mudanças mais devastadoras foi a construção da figura do pastor como alguém que simplesmente lança suas palavras e visões. O pastor foi reduzido a alguém que desempenha um papel. Se as pessoas não conhecem seu pastor, fica fácil colocá-lo em um pedestal e não perceber seu lado humano. Também fica fácil para pastores que não conhecem suas congregações, classificar as pessoas apenas como salvas ou não salvas, envolvidas com a igreja ou não, dizimistas ou não. Essas designações impessoais nos permitem tratar as pessoas não como elas são, mas como categorias sociológicas e psicológicas. O perigo é que nós, pastores, deixamos de ouvir as pessoas porque nos utilizamos dessas categorias ao lidarmos com elas.
Uma palavra que gostaria de eliminar do vocabulário da igreja é "disfuncional". É uma palavra feia. Bicicletas são disfuncionais, não pessoas. A partir do momento que começarmos a usar esse tipo de vocabulário, passamos a treinar nossas mentes a pensar nas pessoas como um problema. Pessoas não são problemas a serem solucionados. São mistérios a serem explorados. Não estou dizendo que não existem problemas. Mas nós não consertamos as coisas. Não somos terapeutas. A maneira como um pastor enfrenta as situações tem muito mais a ver com relacionamento, perdão, graça, cura, compreensão, redenção e paciência. São essas as virtudes que deveríamos estar cultivando.

Os pastores devem ter metas para sua igreja, tais como desejar que ela conheça a Cristo, desenvolva uma fé viva, cresça e compartilhe essa fé?
Sim, essas são metas pertinentes. No entanto, é preciso apresentar essas metas de forma cuidadosa. Trata-se de algo abstrato usado para rotular as pessoas e decidir se elas estão vivendo de acordo ou não? A vida é muito mais complexa do que isso. Sim, eu tenho uma meta. Quero apresentar as pessoas a Jesus. Quero que elas o aceitem. Mas estou disposto a esperar para ver onde ele está operando? Existem pessoas em minha congregação que ainda não aceitaram a Jesus depois de 20 anos. Eu esperei e não as incomodei, mas sabia que elas ainda não tinham tomado essa decisão. Mas é surpreendente o número de pessoas que o aceitaram.
Eu corri em algumas maratonas ao longo dos anos. Quando se concentra demais no objetivo durante uma maratona, tudo pode ir por água abaixo. Você começa a correr rápido demais, e então logo depois se cansa e precisa parar. Para correr bem uma maratona, você precisa tirar a cabeça do objetivo. Você tenta entender seu corpo, o tempo, o treinamento. Esse negócio de ser cristão é como uma maratona. É uma "obediência demorada". Eu digo a outros pastores: "Tenham paciência. Vocês estão com muita pressa".

Qual é o papel que só o Espírito Santo pode realizar? E qual é o papel que Deus pede que os pastores desempenhem nesse processo?
O Espírito Santo é o centro de tudo em termos de comunicação, energia, senso de arrependimento, de amor. Como pastor, desejo estar lá para ajudar, falar na hora certa, orar da maneira correta. Mas não acho que fazemos muito. O que fazemos é esclarecer e às vezes repreender. Não sou contra a repreensão, dizer às pessoas que estão fazendo algo errado e lhes oferecer a direção para agirem corretamente. Mas acredito que somos co-receptores. Fazemos isso juntos.

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