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A última fronteira

Rick Warren, líder da Igreja Saddleback, quer levar o evangelho a 3.400 povos do mundo que não foram alcançados até 2020.

Há dez anos, Rick Warren, pastor da Igreja Saddleback, em Orange County, Califórnia (EUA), publicava Uma vida com propósitos (Editora Vida), obra escrita em sete meses, quando se encontrava em um ano sabático. Mais de 32 milhões de cópias foram vendidas, tornando o livro o maior best-seller de não-ficção em capa dura da história. O sucesso fez de Warren, 59 anos, ministro da Igreja Batista do Sul, uma estrela da mídia global. Tido como o próximo Billy Graham, chegou a ser ridicularizado pela imprensa como antigay, um interlocutor de ditadores e um falso mestre.
Warren, que acaba de republicar seu best-seller (uma versão expandida), lançou uma campanha pública baseada no subtítulo do livro – "O que estou fazendo na Terra?" –, um 'Plano de Paz' de alcance global, um desafio equivalente àquele lançado pelo presidente norte-americano John Kennedy, o qual colocou um homem na Lua em uma década. O foco de Warren está nos 3.400 grupos de não-cristãos ou sem uma Bíblia em sua própria língua. Ele definiu como prazo para atingir essa meta o final de sua última década como pastor sênior da Saddleback: 2020, quando seria jubilado, após 40 anos no púlpito.
Nesta entrevista, concedida a Timothy C. Morgan, vice-editor-chefe da revista Christianity Today, e reproduzida por LIDERANÇA HOJE, Rick Warren, líder de uma igreja de 22 mil membros, falou sobre evangelização e missões.

Era realmente necessário relançar o segundo livro mais traduzido no mundo, ao lado da Bíblia?
Por volta do ano 2000, comecei a passar o tempo com a multidão de 20 e poucos anos. Na época em que lancei o livro, uma menina que tinha 12 anos, agora tem 22. Ela precisa conhecer o propósito de sua vida assim como seus pais fizeram.
O que aprendi nos últimos dez anos foi lendo milhares de cartas. As duas maiores barreiras que impedem as pessoas de cumprirem seus propósitos são a inveja e querer agradar as pessoas. A inveja é a idéia de que devo ser como você para ser feliz. Se eu estou invejando você, então eu vou perder o propósito de Deus para a minha vida. Nós vivemos em uma cultura competitiva, onde a inveja é o esporte. É uma armadilha.
A outra barreira é querer agradar as pessoas, é achar que devo ser aprovado pelo outro para ser feliz. Tenho cartas de pessoas que disseram: "Eu sei o que Deus quer que eu faça, o que eu deveria estar fazendo com a minha vida, mas o meu marido não aprovaria – minha esposa não aprovaria, meus pais não aprovariam..." O medo da desaprovação e a necessidade de agradar as pessoas são barreiras para viver o seu propósito.
Quando escrevi Uma vida com propósitos, não tinha absolutamente nenhuma idéia de como, muitas vezes, seria testado pessoalmente pela primeira frase do livro: A questão não é você. É realmente tudo sobre Deus, e seu objetivo é muito maior do que a sua realização pessoal. Não tinha idéia de que essa sentença me assombraria diariamente. As pessoas querem colocá-lo em um pedestal ou desejam tirá-lo de lá, e os dois lugares não são onde você deveria estar.
Resumi minha vida assim: um grande compromisso com o Grande Mandamento e a Grande Comissão dará origem a um grande cristão. Fará crescer uma grande igreja, um grande país, uma grande empresa. Mas, principalmente, fará crescer um grande cristão.

Mais recursos são gastos na evangelização nos Estados Unidos do que em qualquer outra nação. No entanto, pesquisas mostram que o país está se tornando menos cristão. Qual a sua opinião a esse respeito?
O cristianismo cultural está morrendo. O cristianismo não é genuíno. O número de cristãos culturais está diminuindo, porque nunca foram realmente cristãos. Eles não precisam mais fingir indo à igreja. Não confio em todas as pesquisas que saem lá fora. A revista Newsweek fez uma matéria de capa sobre o declínio da América cristã baseada em uma pesquisa do instituto Pew Forum on Religion and Public Life, segundo a qual o número de protestantes caiu vertiginosamente. Isso é um termo antigo. É como dizer que sou um peregrino. Ninguém mais diz ser um peregrino ou um puritano. Assim, os números de peregrinos e puritanos caíram vertiginosamente na América! Claro que o protestantismo caiu: as únicas pessoas que ainda podem ser chamadas de protestantes são aqueles das igrejas liberais – os que mais morreram.

Pastores em todas as áreas parecem muito menos influentes na cultura do que eram há uma geração. O que aconteceu?
Minha geração se apaixonou pelo paraeclesiástico. A minha geração e a geração anterior à minha construíram todas as grandes organizações eclesiásticas – Focus on the Family, Associação Evangelística Billy Graham, Wycliffe, Campus Crusade, InterVarsity, Vida Jovem, Mocidade para Cristo, e assim por diante. A razão de a igreja não ter um impacto maior se deve ao fato de os cérebros mais inteligentes e aqueles com mais dinheiro estarem fora da igreja. Se você vai a uma conferência de missões em qualquer faculdade cristã, observe: não é organizada por uma igreja local – tudo será 100% paraeclesiástico.

A Igreja Saddleback está começando a alcançar 12 cidades do mundo. Algumas destas cidades – Londres, Hong Kong, e Amã, na Jordânia, tiveram igrejas durante séculos. Então, qual é a estratégia?
Nenhuma igreja local, incluindo a Saddleback, é feita para durar para sempre. Cada igreja é um organismo vivo. O corpo local tem um ciclo de nascimento, crescimento, maturidade, planalto, declínio e morte. Novas igrejas precisam nascer. Não estamos indo para essas cidades para substituir as igrejas que estão lá. Estamos indo para oferecer recursos às igrejas que estão lá. Vamos construir uma base em diferentes lugares ao redor do mundo, para que possamos ajudar com recursos e treinar as igrejas em suas áreas, sem que tenham que vir para os EUA. Usamos duas metáforas: o acampamento-base do monte Everest e a agência espacial norte-americana NASA. Em 1963, quando John Kennedy anunciou Nós estamos indo para a Lua, era fisicamente e tecnicamente impossível fazê-lo. Eles dividiram aquele esforço em três programas (Mercurio, Gemini e Apollo).
Nós adotamos a mesma progressão – Mercurio, Gemini e Apollo – e nosso "ir à Lua" é a meta de atingir os 3.400 grupos de pessoas não alcançadas, que estão em lugares nos quais menos de 2% da população é cristã. Onde não há Bíblia, nenhuma igreja, nenhum cristão.
Esta é a fronteira final. O livro do Apocalipse diz que ao redor do trono nos céus haverá pessoas de todas as línguas, de todas as nações, de todas as tribos. No entanto, ainda há 3.400 tribos não-alcançadas, que são muito pequenas. Nenhuma delas tem mais de 100 mil pessoas.
Os primeiros quatro anos do 'Plano de Paz' foi o programa Mercúrio. Enviamos 4.400 membros de nossa igreja para o exterior. A idéia era indagar: "Pessoas comuns podem sair e plantar igrejas, equipar líderes, ajudar os pobres, cuidar de doentes, e educar a próxima geração?"
Para o programa Gemini, o objetivo era perguntar o seguinte: "Podemos praticar todas as coisas que precisamos fazer para ir à Lua?" Nós estabelecemos uma meta de que, até o final de 2010, Saddleback seria a primeira igreja local a ir a todas as nações. Há 196 nações do mundo. Em 18 de novembro de 2010, enviamos nossa equipe para Saint Kitts, a nação 196. Eu mandei 14.869 membros de nossa igreja na missão Gemini. Aprendemos acerca do que chamamos de killer apps (aplicativos necessários). Essas aplicações podem ajudar os pobres? Podem cuidar dos doentes? Ajudam na plantação de igrejas?
No programa Apollo, parte da missão em que estamos indo para a Lua, estamos nos certificando de que teremos uma igreja, uma Bíblia (ou pelo menos parte das Escrituras traduzidas) e um cristão em cada um desses 3.400 grupos de pessoas não-alcançadas.

E quanto à metáfora do monte Everest?
Você não pode escalar o monte Everest em um dia. Você tem de subir várias centenas de metros e acampar em uma base, de modo que, se você estiver em apuros, sua equipe terá um lugar onde poderá se reagrupar. Comecei a pensar que é necessário usar algumas igrejas como acampamentos-base, fortes e estáveis, em todo o mundo, de maneira que as equipes que deslocadas para essas áreas tenham um lugar de referência. Assim, se precisarem de ajuda, não precisarão retornar aos Estados Unidos para obter socorro.
Trabalhando em harmonia com juntas de missão, foram selecionadas as 12 cidades mais próximas das 3.400 tribos. Por exemplo, sabemos que 400 tribos não-alcançadas dessa lista estão no Sudão. Mas não há nenhum lugar seguro no Sudão onde se possa construir uma base – por isso, nosso 'acampamento' fica em Amã, na Jordânia. O mesmo está sendo feito em Moscou, de onde enviaremos equipes para evangelizar grupos não-alcançados no Cazaquistão e no Uzbequistão.

Há um novo debate entre os especialistas sobre a influência da religião em política externa. Alguns vêem a religião como parte do problema. Como você analisa essa questão?
Há uma raiz religiosa para todos os problemas do planeta. Pobreza tem uma raiz religiosa. Conflito tem uma raiz religiosa. Doenças também. Todos estes problemas envolvem comportamento e comportamento envolve religião.
Um dos problemas que tivemos na política externa norte-americana foi a má vontade em dar nome à atual ideologia adversária. Durante a Guerra Fria, houve claramente duas ideologias: comunismo e capitalismo. Hoje, há uma ala radical do Islã que é um claro inimigo ideológico dos Estados Unidos, e ninguém quer dizer isso. Então, eles falam sobre uma "guerra contra o terrorismo". Você não pode vencer uma guerra contra o terrorismo, porque este é uma ferramenta, um método. Não temos uma guerra contra um método. Há uma guerra com uma ideologia que pretende destruir tanto Israel como os Estados Unidos e a cultura ocidental.
A crença desses radicais islâmicos não é a mesma do típico muçulmano. Os pontos de vista dos radicais islâmicos não representam a totalidade do Islã mais do que a Ku Klux Klan representa o cristianismo.

Qual é a estratégia ideal para a igreja?
Trabalhar com os muçulmanos moderados. Esta é a idéia do nosso 'Plano de Paz': promovendo a reconciliação para encontrar um homem de paz. Encontrei homens de paz que não consideram o que creio acerca das Escrituras e, certamente, não são cristãos, mas nós podemos trabalhar juntos. O modelo de reconciliação é importante.

Reconciliação é essencial, mas o que dizer da perseguição religiosa? A Igreja Saddleback tem sido criticada por pessoas como o deputado republicano Frank Wolf, as quais dizem que sua igreja mantém silêncio acerca dos cristãos que estão sofrendo.
Eu vi isso. Foi hilário. Escrevi uma nota para ele: "Frank, do que você está falando?" O cara que estava à frente da Missão Portas Abertas é um ex-membro da direção de minha igreja. Organizamos três fóruns civis para debater o problema da perseguição. Estamos nos preparando para fazer outro.

Estima-se que dez mil baby boomers (filhos da Segunda Guerra Mundial) completam 65 anos todos os dias. Quem fará o seu trabalho, quando você se aposentar?
Um ano atrás, começamos nossos planos Calebe e Timóteo. Quando iniciei a Igreja de Saddleback, em 1980, anunciei que daria 40 anos de minha vida para a igreja, para então entregá-la a uma liderança mais jovem. Aos 65 anos, ainda terei mais energia que qualquer jovem, mas os membros da igreja precisam de um novo rosto. Tenho mais sete anos em Saddleback. Isso não é nenhum segredo.
Não administro mais a Saddleback. Ela é gerenciada pela próxima geração. A geração Calebe é aquela em que todo mundo tem mais de 40 anos de idade. A geração Timóteo inclui aqueles com menos de 40 anos. Tenho a intenção de mobilizar a geração Calebe, que se aposenta nos próximos dez anos, para trabalhar para a Grande Comissão. Eu digo o seguinte: "Você acha que irá para casa e vai jogar golfe? Nenhuma chance!"

 

 

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