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Hora de falar sério

Conhecido por suas pregações engraçadas, o pastor Cláudio Duarte se define como conservador


Os vídeos do pastor Cláudio Duarte estão bombando na internet. Digite o seu nome e logo aparecerão dezenas de gravações, algumas com títulos bem sugestivos: Homem banana e mulher abacaxi, Eu não desisto nunca ou Não deixe o seu coração azedar, por exemplo.Também estão lá os vídeos de suas entrevistas a programas populares na TV, como o Agora é tarde, da Bandeirantes, e o Programa do Ratinho. Mas quem é esse pastor que tem conquistado tanta visibilidade dentro e fora das igrejas? Bem, ele tem 45 anos, é casado, tem dois filhos e pastoreia a Igreja Batista Monte Horebe, na Barra da Tijuca, no Rio. Seu negócio é fazer graça de coisas sérias, como a Palavra de Deus, a vida cristã, família e sexualidade. Claro, tudo de maneira irreverente, mas sem perder a reverência ao Senhor.
"O humor ajuda a tratar de assuntos delicados. É bom rir de si mesmo", diz Cláudio. Um dos temas preferidos de suas falas é o sexo. Sua agenda está carregada de eventos e palestras nas quais fala para casais, estimulando-os, através de tiradas engraçadas, a conversar sobre o assunto, procurar ajuda, se necessário, e viver bem. Não apenas nesta área – "A Bíblia diz que podemos comer do melhor da terra. A graça da vida está justamente em viver bem", defende. Nesta conversa com CRISTIANISMO HOJE, o pastor do stand-up, como tem sido chamado, aborda assuntos não tão engraçados na certeza de que a verdadeira graça, aquela de Deus, é a melhor de todas.

CRISTIANISMO HOJE – Qual é a graça da vida cristã?

CLÁUDIO DUARTE – A graça da vida cristã está relacionada a viver muito bem aqui nesta vida. Todos os ensinos e informações bíblicas têm por objetivo criar qualidade de vida, fazendo o ser humano viver bem consigo mesmo, com o próximo e com Deus. A graça de ser crente é a graça de ter a Bíblia como fundamento de fé e prática. A Palavra de Deus diz que estamos aqui para provar do melhor desta terra. Por mais que as pessoas não gostem da literatura bíblica, elas não podem argumentar que o que a Bíblia proíbe seja bom e que o que ela aprova seja ruim. Isso se aplica a todas as áreas da vida.

Como o senhor começou a usar o humor em suas mensagens?

Isso apareceu na Escola Bíblica dominical na Igreja Metodista Wesleyana em Santa Cruz da Serra, na Baixada Fluminense, onde fui membro durante 14 anos. Não foi algo pensado – ou seja, eu não decidi, simplesmente, pregar e falar de maneira engraçada. Aliás, quando eu era mais novo, nunca fui daqueles de fazer piada na escola, nada disso. Mas, como eu lidava com jovens na igreja, e ambiente de jovem sempre tem aquela descontração, percebi que usar piadas ajudava a transmitir os conteúdos. Depois, acabei incorporando isso à minha maneira de pregar. O humor é muito útil para tornar os assuntos mais acessíveis às pessoas, inclusive na igreja. Ele quebra o gelo, deixa as pessoas mais à vontade para ouvir as verdades da Bíblia.

E qual a diferença entre ser engraçado e ser engraçadinho?

Esse, talvez, seja o grande equilíbrio do negócio. Há uma linha muito tênue entre a brincadeira, o humor em si, e o exagero. Eu já me peguei ultrapassado essa barreira. Aí, é um negócio complicado – se falou alguma besteira, já era, não adianta consertar, senão fica pior a emenda que o soneto. Eu vou muito pelo retorno do público. Vou medindo a aceitação pelas palmas, pelas risadas. Existem igrejas em que você pode usar uma linguagem mais aberta, engraçada; outras, não. Como pregador itinerante, eu tenho de respeitar isso.

O senhor cobra cachê para pregar?

Não. Não cobro nada para pregar em lugar nenhum. Hoje, vivo da venda de meus DVDs e do aluguel de alguns imóveis que possuo. As pessoas que me recebem ficam à vontade quanto a isso. Quem pode, dá ofertas. Funciona assim. Não uso isso como base para fazer minha agenda. Eu tive uma origem muito pobre. Meus pais são separados e fui criado por parentes numa casa que não tinha luz, nem banheiro. Nunca passei fome, mas a situação era difícil. Então, estou acostumado à simplicidade.

Quando o senhor começou a falar de sexualidade em suas mensagens e palestras?

Nunca planejei me tornar um conferencista na área de sexualidade. Isso também surgiu meio por acaso. Há uns sete anos, fui convidado para falar num congresso que tinha esse tema. Fui lá e falei o que sabia, de acordo com a Palavra de Deus, minha própria experiência conjugal e com tudo que tenho visto nesses anos todos lidando com pessoas. O pessoal gostou e fui chamado outras vezes. Isso acabou me projetando no meio batista, que é minha origem denominacional. Aí, começaram a gravar esses eventos e logo havia vídeos caindo na internet, essas coisas.

Quais são as principais queixas dos casais crentes?

Costumo dizer que o que estraga um casamento, nesta ordem, é a incompatibilidade de gênio, o dinheiro, o sexo e a intromissão de parentes. As pessoas me mandam muitos emails e cartas falando não somente de sexualidade. As pessoas falam pouco de sexo, ou porque têm vergonha, ou porque não encontram espaços para tratar desse assunto. É muita dificuldade. Sou procurado por gente em busca de felicidade, porque estão infelizes com a falta de dinheiro, com a falta de sexo, com problemas com os filhos. É isso que faz as pessoas me procurarem. Nem todo pastor tem habilidade para tratar desse assunto. E eu as faço rir de si mesmas, e isso as faz se sentirem bem. Homem abomina falar de sexo – então, nas palestras para casais, eu falo de impotência e ejaculação precoce de maneira descontraída. Aí, o sujeito ri, olha para o lado, finge que não é com ele. Mas eu sempre espero que, depois, ele e a mulher se motivem para buscar tratamento médico ou psicológico, se for o caso, ou aconselhamento.

O fato de não ter formação específica na área de psicologia e comportamento humano não compromete o seu trabalho?

Olha, eu faço as coisas observando as respostas que as pessoas me dão. No dia em que eu encontrar alguém que me disser que seguiu uma orientação ou sugestão minha, nas palestras ou pelo DVD, e isso acabou com seu casamento ou piorou as coisas dentro de casa, eu paro de falar sobre isso. Como todas as respostas que ouço até agora, depois desses anos todos, são positivas, acho que temos colaborado com muita gente. Claro que pouca gente vem dar retorno. É mais ou menos como a história dos dez leprosos – só um voltou. Mas é bom sinal. Quando as coisas dão certo, poucos vêm para falar. Agora, se desse errado, todo mundo vinha...

Se a incompatibilidade de gênios é o principal problema, como evitar que ela se estabeleça?

Bem, os menores índices de divórcio, segundo as pesquisas, acontecem entre gente que se casou com 28 anos ou mais. É que essas pessoas seriam melhor resolvidas, tanto em termos financeiros como pessoais. São mais maduras, e, em princípio, já encaminhadas na vida. Então, já começam o casamento com melhores condições. Geralmente, têm o seu cantinho para morar e uma renda que lhes permite tocar a vida. Agora, se o casalzinho tem que ficar junto cedo demais – como quando vem um filho inesperado no namoro, por exemplo –, vai ter que morar com os pais de um ou de outro, num quarto, sem privacidade. Aí, é quase certo que virão os problemas. Eu diria que a melhor maneira é agir antes do casamento. Vamos montar uma estrutura, um lar, mesmo que modesto, porque é até melhor começar com pouco e ir conquistando tudo junto, o carro, o apartamento financiado, essas coisas. s, essas coisa. Criar essa estrutura emocional e financeira vai ajudar muito a prevenir esse problema de incompatibilidade.

E o que mais separa os casais, hoje?

As pequenas coisas. Eu nunca vi um casal me dizer que vai se separar porque apareceu um câncer, ou porque o filho foi assassinado. São casos extremos que deixam as pessoas descontroladas, mas acabam unindo ainda mais marido e mulher. Agora, a toalha molhada na cama, o tubo de pasta de dentes apertado no meio, isso desgasta. As pessoas vêm reclamar muito dessas coisinhas.

Mesmo os crentes?

Ô. Mesmo os cascudos! O que demonstra que a crise está chegando é a falta de comunicação. Com o tempo, essas coisinhas vão se acumulando, ficam grandes, e quando o casal se dá conta, já nem se falam mais. A comunicação fica truncada, negativa, é feita com ironias, até o silêncio total. Se acertar a comunicação, pronto, as coisas se acertam. Uma boa comunicação entre o casal acerta até o sexo.

E por que esse assunto é tão delicado de tratar, mesmo entre quatro paredes?

Porque as pessoas têm bloqueios tremendos. Não sei muito a origem disso, mas todo mundo tem essa dificuldade de falar. Por que o marido não diz à mulher que gostaria de tentar em outra posição, se ele deseja isso? E porque a mulher não diz: "Amor, você poderia fazer isso comigo, me tocar desse jeito". Eu luto para que isso aconteça. Tento estimular a intimidade dos casais.

O senhor se recusa a tratar determinados temas?

Depende do ambiente. Se for em um culto aberto a todos, não vou falar certas coisas que podem ser inadequadas para uma criança, para uma pessoa mais idosa. Mas, nas palestras, costumo responder ao que me é perguntado.

No Programa do Ratinho, o senhor foi perguntado sobre sexo oral e disse que preferia não responder. Por quê?

É que eu estava em um programa de rede nacional, em horário nobre, com todo tipo de gente assistindo. Fiquei preocupado de o Ratinho me interromper com outro assunto ou não deixar eu terminar de falar. Aí, alguma coisa poderia ficar no ar.

Então, eu vou deixar o senhor terminar. Pode falar sobre isso.

[Risos]. Vamos lá. Sexo oral. A boca não foi feita para recebe sêmen, todo mundo sabe disso. Não haja nada bíblico que proíba. Alguns amigos pastores até dizem que, entre as tais quatro paredes, vale tudo, desde que haja conivência. Eles até consideram que mesmo o sexo anal, se praticado em comum acordo entre marido e mulher, não pode ser considerado sodomia. Eu não partilho dessa opinião. E nenhum médico sério dirá que sexo anal é saudável. Agora, cada um faz o que quiser. Tudo bem. Já o sexo oral é menos agressivo, e eu vejo que ele pode ser visto como uma carícia, uma modalidade diferente; e, se o casal quiser, não há nada que impeça. No sexo, vale tudo, desde que não fira a Palavra de Deus e a vontade do cônjuge. Senão, é violência, é pecado.

Por falar em pecado, acha que sexo antes do casamento é pecado?
Sim.

Mas esse papo cola entre a moçada?

Se cola, não sei. Só sei que não dá para negociar. Como vamos administrar essa situação? Hoje, já tem até camisinha teen, em menor tamanho, para se ajustar ao pênis de adolescentes. Na minha visão, sexo antes do casamento é imoralidade. A Bíblia diz que, quando você se relaciona sexualmente com uma pessoa, torna-se um com ela. Não tenho como concordar com isso. A coisa está ficando esquisita. Já tem crente dizendo que o casal pode fazer sexo grupal, desde que os dois cônjuges estejam presentes e um autorize o outro a participar. Outra coisa errada é essa história de fazer sexo antes de casar para saber como é, se vai dar certo com aquela pessoa depois. Que negócio é esse de experimentar? Não se está lidando com um produto, e sim, com uma pessoa, que tem sentimentos. "Ah, mas se não fizer antes, dá errado depois". Mas o que eu vejo é pessoas que fizeram sexo antes de casar se separando, depois, justamente por causa disso. Aí, eu pergunto: "Mas vocês não fizeram antes para saber?" Aí, dizem que esfriou, que as coisas ficaram sem graça e não dá mais.

Ouvindo-o falar assim, fica a impressão de que o senhor, apesar de brincar muito, é bem conservador. Considera-se assim?

É, as pessoas acham que, por ser bem humorado nas minhas falas, eu sou liberal. Mas eu sou conservador, de formação batista. Sou firme nos meus posicionamentos, não concordo com pecado.

Na sua vida pessoal, as coisas funcionam como o senhor defende em público?

Graças a Deus, conseguimos desenvolver um bom nível de intimidade no nosso casamento. É até comum que, quando Jane Mary me acompanha, as pessoas venham perguntar a ela se eu vivo o que falo, se eu sou assim mesmo, se dou atenção, se valorizo. Querem investigar, e eu acho bom isso.

E ela não reclama de ver algumas coisas particulares expostas?

Ah, mas tudo é combinado antes. Ela sabe o que vou falar. E, se por acaso, eu resolver tocar em algum ponto novo, antes tenho o cuidado de perguntar se, para ela, está tudo bem. Se ela disse não, é não.

O senhor tem sido entrevistado em programas seculares. Seus vídeos são muito acessados na internet e o senhor percorre igrejas de todo o país. Está com a agenda tão lotada que tivemos dificuldades para agendar esta entrevista. A superexposição não é perigosa?

Superexposição requer, é claro, cuidados. Hoje, devido a esse excesso de exposição, recebo convites de todos os lados. Uma manhã, estou em Santa Catarina; à noite, em Pernambuco. Como eu não tive, por assim dizer, uma escola, alguém que me orientasse, isso acabou me levando a um ativismo que considero ruim. Você abre muito o leque, e nem sempre Deus quer que eu vá a todos os lugares que as pessoas me convidam para ir. A coisa fica pesada.

Se o seu chamado é pastoral, o senhor não deveria estar cuidando de ovelhas?

Sim. Frustra um pouco a gente não ser pastor de ovelha. Os irmãos daqui da igreja se queixam porque eu não tenho muito tempo para eles. Quando eu vim para cá, meu acordo com o pastor Paulo Roberto Ramos, que é o presidente deste ministério, era para cobrir uma ausência pastoral por seis meses. Esse tempo já passou, mas ainda estou aqui. Não sei o que Deus tem para mim neste sentido, mas uma coisa já decidi: para o ano que vem, vou mudar minha postura, dedicando-me à igreja local e à família. Claro que eu preciso manter o ministério itinerante, como conferencista, para ter recursos e levar à frente alguns projetos, inclusive um trabalho com jovens e outro com casais, numa propriedade que compramos. Pretendo ali construir suítes e promover encontros, com a ajuda de outros pastores, visando a ajudar pessoas em seu relacionamento conjugal.

Outros pastores de grande presença midiática acabaram erigindo ministérios pessoais que os tornaram inacessíveis para as pessoas...

Eu não pretendo seguir esse caminho, não. Não tenho nenhuma preocupação em criar um império, nada nessa linha. Tanto que, aqui na igreja, se as pessoas que atendem ao apelo e recebem a Jesus como Salvador moram longe, eu as aconselho a procurar uma igreja onde se sintam bem e onde não se negocia com o pecado.

Tem havido um vazio de pastoreio?

Realmente, as pessoas reclamam muito por isso, e eu estou inserido nessas reclamações. Por isso, estou mudando. É preciso ter tempo para ouvir as pessoas. Muitas vezes, não sou nem procurado para oração ou aquele aconselhamento, no sentido tradicional: as pessoas querem é desabafar suas angústias e falar, falar, falar... Então, o que os pastores precisam é estar dispostos, ter tempo para ouvir, ouvir, ouvir... E, no fim, às vezes só dá mesmo para expor aqueles assuntos perante Deus. Mas a liderança tem que formar uma estrutura para receber esse povo. À medida que a membresia for aumentando, é preciso criar sistemas para que esses membros sejam atendidos nas suas demandas por aconselhamento e atenção espiritual. É por isso que eu gosto do modelo celular. Esse sistema possibilita um atendimento descentralizado aos fiéis. Geralmente, há um líder de célula que acompanha mais de perto algumas pessoas que se reúnem com ele. Eu acho isso bom e tenho visto funcionar bem.

Então, por que as igrejas não seguem esse caminho da descentralização?

Primeiro, porque nós entramos numa linha de raciocínio pela qual a igreja abençoada é aquela que prospera, fica grande. As perguntas que os pastores fazem uns aos outros são as seguintes: "Quantos membros sua igreja tem?"; e "Qual a arrecadação da sua igreja?" É esse tipo de conversa. E todo mundo que é pequeno está querendo crescer – mas, muitas vezes, cresce sem ter ferramentas, sem estrutura de pessoal para dar assistência aos membros que vão chegando. Aí, começam os problemas. Acho que falta conscientização das reais necessidades do rebanho. Ainda existe muito modelo de igreja pesado. O que acontece é que as lideranças têm um certo medo de descentralizar, de delegar poder. Isso porque o auxiliar de hoje pode querer seguir seu próprio caminho amanhã, levando consigo uma parte dos membros. Então, o camarada retém o poder, por medo de criar um concorrente. Assim, perde-se a visão do Reino. Mas nem todo mundo, felizmente, pensa dessa forma.

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