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Espiritualidade em versos: uma entrevista exclusiva com Adélia Prado

Considerada a maior poetisa do país, ela fala sobre a importância de Cristo em sua vida e obra.

Para quem já disse que Deus mora nela como sua melhor casa, Adélia Prado não chega a surpreender quando faz da fé e da espiritualidade temas recorrentes em sua poesia, mesmo nestes conturbados anos de pós-modernidade e secularismo. Às vésperas de completar 80 anos, esta mineira de Divinópolis continua fiel ao lugar onde nasceu e ao estilo que adotou como seu. Por isso mesmo, boa parte do Brasil literário festeja Adélia como o que há de melhor na poesia brasileira do último meio século. Desde Bagagem, seu primeiro livro, lançado em 1976 com o beneplácito de ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado encanta várias fatias de público com seus poemas suaves, nos quais a vida, a criação e o Criador parecem visceralmente ligados, até mesmo para quem não crê. 

Com duas dezenas de livros publicados, entre poesia, prosa e antologias, Adélia, que foi professora por muitos anos e é formada em Filosofia, já inscreveu seu nome entre os grandes da literatura nacional. Apenas isso já seria predicado suficiente para chamar a atenção para esta senhora sensível e espiritualizada, uma mãe e avó de cabelos brancos e fala mansa que. Admiradora confessa de Jesus (“Inesgotável mistério e maravilha. Sua encarnação, morte e ressurreição são o sustento, a alegria, razão e o sentido de tudo”), o que ela diz dá o que pensar. A iniciativa de entrevistar uma escritora de fé católica não foi por acaso. Diferenças doutrinárias à parte, Adélia, que vê os santos como um exemplo de quem viveu o Evangelho em seu ensinamento máximo, “o amor”, diz que o caminho é a Palavra de Deus em Cristo. Em Miserere, seu último livro, lançado pela Record – editora que intermediou esta entrevista exclusiva –, ela expõe, em 38 poemas, alguns de seus diálogos com Deus. E clama, a plenos pulmões: “Tende piedade de nós”, significado da expressão latina que dá nome à obra. “Minha esperança vem da graça de ser cristã. Perder a esperança é perder tudo, é desistir.”

CRISTIANISMO HOJE – Você diz que a experiência poética é sempre religiosa. Escrever poesia é um ato de devoção a Deus, ainda que o poema não seja diretamente ligado à religiosidade?

ADÉLIA PRADO – A arte, querendo ou não, é religiosa em sua natureza íntima, fale do erótico, de botinas velhas – lembro-me de Van Gogh – ou de Deus.

Para você, o que significa servir a Deus? Você considera uma missionária da literatura?

A literatura, não tendo missão – aliás, arte nenhuma tem –, não pode me fazer uma missionária. Servir a Deus, para mim, é aceitar minha precaríssima condição humana “fazendo as obras da fé”. No meu caso, isso inclui não fugir à vocação da poesia. Toda poesia narra e canta a glória de Deus nas criaturas, na obra de suas mãos.

Como o trabalho de Adélia Prado se conecta com a religiosidade?

Diuturnamente, sou convidada ao seu mistério como um boi que o carreiro acorda com o seu aguilhão. É ótimo que ele não nos dê sossego. Ele pede amor e atenção. Imagine o Criador “precisando” da criatura! Que não tenhamos mesmo sossego e acordemos do sono para a luz da consciência.

Que tipo de sentimento mais a motiva a escrever? A alegria, a dor, a fé ou o amor?

Tudo é matéria de poesia. Tudo serve à arte. A arte não é assunto nem enredo: é forma.

Desde Bagagem, lançado em 1976, quais são seus livros favoritos no que se refere a essa experiência espiritual de escrever?

Talvez mais condizentes seriam O pelicano, Oráculos de maio e Miserere; o romance O homem da mão seca e a novela Quero minha mãe. Mas, desde Bagagem, na poesia e na prosa, o religioso e a questão espiritual se encontram inapelavelmente – não como meta da escrita, mas como constitutivo da minha experiência humana.

Em suas orações, o que você costuma dizer ao Senhor?

A resposta será sempre de ordem muito pessoal. Posso dizer que sempre peço miserere. Sou muito “pidona”.

Este é, aliás, o título de seu último livro pela Record. Miserere traz, em poemas, seus diálogos com Deus. A Bíblia nos considera miseráveis pecadores, carentes da graça do Senhor, e que somente através de Cristo, o Filho de Deus, é possível obter a salvação. Quem é Jesus em sua vida?

Jesus Cristo é o mais espantoso acontecimento que é possível imaginar. Inesgotável mistério e maravilha. Um homem que se apresenta como Deus! Sua encarnação, morte e ressurreição são o sustento, a alegria, razão e o sentido de tudo. O amor na sua plenitude, o homem por excelência. Só a poesia pode chegar um pouquinho mais perto – a poesia e o amor.

Drummond, Clarice Lispector e Guimarães Rosa são algumas das suas influências no início de carreira. Quais autores você considera essenciais, dentre os contemporâneos?

Essenciais serão sempre os clássicos, por sua atemporalidade. Não sendo obra datada, servem a leitores de todos os tempos. Não tendo conhecimento suficiente sobre autores contemporâneos, deixo a quem pode fazê-lo a difícil tarefa de nomeá-los.

Muitos escritores dizem que o advento da internet, com suas múltiplas possibilidades de comunicação instantânea, empobrece a linguagem e os relacionamentos, sobretudo nas novas gerações. Você concorda com isso?

Por enquanto, ainda há um grande deslumbramento com a internet e seus poderes. Acontecem realmente os empobrecimentos e uma brutalização nas relações ao vivo. Conto com o enfado, o cansaço, a esterilidade disso tudo até que a maquininha mágica fique apenas a real serviço do humano, como uma boa máquina de escrever. Até lá, que cuidemos de nós e de nossos jovens para que saibamos apagar televisão, internet, rádio e o que quer que seja quando estiverem postando lixo dentro de nossas cabeças.

O fato de basear grande parte de sua obra na existência e relevância de Deus torna seu trabalho, de alguma forma, questionado nos dias de hoje?

A questão religiosa incomoda sempre porque enfrentá-la leva ao compromisso. Apesar da enorme carência de significação e sentido, é mais fácil descartar o espiritual que abraçar os encargos da fé. Estamos em tempos difíceis e perigosos, vivendo como se não fôssemos morrer – ou como os pagãos, que dizem “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”.

Aqueles que se dizem religiosos também agem assim?

Muitos religiosos hoje, de todas as confissões, parecem mais “funcionários do sagrado” que ministros de Deus, tal a burocracia, a pressa, a ansiedade, o distanciamento que os envolve e os afasta dos fiéis. Perdem-se entre citações bíblicas, números de telefone e boletos bancários que lhes garantam prosperidade e sucesso. Camisetas, CDs, DVDs, água engarrafada do Jordão, amuletos mágicos, a paz que obterá se ligar tal número.

Como pudemos chegar a esse ponto?

Os vendilhões perderam a compostura; estão dentro do templo com a bíblia ideológica a seu favor. Chegamos a isso porque não vemos mais o Cordeiro degolado sobre a mesa, o sangue sobre as toalhas. Em seu tempo, Jesus já avisava: “O Pai busca adoradores em espírito e em verdade”, numa igreja interior, no coração de cada homem, que cumprirá toda a lei e os profetas se amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Mas, ao que parece, temos horror à simplicidade.

E o que perdemos com isso?

Perdemos os valores da humanização, que incluem desde os espirituais até os mais banais e necessários, como “com licença”, “muito obrigado”, “desculpe”, “por favor”. Morremos da pressa e da gula de aproveitar, aproveitar, levar vantagem em tudo. Precisamos voltar ao Evangelho com real atenção para seu ensinamento, onde o amor é princípio, meio e fim; no qual a paixão de Cristo deve ser vivida como a morte do egoísmo, a maior barreira para a paz, seja familiar ou entre os povos.

Como você vive e pratica sua espiritualidade? O fato de ser uma celebridade restringe essa prática?

Nada restringe o que considero essencial à vivência da fé.

A igreja foi vista, durante séculos, como o centro da experiência espiritual. Ultimamente, tanto católicos como evangélicos têm criticado a institucionalização da religião. Essa vivência religiosa fora da instituição, na sua opinião, é legítima?

Sim, quando estes que parecem infiéis aos nossos olhos vivem o que Jesus ensinou, quando se tornam adoradores em espírito e em verdade. Há muitos santos nos rodeando e nem suspeitamos – gente que não precisa mais da instituição.

A veneração aos santos, sobretudo a Maria, é o centro da discórdia entre protestantes e católicos. Como fiel católica, de que maneira você enxerga esse antagonismo?

Maria é a face feminina de Deus. Maria é a integração do feminino no drama da salvação. É interessantemente estranho que a mãe do Salvador seja excluída com tanta hostilidade onde o Salvador é acolhido. Deus a escolhe e nós a ignoramos? O antagonismo é uma questão de modismo, orgulho, poder e preconceito. O melhor é ler a obra insuspeita de Jung – um protestante – para se informar sobre o assunto e poder convidar a virgem Maria a um lugar na mesa. Todos, até o homem-Deus Jesus, precisaram de mãe. Os santos são companheiros de viagem, amigos que “enxergaram” antes e melhor que nós a viver o Evangelho e seu mandamento máximo, o amor. E acho que a surrada história de que adoramos imagem já acabou. Devemos, católicos e protestantes, viver e discutir como gente grande e inteligente. Graças a Deus, estamos ficando mais ecumênicos, mais tolerantes, buscando o único rebanho para o único pastor.

Qual é o caminho para a tão sonhada paz interior? Você a tem encontrado em sua vida?

Vivo buscando. Tenho feito progressos. O caminho? A palavra de Deus em Cristo, que trouxe e traz a paz, mas também a espada.

Como brasileira, você consegue ter alguma esperança no futuro do país?

Minha esperança vem da graça de ser cristã. Perder a esperança é perder tudo, é desistir.

Se o sofrimento é inevitável, como atravessá-lo sem perder a fé e, ao mesmo tempo, enxergando nele algum sentido?

Aceitando-o como caminho para uma nova consciência – como fez Jó, ainda que, no começo, tenha esperneado bastante. Sem sofrimento, ninguém chega à luz. Ele faz parte do plano divino para nós. Assim acredito.

Para você, o que vem depois da morte?

Vou responder com um poema:

No céu

os militantes

os padecentes

os triunfantes

seremos só amantes.

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