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Ênfase na família

Para Jorge Nishimura, valores tradicionais da fé cristã são essenciais à sociedade de hoje.


O engenheiro mecânico Jorge Nishimura, de 60 anos, é um especialista em gestão empresarial e governança corporativa. À frente do Conselho de Administração da Jacto, empresa especializada em máquinas agrícolas, e do Conselho Curador da Fundação Shunji Nishimura, ele conhece bem questões ligadas a relacionamentos pessoais, recursos humanos e técnicas motivacionais. Contudo, é da Palavra de Deus, de seu próprio casamento, da relação com os três filhos e do ministério na Universidade da Família que ele tira as melhores lições para um bom relacionamento familiar. A instituição, sediada em Pompeia (SP), ministra cursos e módulos de treinamento em igrejas de todo o Brasil com ênfase no casamento, criação de filhos, finanças do lar e outros temas ligados à família cristã. Com mais de 20 anos de experiência na área, Nishimura, que é membro da Igreja Holiness desde sua infância, conversou com CRISTIANISMO HOJE sobre o tema:

CRISTIANISMO HOJE – Costuma-se dizer que, nos dias de hoje, é mais difícil manter a família unida, o casamento saudável e educar os filhos corretamente por conta da pós-modernidade e da erosão dos valores morais e éticos na sociedade. O senhor concorda que os tempos de hoje são piores para a família?

JORGE NISHIMURA – O problema não é só em relação aos tempos em que vivemos, pois a natureza humana não mudou através das gerações. Basta ler a Bíblia e verificar que os homens do passado cometiam pecados semelhantes aos que são praticados hoje. Logo, a questão essencial não está circunscrita à modernidade – o problema é o pecado. Claro que, por causa do avanço da tecnologia – principalmente, na área da informação –, o comportamento humano tem se transformado numa velocidade impressionante. Muitas mudanças têm trazido benefícios importantes para a humanidade; mas, também, há grandes danos. E a família é uma das instituições que têm sofrido muito com todas estas mudanças. Acredito que estamos vivendo um momento crítico da nossa sociedade porque a estrutura familiar está bastante enfraquecida. O grande problema é a ausência de Deus no coração das pessoas. A presença de Deus fortalece as relações, mas sua ausência as enfraquece.

Mas por que as famílias eram mais sólidas no passado?

Antigamente, as pessoas tinham todos os seus problemas, mas a família permanecia, sem se desfazer. Hoje, estamos vivendo um momento em que a falta de persistência têm desestabilizado tudo. Talvez, a grande maioria dos problemas que vivemos esteja relacionada à desestruturação das famílias em nosso país. Essa desestruturação familiar abre uma porta muito grande para os desastres sociais que enfrentamos. As famílias têm sido bombardeadas com mensagens destrutivas, vindas através das mais diversas mídias. Como muitos não possuem conhecimentos consistentes dos princípios espirituais, são facilmente induzidos a aceitar conceitos mundanos e pecaminosos. Por isso, penso que o maior perigo que as famílias enfrentam hoje em dia vem das mentiras e enganos disseminados pelo inimigo e ingenuamente acolhidos por elas.

Quais são esses enganos?

Um deles está relacionado à questão conjugal. Muitas pessoas defendem teologicamente o divórcio e o novo casamento; porém, quando olhamos as estatísticas, ficamos horrorizados. Na empresa, quando se tem 13% de peças ou serviços fora da especificação, isso é considerado um índice absurdo. No Brasil, se nada for feito, em algumas décadas de 40% a 50% das famílias terão vivenciado o divórcio e o novo casamento, um verdadeiro desastre para a sociedade. Outro engano está relacionado ao chamado sexo recreativo, que acontece fora do casamento. Todos querem liberdade para usufruir dos prazeres do sexo, mas com consequências terríveis para a sociedade. A cada ano, estima-se que quase um milhão de bebês são abortados intencionalmente no Brasil. Além disso, uma quantidade enorme de crianças está nascendo contra a vontade dos pais biológicos; e todos nós sabemos que a rejeição, mesmo quando o bebê está no ventre materno, provoca danos emocionais terríveis.

Se a Palavra de Deus apresenta caminhos e soluções para os conflitos familiares, por que os crentes não usufruem de tais recursos em sua plenitude?

No mundo de hoje, como, aliás, em todos os tempos através da história, o relacionamento íntimo com Deus é a chave para o ser humano ter uma vida segura e frutífera. Os problemas e conflitos fazem parte do cotidiano das pessoas, e não dá para eliminá-los de nossa vida. O que nos conforta é saber que, como você disse, temos disponíveis, na Palavra de Deus, os princípios necessários para uma vida familiar bem sucedida, seja na área de casamento, finanças, paternidade etc. Entretanto, esses princípios somente serão efetivos se forem conhecidos e aplicados. No caso da família cristã brasileira, ela perece por falta de conhecimento dos princípios de Deus, além da forte influência que recebe das coisas deste mundo.

Como é o trabalho da Universidade da Família?

A nossa organização existe para apoiar as igrejas nos assuntos relacionados com a restauração e o fortalecimento dos relacionamentos familiares. Promovemos a capacitação e o treinamento de líderes indicados pela igreja. Como trabalhamos com voluntários, deixamos sob a responsabilidade da igreja local o critério de seleção desses líderes, dos quais não é exigida nenhuma formação específica ou experiência eclesiástica.

No contato com as igrejas, quais são as maiores demandas encontradas nessa área?

Até 2012, cada igreja tinha um interesse específico sobre os diversos temas, como finanças familiares, criação de filhos, relacionamento conjugal etc. Hoje, estamos oferecendo conteúdos que atendam às necessidades das famílias de forma mais abrangente. Criamos um currículo básico chamado Governança familiar, que cobre os temas básicos direcionados aos responsáveis pelas famílias, com material suficiente para dois anos. Outro currículo que estamos oferecendo a partir deste ano é o Próxima geração, para alcançar adolescentes e jovens de doze a 24 anos. Estaremos abordando neste currículo tópicos sobre caráter, relacionamentos, liderança, finanças, carreira, sexualidade, identidade etc.

Seu ministério surgiu a partir de uma crise pessoal. De que maneira o senhor conseguiu a solução para o problema?

Na realidade, no começo desse trabalho, eu e minha mulher, Márcia, estávamos em uma fase complicada, um período muito difícil e conflituoso. Parte de nossa crise estava relacionada à depressão dela, o que fomos descobrir muitos anos depois. Depressão era uma doença pouco conhecida 25 anos atrás, e sofremos bastante por isso. Participamos do curso Casados para sempre em 1987, ministrado em nossa igreja pelos pastores Haroldo e Charlotte Silva, e começamos a liderar o grupo. E, quando a gente lidera, acaba sendo trabalhado junto com os participantes. Os ensinamentos do curso foram preciosos para perseverarmos pelo nosso casamento. Estatisticamente, os primeiros 14 anos de casamento são os mais críticos, com os maiores índices de divórcio. Os conflitos vêm continuamente contra nós; então, participar de cursos, retiros de casais, seminários, ler e conversar tudo isso é necessário para que consigamos cruzar essa fase mais crítica do casamento.

Novas leis facilitando o divórcio e elevando as uniões homoafetivas ao status de família têm surgido no Brasil. Qual é o papel da Igreja nesta nova ordem social?

Uns dos problemas que a Igreja tem que enfrentar nos dias de hoje é que temos forte tendência de assumir as leis criadas pelos legisladores como se fossem de Deus. Ora, existe uma grande diferença entre a lei de Deus e a lei dos homens. A violação da lei de Deus sempre traz consequências severas, porque o salário do pecado é morte. No entanto, se a lei dos homens, ainda que aprovada pelos legisladores, viola a lei de Deus, ela continua sendo pecado. Precisamos ensinar ao nosso povo sobre os princípios de aliança de casamento. Nós precisamos trabalhar continuamente os assuntos relacionados à família porque o que mais a afeta não é falta de conhecimento, e sim, problema de relacionamento – e relacionamento não é coisa da cabeça; é coisa do coração.

O senhor diria que falta conhecimento, entre a liderança evangélica, para lidar com questões familiares sob a ótica bíblica?

Posso afirmar que, apesar de termos líderes competentes para lidar com questões familiares, o conhecimento ainda é pouco disseminado nas igrejas brasileiras. O fato é que muitas igrejas, por serem novas, ainda não conseguiram estruturar o seu ministério com a família.

Uma das grandes dificuldades relatadas pelos pais, hoje, diz respeito ao chamado isolamento virtual dos filhos. Sob o mesmo teto, as pessoas acabam dedicando tanto tempo à internet, redes sociais, celulares e smartphones que se distanciam de quem está na sala ou no quarto ao lado

Isso tem sido um problema em quase todos os lares, mas vale à pena lembrar que a internet tem afetado tanto os filhos como, também, os pais. Quando determinados comportamentos ou hábitos são nocivos à unidade ou harmonia familiar, é preciso promover mudanças. Se a relação familiar tem sido prejudicada pelo tempo exagerado de seus membros na internet, então é necessário, através do diálogo, buscar um novo balanceamento, buscando-se a conscientização e o consenso entre os membros da família. Além disso, deve-se estabelecer limites que sejam razoáveis para uma vida saudável dentro de casa. Tentar fazer as mudanças na marra nunca produz bons resultados. Como não temos precedentes na história, vamos ter que aprender a lidar com esta nova situação.

O denominado conflito entre gerações fomentou o enfrentamento dos pais por parte dos filhos nas gerações passadas. Esse panorama persiste nos dias de hoje?

Os anos 1960 e 70 foram, de fato, um período em que os jovens foram seduzidos pelo "vírus" da liberdade. Não podemos ignorar a influência do ambiente da sociedade onde vivemos, mas estou convicto de que o conflito entre gerações existiu e continuará existindo nas famílias que não estejam fundamentados nos princípios de Deus e não cultivem um diálogo aberto em casa. Vivemos em uma sociedade em que os pais, apesar de serem pessoas mais instruídas, não estão educando seus filhos de forma adequada. É por isso que temos tanta rebeldia e tantos problemas com a juventude.

É comum se dizer que os jovens de hoje são alienados e autocentrados, preferindo cuidar da agenda particular de interesses do que envolver-se em causas maiores. Em meados do ano passado, grandes grupos de jovens foram às ruas manifestar seu repúdio, ainda que de maneira difusa, ao status quo político e social. Na sua opinião, aquele momento foi um mero espasmo cívico ou, de fato, um movimento genuíno?

Penso que o movimento foi genuíno e gostaria de analisá-lo sob dois pontos de vista. O primeiro é que a sociedade deu um recado forte, de que está bastante descontente com a falta de ética e incompetência dos órgãos públicos. O segundo ponto de vista é que manifestações como estas, de natureza simplesmente reivindicatória, acabam produzindo poucos resultados práticos. Deus criou as pessoas em todo o mundo com capacidades semelhantes. Se dermos as mesmas condições de desenvolvimento educacional que jovens europeus e norte-americanos têm para um jovem asiático, africano ou latino-americano, posso afirmar sem medo de errar que serão tão bons quanto eles. Portanto, se os nossos jovens são omissos, é porque não estamos dando a eles condições para o seu desenvolvimento e nem incutindo-lhes uma visão inspiradora do futuro. Precisamos ajudá-los a encontrar propósitos suficientemente nobres para que eles se engajem com paixão. Aprendi com um terapeuta organizacional que os indivíduos maduros são aqueles que estão mais integrados e envolvidos com as pessoas do seu ambiente. Isto é, quanto mais as pessoas se envolverem com as necessidades ou problemas de sua comunidade, mais maduras elas poderão ser consideradas. As pessoas que se envolvem ativamente no desenvolvimento ou melhoria da comunidade são mais felizes e reclamam menos. A minha recomendação aos cristãos é que sejam participantes ativos na construção de nossas comunidades.

A ameaça das drogas e da pornografia nunca esteve tão perto das famílias, já que há milhões de sites gratuitos oferecendo material pornográfico e existe até serviços de fornecimento de drogas em domicílio. Como os pais e responsáveis podem controlar tudo isso?

Apesar de ser importante, eu não acho que o controle e fiscalização paterna no uso de drogas ou acesso a pornografia sejam suficientes para proteger os filhos. A melhor defesa é quando os pais conseguem transmitir aos seus filhos as razões por que não usar drogas e nem acessar pornografia. Quando os filhos conseguem entender a razão moral e espiritual de abster-se disso, eles estarão preparados para enfrentar estes problemas.

A chamada geração canguru, formada por jovens e adultos que, por conveniência ou falta de opções melhores, vão-se deixando ficar na residência paterna, é uma realidade estatística, hoje. Essa situação se repete nas famílias evangélicas?

Sim, isto tem acontecido também nas famílias evangélicas. Os jovens e suas famílias têm priorizado excessivamente o desenvolvimento educacional e profissional, deixando em segundo plano o casamento e por consequência permanecendo mais tempo na casa de seus pais. Considero a educação e a formação profissional muito importantes; mas, não se pode deixar de lado o desenvolvimento biológico das pessoas. A postergação do casamento aumenta a janela de vulnerabilidade dos jovens com relação ao sexo antes do casamento, e isso não é bom para ninguém. A permanência mais longa do filho na casa paterna não é considerada um problema – mas a iniciação sexual pré-nupcial, sim.

Sexo antes do casamento é uma realidade dentro da Igreja. Pesquisa realizada pelo Ministério Lar Cristão na década passada já revelava que 53% dos jovens evangélicos tiveram experiência sexual sendo ainda solteiros e ligados ao Evangelho. Como argumentar biblicamente, e de maneira efetiva, diante do princípio da virgindade, que já não tem quase valor algum na sociedade em geral e tem sido tão relativizado nas igrejas?

Sim, a virgindade, hoje em dia, parece ter perdido toda a relevância, tanto na sociedade como nas igrejas. A pesquisa revela esta triste realidade. O problema é que não entendemos mais a razão de sua importância. E o único jeito que temos para mudar esta realidade é de ensinarmos o verdadeiro significado da aliança de sangue. Deus se relaciona com os homens através de alianças. E o casamento foi a imagem escolhida por Ele para simbolizar a Sua relação de aliança de sangue com a Igreja. A banalização do relacionamento sexual fora do casamento destrói a imagem de fidelidade e pureza intencionada por Deus, provocando desconfiança e confusão entre as pessoas.

O senhor falou sobre a ênfase exagerada na carreira, no progresso profissional do jovem. O exercício da fé e o pertencimento eclesiástico deixaram de ser prioridade para muitos crentes, cujas famílias, inclusive, priorizam o preparo intelectual em detrimento do espiritual. Como encontrar o equilíbrio?

Muitas pessoas pensam que o seu sucesso depende, predominantemente, do conhecimento, e por isso concentram todo seu esforço na educação, e acabam ignorando outras áreas relevantes de sua vida. Nas minhas conversas com pessoas ligadas à área de recursos humanos, ouço-as dizendo que contratam profissionais pelo seu conhecimento e competência e os demitem por causa da falta de caráter. Caráter tem tudo a ver com as nossas crenças e valores espirituais – mas, infelizmente, os jovens e suas famílias não estão dando o devido valor ao desenvolvimento da fé, que é essencial para qualquer pessoa ser bem sucedida na vida.

Uma das queixas da juventude cristã, hoje, é acerca de uma alegada irrelevância do Evangelho na sua vida diária. Por que isso acontece?

No mundo corporativo, dizemos que, quando se perdem os valores, perde-se a empresa. Valores e os princípios espirituais e morais são importantes em qualquer empreendimento. Lembro-me de que, na minha adolescência, não queria estudar inglês porque, naquele momento, não enxergava nenhuma aplicação prática para a língua na minha vida... Acho que o mesmo raciocínio é válido para aqueles jovens que não conseguem entender, agora, a importância dos ensinos contidos na Palavra. Isso é compreensível. Mas precisamos perseverar no ensino dos princípios espirituais aos jovens, mesmo quando eles ainda não conseguem entender a sua relevância – pois um dia, quando estiverem mais maduros, irão valorizá-los muito.

E enquanto essa maturidade não chega, o que fazer?

Nos cursos, ensinamos aos pais como passar responsabilidades aos filhos, considerando a sua idade e maturidade. À medida que os filhos vão crescendo, novas atribuições são passados a eles, até que cheguem à maturidade. Dar autonomia aos filhos em áreas nas quais ainda não foram instruídos é loucura.

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