Menu

Socorro na dor

Iniciativa de missionário leva atendimento fisioterápico gratuito a favelados no Rio.

Avenida Brasil, uma das vias mais movimentadas do Rio de Janeiro. O ano era 1991. Sergio atravessava a pista quando foi jogado para o alto por um carro em alta velocidade. Quarenta e sete dias internado, duas cirurgias no fêmur da perna direita e uma redução de cinco centímetros em relação ao outro membro inferior foram os resultados do acidente. O mais desgastante veio depois. Pobre, sem acesso à saúde privada ou transporte próprio, ele passou dois anos andando de muletas e precisando passar duas horas por dia num ônibus para percorrer os 32 quilômetros entre sua casa e o centro de reabilitação que o atendeu. Mas, apesar da sequela e dos sacrifícios provocados pelo acidente, o evangélico Sergio Murilo da Silva não é um amargurado. Muito pelo contrário. Quando lembra do passado, ele abre um sorriso: “Agradeço a Deus pela vida do homem que me atropelou”, diz. Vítima e causador conheceram-se durante o processo judicial. Houve perdão, viraram amigos. “É uma pessoa que eu amo, pois mudou minha vida”, afirma.

Não é mera força de expressão. Na comunidade de Parada de Lucas, zona oeste do Rio de Janeiro, Sergio, de 47 anos, casado e com um filho de 13, é conhecido como Casagrande, nome de um famoso jogador de futebol dos anos 80. O apelido vem da infância de quem nasceu e foi criado ali. Durante as longas esperas pelo ônibus que iria levá-lo ao tratamento de fisioterapia, ele acompanhava o drama de mães e filhos que passavam pelo mesmo sofrimento. Algumas crianças, impossibilitadas de andar, tinham de ser carregadas no colo, sob o forte sol ou na chuva, que geralmente entope bueiros e inunda áreas da localidade. Parada de Lucas é uma das mais de 500 favelas cariocas. Como na maioria delas, o poder público passa ao lado – no caso, pela Avenida Brasil. Não há sequer um posto médico que atenda os mais de 25 mil moradores da localidade, quanto mais um centro de reabilitação física.

Diante desse cenário, Sergio teve um sonho: poder servir à comunidade onde vivia. “Se eu mesmo não fizesse alguma coisa, quem é de fora que ia fazer?”, perguntava-se, já consciente da resposta. Como cursou só até o quarto ano do ensino fundamental, ele sabia que não poderia estudar fisioterapia, mas resolveu convencer profissionais da área a doar parte de seu tempo em atendimentos domiciliares na favela. Passou os dois anos seguinte palmilhando as vielas e barracos, acompanhado de dois fisioterapeutas. Muitas vezes, a ação tinha de ser desenvolvida em meio a tiroteios entre facções de traficantes de drogas rivais. “Várias vezes tínhamos de nos jogar no chão para não ser atingidos”, conta. Sergio ainda não sabia, mas aquela iniciativa era o embrião da Clínica de Reabilitação Amor pela Vida, instituição sem fins lucrativos que funciona há 16 anos prestando atendimento gratuito à população. Ainda em construção – no momento, o prédio de três pavimentos está em obras –, o centro terá capacidade para atender 700 pessoas por mês, nas especialidades de fisioterapia, ortopedia, urologia, psicologia, neurologia e fonoaudiologia.  

Cartuchos reciclados – Quem vê hoje a grandiosidade do empreendimento não tem ideia das dificuldades para implantá-lo. A primeira sede foi um barraco na entrada da comunidade. Membro de uma igreja evangélica local, Sergio foi pedir ao seu pastor para ajudá-lo no projeto de abrir uma clínica em Parada de Lucas. “Ele achou que eu estava querendo me promover para entrar na política e não me deu nada”, conta. Desanimado pela possibilidade de perder aquela oportunidade, ele encontrou dias depois outra crente, que procurava uma igreja onde iria trabalhar como voluntária. Conversa vai, conversa vem, ela o aconselhou a conversar com o pastor Josué Rodrigues, da Igreja Presbiteriana Betânia, na cidade vizinha de Niterói. “Pensei: como ele vai me ajudar se quem é daqui não se interessou?”, admite. Mas Sergio saiu do encontro com o dinheiro para comprar o barraco.

Para viabilizar a construção da clínica, Sergio passou a percorrer empresas, quartéis e escritórios nas imediações à procura de cartuchos de impressão usados. A ideia era revendê-los para reciclagem. E deu certo – em três anos, foram mais de oito mil cartuchos revendidos, o que rendeu o dinheiro suficiente para iniciar o projeto. Mas os recursos logo secaram, paralisando o atendimento. Até que Sergio encontrou um velho amigo: Evandro João da Silva, então coordenador social do Afroreggae, ONG de formação cultural, artística e profissionalizante que atua entre comunidades carentes e tem renome internacional. “Evandro era aqui de Lucas, nos conhecíamos desde meninos. Eu apresentei o projeto para ele e o Afroreggae reabriu nossas portas”, lembra. A entidade passou a contribuir com uma verba de R$ 6 mil mensais, suficiente para montar e manter o ambulatório funcionando desde então. Das dezenas de congregações evangélicas que atuam na região, nenhum apoio. “A igreja é o único exército que abandona os seus feridos pelo caminho”, resigna-se.

Sergio se emociona quando lembra o assassinato de Evandro, ocorrido em outubro do ano passado, após um assalto no centro do Rio. O crime, registrado por câmeras de segurança, chocou o país, não apenas pela fama do ativista social como pelas circunstâncias em que ocorreu. Baleada, a vítima não foi socorrida pelos policiais que passaram logo depois dos disparos – além de não prender os criminosos, dois militares ainda se apoderaram da jaqueta e dos tênis de Evandro. O caso está na Justiça. “O assassinato de Evandro foi um choque para todos nós”, lamenta Sergio.

 

“Isso é muito bom” – Atualmente, duas fisioterapeutas e uma médica contratadas atendem 400 pessoas por mês na Amor pela Vida.  Crianças com defeitos congênitos, vítimas de acidentes, derrames cerebrais e das chamadas balas perdidas – uma triste estatística que não para de crescer no Rio, sobretudo nas favelas – não pagam nada pelo tratamento recebido. É gente simples como dona Estelita, 80 anos, que mal conseguia andar até o ponto de ônibus. Ela tem dificuldade de locomoção e sofre com dores reumáticas, mas é atendida a três quadras de casa. “Isso aqui é muito bom, meu filho”, diz ao repórter, enquanto é submetida a tratamentos com ultrassom. “Só em pensar que não vou precisar passar horas dentro de um ônibus...”, alegra-se a idosa.

A ajuda a quem precisa não se realiza apenas no prédio da instituição. Sergio e uma equipe de voluntários distribuem muletas, cadeiras de rodas e fraldas geriátricas, fruto de doações, pelas redondezas. Só nas comunidades de Lucas e Vigário Geral, há mais de 500 portadores de deficiência física, quase todos vivendo em extrema carência. Apesar da orientação evangélica da casa, ali não são realizados cultos e ninguém pergunta pela religião dos pacientes. O Evangelho é anunciado de forma mais sutil, através das boas obras. Credenciada pelo Conselho Nacional de Assistência Social e reconhecida como de Utilidade Pública Municipal e Estadual, a Clínica Amor pela Vida é vista como um oásis de esperança na comunidade. Sergio Murilo recebe seu sustento como missionário da Igreja Betânia. O trabalho de evangelismo acontece em visitas às casas e principalmente pelo testemunho, que fala mais forte do que qualquer pregação. “Muitas vezes as pessoas nos pedem para irmos orar em suas residências”, conta o obreiro. “Quando alguém falta ao tratamento, saímos à sua procura. Nessas ocasiões é que falamos do plano de Deus para cada um”.

O missionário Sergio já pensa lá na frente. O próximo passo é transformar a instituição numa clínica-escola, onde estudantes de fisioterapia poderiam viver na comunidade e praticar na vida real os conhecimentos adquiridos na universidade. “O sonho não pode parar, se não ele morre”, ensina Sergio. “Se você não acredita no seu próprio sonho, nem Deus vai poder ajudar. E eu acredito”, diz, convicto. Demonstrando tanto amor pelas vidas em Parada de Lucas, a instituição que surgiu graças a um grave acidente tem feito cada vez mais jus ao próprio nome.

voltar ao topo