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A voz não é mais rouca

Movimentos populares surpreendem o Brasil e reclamam um novo país.

Ninguém esperava. Em meados de junho, uma multidão de brasileiros de todas as idades, todas as classes sociais e com todas as motivações saíram às ruas de centenas de cidades. Das grandes metrópoles a pequenos municípios do interior, o brado de indignação contra tudo que está aí se fez ouvir pela voz de milhões de pessoas. E já não é uma voz rouca, como a definiu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Foram semanas em que a esperança, produto tipicamente nacional que andava em baixa nos últimos anos, voltou a conquistar mentes e corações. Redução no preço das passagens, fim da corrupção, melhorias na saúde e na educação – apesar da falta de lideranças e do desprezo às lideranças políticas, uma mobilização sem precedentes apresentou aos governantes um retrato nu e cru de tudo que precisa ser mudado, expresso em milhares de cartazes e faixas pintados à mão. Quando todos pensavam que as atenções se voltariam para a Copa das Confederações da Fifa, realizada pela primeira vez no Brasil, o país do futebol deu mostras de maturidade. E a competição, com todos os bilhões em dinheiro público gastos em estádios e montagem de estruturas temporárias, acabou sendo alvo preferencial dos protestos.
A nova geração de brasileiros sentiu o gostinho de ir para a rua de rosto pintado e punho cerrado. Nem mesmo os tumultos promovidos por arruaceiros – combatidos com força policial quase nunca vista no combate efetivo ao crime – em meio às manifestações comprometeram a voz das ruas. E os primeiros resultados foram imediatos. Governos estaduais e municipais voltaram atrás nos aumentos de tarifas de transporte público. O Congresso Nacional, em um surto inédito de trabalho – até sessões legislativas lotadas foram realizadas em plena sexta-feira –, deu andamento a várias questões. Uma delas foi a rejeição ao Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 37, que retirava do Ministério Público a prerrogativa da investigação criminal. O andar de cima acusou o golpe. Com ares de perplexidade, a presidente Dilma Roussef veio a público, em rede nacional, anunciar uma série de medidas, como a convocação de um plebiscito para estabelecer uma ampla reforma política – antiga reivindicação que a ampla base de apoio do governo no Congresso, que vem desde a era Lula, já poderia ter atendido caso houvesse interesse.
Dilma promoveu ainda uma inédita reunião com movimentos populares, entidades estudantis e representantes de organizações civis no dia 28 de junho. Entre os presentes, estava a psicóloga Morgana Boostel, secretária-executiva da Rede Fale, que reúne evangélicos e grupos cristãos em defesa da cidadania e de pautas de interesse social. Ela entregou à presidente um documento, assinado por mais de 100 líderes religiosos, propondo mudanças na política de combate às drogas e denunciando arbitrariedades policiais contra comunidades carentes. "Percebemos avanços no processo de diálogo, mas o calor das ruas precisa continuar e apontar novos caminhos", disse Morgana. "Precisamos continuar exercendo nossa voz profética diante das autoridades, para que alcancemos avanços na garantia e implementação de direitos, em especial pelos que mais sofrem."

"ORE PELO BRASIL"
A participação cristã nos movimentos de rua também chamou a atenção. Nas principais manifestações no Rio e em São Paulo, grupos portando faixas com nomes de igrejas ou simplesmente cartazes com a frase AOre pelo BrasilO podiam ser vistos. O analista de sistemas Esdras Almeida, missionário da Igreja Presbiteriana e vice-presidente de Jovens com uma Missão (Jocum) no Rio de Janeiro, esteve nas passeatas do centro da cidade ao lado de um grupo de evangélicos. A vontade de Deus sempre foi de que seu povo promovesse a justiça na terra. É papel da Igreja lutar pela verdade e ficar ao lado dos oprimidosA, defende. Ele acredita que o crente erra ao pensar que proclamar o Reino de Deus está em apenas falar da salvação em Cristo e viver de forma correta. ,Essa dicotomia entre o que é sagrado e o que é secular desfaz a necessidade de sermos sal e luz no mundo. Não podemos nos esquecer de que Cristo ensinou aos seus discípulos que o Reino de Deus deve ser vivido assim na terra como no céu.
Coordenador do movimento Rio de Paz, o pastor Antônio Carlos Costa é um veterano militate de causas sociais. À frente do grupo, ele promove há vários anos protestos e manifestações cristãs contra a violência, a impunidade e a corrupção na política. CQueremos escolas, hospitais e segurança no padrão FifaQ foi o tema de sua última campanha, que espalhou 500 bolas de futebol com cruzes vermelhas tanto na Praia de Copacabana quando nos gramados do Congresso Nacional, simbolizando os 500 mil homicídios que, segundo a ONG, aconteceram no Brasil nos últimos dez anos. Antônio Carlos está radiante com o momento vivido pelo Brasil: "Uma coisa nova está acontecendo. As pessoas estão deixando a acomodação egoísta de lado", comemora.
O pastor esteve com seu filho na manifestação do dia 17 de junho, que levou 100 mil pessoas à região central do Rio. O movimento, pacífico e até bem humorado em todo o trajeto – a irreverência do carioca estava expressa através de cartazes e máscaras coloridas –, acabou em pancadaria quando um grupo isolado atacou a sede da Assembleia Legislativa. Manifestantes denunciaram a extrema violência policial, inclusive contra deficientes físicos e idosos. No tumulto, o estudante Matheus Costa, filho do pastor, foi detido. "Ele ficou ao meu lado o tempo todo, com um cartaz na mão. Quando me dei conta, estava sendo arrastado por policiais", protesta Antônio. Ao todo, 25 pessoas foram presas, inclusive várias que não tinham nada a ver com os atos de depredação. "Meu filho passou 13 horas numa cela com mais nove detentos. Só saiu porque pagamos fiança de 3 mil reais, e agora estamos às voltas com um processo inteiramente descabido por formação de quadrilha", indigna-se o religioso. Apesar disso, ele está animado. "Estamos vendo o surgimento de uma nova força social, aguerrida e apaixonada."

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