Menu

Na hora da decisão

Com um rebanho cada vez maior, apoio da Igreja Evangélica é acirradamente disputado pelos candidatos à Presidência da República.

Uma campanha eleitoral rápida, cara e, até agora, morna. As emoções devem ficar mesmo para os debates na televisão e para os momentos finais. Como era de se esperar, o eleitorado só começou a dedicar alguma atenção ao tema após a Copa do Mundo – mas, a pouco mais de dois meses das eleições para presidente da República, ainda não demonstra o entusiasmo e o engajamento esperados para um pleito de tamanha importância, que decidirá qual será o sucessor de Luiz Inácio Lula da Silva. A candidata do PT, Dilma Rousseff, e o do PSDB, José Serra, aparecem com discursos parecidos e com o mesmo patamar nas pesquisas eleitorais: eles têm variado entre 35% e 40% das intenções de voto, dependendo do instituto de pesquisa. Correndo por fora, está a candidata do PV, Marina Silva, que tem aparecido com cerca de 10% e procura, em sua campanha, dar um contraponto às falas de Dilma e Serra. Há ainda outros seis candidatos considerados “nanicos”, por serem desconhecidos e disputarem o voto por partidos pequenos. Dentre estes, o nome que se destaca é o do octogenário Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL. Mesmo assim, ele ainda não pontuou nas pesquisas.

“Os que definirão a eleição são aqueles eleitores mais flexíveis. Será uma eleição definida nos detalhes”, antecipa Carlos Augusto Montenegro, diretor do Instituto Brasileiro de Opinião Pública (Ibope). A fé do eleitor, por exemplo. Os evangélicos, que já representam entre 20 e 25% do eleitorado do país, como sempre têm o apoio grandemente disputado. Os crentes, porém, desta vez parecem mais divididos do que nas eleições anteriores. Tanto, que há comitês evangélicos funcionando nas campanhas dos principais candidatos. Para quebrar a resistência de grande parte desse eleitorado ao nome de Dilma – especialmente em razão de sua participação na elaboração do terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), mal recebido pelas igrejas –, a campanha petista colocou em ação o chefe de Gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Ele já conversou com vários líderes evangélicos e conseguiu emplacar o apoio do deputado e pastor Manoel Ferreira, da Convenção Nacional de Madureira das Assembleias de Deus (Conamad). Ferreira aceitou coordenar a campanha de Dilma entre os evangélicos depois de obter, segundo ele, o compromisso da candidata de não implementar os pontos considerados polêmicos do PNDH-3. Porém, no momento de registrar o programa de governo junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Dilma apresentou o documento do PT, que prevê, por exemplo, a legalização do aborto. Em seguida, disse ter se enganado, e apenas rubricado o programa, posteriormente trocado junto ao TSE.

Dilma conta também com o apoio da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, e de outras lideranças. Ainda assim, as pesquisas mostram que ela tem menos votos entre os crentes do que José Serra, que trabalha intensamente junto aos evangélicos. Ele chegou a ser acusado pelo Ministério Público Eleitoral por propaganda antecipada, antes do prazo estipulado pela lei, durante um congresso evangélico durante o mês de maio, em Camboriú (SC). Pesquisa recente mostra que Serra lidera tanto entre os evangélicos pentecostais quanto entre os tradicionais. A campanha do tucano chegou a anunciar ter obtido o apoio de líderes da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CGADB), o maior segmento evangélico do país. A verdade, porém, é que os pastores assembleianos estão divididos. Muitos começam a olhar com mais atenção para a candidata Marina Silva – a única que professa a fé evangélica, tendo como pastor Sóstenes Apolo, da Assembléia de Deus do Plano Piloto, em Brasília.

Marina vive uma situação paradoxal. Ao longo dos anos, tem demonstrado a preocupação de evitar a instrumentalização da fé com objetivos eleitorais. Essa foi justamente uma das críticas à campanha do ex-governador e crente presbiteriano Anthony Garotinho ao Planalto, em 2002. Mesmo assim, em diversas entrevistas, Marina teve que responder a questões pesadas, justamente por assumir a fé evangélica. Recebeu inúmeras críticas da imprensa por ser crente e chegou a perder apoios importantes até dentro de seu partido, o PV, pelas posições cristãs em diversos temas, como os ligados à família e ao direito à vida. Fato que chama a atenção da jornalista política Miriam Leitão, que identifica aí um tratamento preconceituoso. “Por que Marina é crivada de perguntas sobre sua fé e não há a mesma ilação sobre o risco de transposição de doutrinas religiosas para as políticas públicas quando o candidato é da religião dominante no país?”, questiona. Ela lembra que os demais postulantes, quando muito, têm apenas de responder a clássica pergunta sobre se creem em Deus – à qual, naturalmente, ninguém é corajoso ao ponto de dizer “não”.

Além de não contar com o apoio da maior parte das lideranças evangélicas, Marina, até o fechamento desta edição, aparecia com menos votos entre os crentes do que Serra e Dilma. Sua estratégia, porém, se fixa em buscar empatia diretamente com o povo evangélico, contando também com o trabalho do tipo “formiguinha”, feito por voluntários. “Diga ao povo que marche” – ordem divina a Moisés, diante do Mar Vermelho – é o lema da campanha entre os crentes que apoiam Marina Silva. Em entrevista a CRISTIANISMO HOJE no fim do ano passado, a candidata classificou sua campanha como uma espécie de “luta de Davi contra Golias”.

 

Plebiscito – De fato, a intensa participação do popularíssimo presidente Lula em palanques pelo país, enquanto inaugurava obras ao lado de Dilma, deu à sua candidata o fôlego que muitos analistas não acreditavam que tivesse. O presidente deu de ombros às várias multas do TSE por propaganda antecipada. E, depois que Dilma encostou e ultrapassou Serra por alguns pontos nas pesquisas, os estrategistas da campanha petista passaram a evitar o confronto direto e a exposição desnecessária. Cenas de Dilma falando rodeada de jornalistas passaram a ser mais raras. A ideia do Planalto é dar à eleição um tom de plebiscito, em que se contraponham os governos de Lula, cuja continuidade Dilma representa, e o de seu antecessor Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), do mesmo partido de Serra. A todo momento, Dilma compara os dois períodos. Serra, por sua vez, diz ser mais competente do que todos eles, chamando Dilma para o debate. São poucos os assuntos, porém, nos quais Dilma e Serra mostram, ao menos em público, divergência real.

E quem esperava, por parte do tucano, uma campanha sem muitos atropelos, deparou-se com a demora em definir a candidatura e, mais dramático, em escolher o companheiro de chapa. A escolha do jovem e quase desconhecido deputado Índio da Costa (DEM-RJ) como candidato a vice-presidente foi vista como surpreendente e arriscada. Dilma, por sua vez, já tinha há tempos o nome do deputado paulista Michel Temer, presidente do PMDB, como seu candidato a vice-presidente. Temer costurou com Lula a aliança que garante grande participação do PMDB no governo petista. O partido, a exemplo das eleições recentes, abre mão de candidato próprio em nome do pragmatismo.

Se Dilma tem a seu favor a força do Planalto e Serra tem seu partido no governo de São Paulo, Marina Silva, longe da máquina pública, procura investir na participação de voluntários, especialmente os jovens, mais simpáticos às suas bandeiras do desenvolvimento sustentável e da ética na política. Nem a escolha do empresário Guilherme Leal, um dos sócios da Natura, como seu candidato a vice garantiu uma injeção de recursos capaz de fazer frente às máquinas partidárias das alianças PT-PMDB e PSDB-DEM, que dão combustível a Dilma e Serra. A aposta de Marina é a de ir para os debates, para garantir o máximo de exposição e mostrar, afinal, em que seu modo de fazer política e seu programa de governo podem ser considerados uma alternativa real aos demais candidatos.

 

Renovação – Mas as eleições presidenciais são apenas parte do enorme pacote de mudanças que o brasileiro precisa desembrulhar em outubro. Casadas com a escolha do novo presidente da República estão as eleições para governadores de 27 estados e do Distrito Federal, além da renovação da Câmara dos Deputados e do Senado Federal e das assembléias legislativas. Para a Câmara, serão eleitos 513 parlamentares. O Senado renovará dois terços dos parlamentares: serão eleitos dois senadores em cada estado e no DF, totalizando 54 parlamentares.

As assembléias legislativas também passarão por renovação. E, apesar de as políticas públicas serem decididas, em grande parte, no âmbito do Poder Executivo, o voto evangélico costuma desembocar no Legislativo, elegendo parlamentares que se dizem comprometidos com a fé. É ali, nos cargos de deputado federal e estadual ou de vereador – a próxima eleição municipal ocorre em 2012 – que o varejo de votos costuma ser mais intenso. E é nas casas legislativas que escândalos como o da chamada “oração da propina” – quem não se lembra? – costumam acontecer e servem de alerta para que o eleitor examine bem a história de cada um dos candidatos.

 

 

Púlpito não é palanque

Discutir apoio político e fazer propaganda eleitoral entre os evangélicos não é crime. Mas usar os templos e os púlpitos para essa propaganda é expressamente proibido por lei, e pode gerar, além de multa, a impugnação de candidaturas. É o que estabelece a Lei 12.034/09, que alterou a Lei dos Partidos Políticos e o Código Eleitoral. As multas podem ser estipuladas, pelos tribunais eleitorais, não só para os candidatos, mas também para as igrejas. É que os templos religiosos são considerados, pela legislação, como bens de uso comum, nos quais não cabe propaganda eleitoral.

 

Ficha limpa já!

Resultado de grande mobilização nacional, que contou com mais de um milhão e meio de assinaturas, a Lei da Ficha Limpa tem seu grande teste nestas eleições. Sancionada em junho, depois de muita pressão e discussão, a lei veda o registro de candidatos que tenham sido condenados por um colégio de juízes em razão de diversos crimes. A lei tem objetivo de impedir que a vida pública seja tomada de políticos em busca de imunidade parlamentar.

A lista dos crimes passíveis de inelegibilidade é longa: crimes contra a economia popular, o meio ambiente, a administração e a saúde públicas; tráfico de drogas; crimes dolosos contra a vida (homicídio); abuso de autoridade; crimes eleitorais, lavagem ou ocultação de bens; estupro e exploração sexual de crianças e adolescentes, entre outros. De acordo com a assessora da Frente Parlamentar Evangélica, Damares Alves, a pressão de jovens evangélicos de todo o país para a aprovação do projeto foi notável.

voltar ao topo