Menu

O reino deste mundo

Escândalo no Distrito Federal põe em evidência a participação de políticos evangélicos em casos de corrução.

Geter Borges tenta reverter a situação. Seu grupo tem acompanhado a tímida reação das igrejas ao escândalo e enviou carta aos pastores de todas as denominações indagando o que pensam sobre a conjuntura política no Distrito Federal. O texto sugere que os evangélicos assinem um manifesto e se mobilizem para pedir o afastamento imediato de todos os envolvidos nas denúncias. “O problema não é haver corrupção no campo evangélico, já que as pessoas estão sujeitas a mudar de rumo e se afastar da ética. O problema é a omissão da Igreja diante desse fato, o que termina legitimando isso”.

Depois que a “Operação Caixa de Pandora”, da Polícia Federal, revelou, no fim de novembro de 2009, as entranhas do governo de José Roberto Arruda (ex-DEM) no Distrito Federal, as palavras “panetone” e “oração” ganharam novos significados. Quando Arruda disse que os R$ 50 mil que aparece recebendo em vídeo seriam para comprar o tradicional pão natalino para os pobres de Brasília, “panetone” virou imediatamente sinônimo de corrupção. No segundo caso, criou-se a expressão “oração da propina”. É que as imagens chocantes de dois deputados de Brasília orando com Durval Barbosa – ex-secretário de Relações Institucionais do governo Arruda e incumbido de distribuir o dinheiro do esquema – foram capazes de dar até ao momento sagrado da conversa com Deus uma outra conotação. E políticos identificados como evangélicos mais uma vez estiveram no meio de um escândalo.

Os deputados da Câmara Distrital Leonardo Prudente (ex-DEM) e Rubens Brunelli – que até o fechamento desta edição permanecia no DEM –, que aparecem no vídeo, negam que naquele momento estivessem, como veiculado pela imprensa, agradecendo ao Senhor pela propina do que ficou conhecido como “mensalão do Democratas”. Mesmo assim, o contexto é inegavelmente dos mais comprometedores (ver abaixo). Para Damares Alves, que há 20 anos é assessora jurídica da Frente Parlamentar Evangélica na Câmara dos Deputados, situações como essa tendem a repetir-se. O problema, explica, é muito mais grave do que parece, e está na raiz da representação evangélica no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais. “O crente é corruptor. Os próprios pastores e crentes corrompem os políticos”, lamenta a assessora, atribuindo parte do problema à enormidade de pedidos de favores e de dinheiro que chegam aos parlamentares eleitos com apoio das igrejas, numa versão evangélica do velho clientelismo brasileiro.

“É a política do ‘toma lá dá cá’. É tanto pedido, os deputados são tão cobrados por sua base, que acabam sendo induzidos a isso. Não que os políticos sejam inocentes ou ingênuos”, reconhece. “Mas o deputado recebe voto e depois tem que pagar até lua-de-mel de filho de pastor. E como atender esses pedidos? Enquanto isso não mudar, veremos escândalo sobre escândalo”, afirma Damares. Ao contrário de parlamentares que representam grandes segmentos sociais e econômicos, que têm suas campanhas eleitorais custeadas por doações mais robustas, os evangélicos, apoiados por redes de pequenas igrejas, já tomam posse pensando em como vão pagar suas dívidas de campanha e manter a base que os elegeu. A saída acaba sendo o clientelismo e a troca de favores, que muitas vezes envolve dinheiro público. Damares observa que esses políticos – que são, na origem, "geralmente um pastor ou um advogado pobre" – acabam sacrificando princípios para manter seus mandatos. “Os parlamentares vão alimentando isso ao longo dos anos”, diz. Em consequência, os evangélicos, quase sempre, ironicamente, integrantes do chamado “baixo clero” do Legislativo, são alvo fácil para os lobistas que circulam em Brasília oferecendo as mais variadas vantagens.

Prova disso, continua Damares, é o escândalo dos sanguessugas, de 2006, quando congressistas ncluíram emendas no Orçamento para beneficiar uma empresa, a Planan, da família Vedoin. Não por falta de aviso (ver abaixo), o caso terminou por atingir metade da bancada evangélica do Congresso Nacional, então de 68 parlamentares. Confessando-se “angustiada”, Damares diz permanecer como assessora parlamentar da Frente Evangélica por ver nesse trabalho uma espécie de ministério, no qual analisa e dá pareceres a projetos de lei que afetam diretamente princípios ligados à vida. Por mês, diz ela, são analisados mais de 50 propostas diretamente relacionadas a temas de preocupação dos cristãos. Contudo, ela reconhece que, nestes 20 anos de bancada, o grupo deveria ter avançado muito mais na questão ética. “O que me deixa muito triste é que enquanto isso há tantas frentes, tantas batalhas em defesa da vida e da família. Precisamos, no mínimo, de 100 parlamentares cristãos no Congresso para cuidar de questões como liberdade religiosa, exclusão social, opressão dos pobres, abandono de idosos, aborto, eutanásia, dependência química e tantas outras”, enumera, lembrando que também assessora a Frente Parlamentar da Família e Apoio à Vida.

 

Omissão da Igreja – O extenso vocabulário da corrupção tem renovação garantida no Brasil. Cada escândalo traz consigo o dom de mudar o sentido das palavras a ele relacionadas, garantindo assim um novo estoque de piadas – forma encontrada pela população desde a época do Império para expressar seu descontentamento. No caso do uso indevido de cartões corporativos do governo federal, por exemplo, a “tapioca” ficou celebrizada. No caso dos sanguessugas até a palavra “ambulância” ganhou outra conotação. A lista é longa. Mas a “oração da propina”, mostrada em rede nacional de TV, foi um episódio mais doloroso para os crentes. “O que mais me indignou foi que tudo isso serviu para as pessoas quebrarem o quarto mandamento e usarem o nome de Deus em vão”, diz o presbiteriano Renato Amorim, que sofreu com as gozações no ambiente de trabalho: colegas com quem convive há anos repetiram várias vezes os termos usados por Brunelli e Prudente. “Senti-me totalmente desrespeitado e desautorizado”, diz ele, que participou de um dos protestos em frente à Câmara Distrital para exigir o afastamento de todos os envolvidos com o escândalo. Os atos foram reprimidos com violência pela Polícia Militar do DF, fato que gerou ainda mais indignação.

Servidor do Superior Tribunal de Justiça, Amorim, que se prepara para fazer na França um doutorado em ciências políticas, disse que iria à manifestação mesmo se o episódio não atingisse os evangélicos como um todo, como a seu ver atinge. “O escândalo evidenciou a concepção de que é possível agir por meios escusos, obscuros, e sacralizar isso por meio de orações, cultos ou oferta de dízimos”, observa. Ele também lamenta que, mesmo chamuscada, a Igreja Evangélica em geral tenha se omitido. “A Igreja sofre paralisia. Mesmo quando atacada, como foi nesse caso, ficou totalmente muda, não se defendeu como instituição”, critica. Quanto aos políticos evangélicos, Amorim diz não se sentir representado por eles, em quem não votou. “Não consigo identificar uma ação efetiva dos evangélicos no campo da política. Eles pensam de maneira religiosa, mas isso é um erro. Pensar em termos políticos significa pensar no quê, como cristãos, podemos conceber de bom também para os que não abraçam a fé”. No seu entendimento, ao não conseguir dialogar adequadamente com o Estado laico e secularizado, os crentes deixam escapar o conceito de “justo” para todos os segmentos da sociedade. “Só se pensa no que é pecado ou não, mas nem isso de maneira séria. Uma concepção política que tenha como meta simplesmente alcançar o poder está fadada ao fracasso”, sentencia.

Um dos coordenadores do movimento Evangélicos Pela Justiça (EPJ), o crente batista Geter Borges tenta reverter a situação. Seu grupo tem acompanhado a tímida reação das igrejas ao escândalo e enviou carta aos pastores de todas as denominações indagando o que pensam sobre a conjuntura política no Distrito Federal. O texto sugere que os evangélicos assinem um manifesto e se mobilizem para pedir o afastamento imediato de todos os envolvidos nas denúncias. Em grande parte, as igrejas não tomaram posições públicas. Quando o vídeo foi divulgado, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ligada à Igreja Católica, e a Igreja de Confissão Luterana do Brasil condenaram os envolvidos no episódio. No dia seguinte, em nome da Ordem dos Ministros Evangélicos do Gama, cidade-satélite do DF, o pastor Oseas de Oliveira entrou com um pedido de impeachment contra o governador José Roberto Arruda e o vice Paulo Octávio, e de afastamento dos deputados acusados no inquérito policial.

“O problema não é haver corrupção no campo evangélico, já que as pessoas estão sujeitas a mudar de rumo e se afastar da ética. O problema é a omissão da Igreja diante desse fato, o que termina legitimando isso”, comenta Geter. Para ele, as igrejas devem se manifestar contra a corrupção “de forma massiva”. A cultura evangélica de afastamento das questões sociopolíticas, na sua opinião, contribui para o silêncio em relação à corrupção, assim como aos demais problemas do país. Por outro lado, diz, a partidarização contamina a igreja, comprometendo sua voz profética. “A Igreja deve lutar contra a cultura do ‘rouba mas faz’ e do ‘bobo é quem é honesto’. E não deve manipular a opinião dos membros e nem comercializar o voto de seus adeptos”, prega.

O coordenador, que trabalha como assessor da bancada do PT na Câmara dos Deputados, salienta que o caso Arruda mostra que há um problema estrutural a ser enfrentado: a independência com que agem os políticos depois de eleitos, só prestando contas à população a cada quatro anos. “O eleitor tem como única alternativa esperar a eleição seguinte e trocar os representantes, que depois irão agir da mesma forma”. Ele lembra que o afastamento do governador depende da Câmara Distrital, também atingida pelas acusações, e aponta para a morosidade do Judiciário. “A gente precisa enfrentar esse elemento estrutural. Sem isso, não vamos conseguir avançar na democracia”, declara.

 

Resgate ético – O pastor Isaías Lobão, professor de teologia e atualmente membro da Igreja Presbiteriana de Cruzeiro Novo, em Brasília, constata que a ética evangélica não tem diferido da mundana. “Os grupos neopentecostais, especialmente, se adaptaram ao pior da cultura brasileira”, aponta, lembrando que a a maioria dos envolvidos nesses casos são ligados à teologia da prosperidade, concepção que, no seu entender, é “duvidosa e truncada”. Isaías sublinha o argumento de uma suposta “perseguição religiosa” é sempre evocada por lideranças e políticos evangélicos colhidos em situação escandalosa. O pastor pede uma atitude mais protestante e critica o silêncio da maioria das igrejas, o que para ele sugere cumplicidade: “A omissão dos bons permite que o espaço na mídia, na política e na sociedade seja tomado por pessoas sem representatividade e despreparadas”, avalia. “A quem esses deputados representam?”, questiona.

Na opinião de Isaías Lobão, a Igreja tem abandonado as suas marcas, dentre as quais a disciplina aos que cometem erro. Segundo observa, ao estilo do velho catolicismo, evita-se o debate crítico, numa interpretação equivocada do versículo bíblico que proíbe que se toque nos ungidos do Senhor. “Mas a Reforma protestante tornou o pastor não um sacerdote intocável e infalível, mas um docente, alguém que ensina a Palavra e deve vivê-la”, pondera. “Nossas igrejas, que hoje contam com líderes autocráticos, que não admitem críticas e contestações, precisam ser democratizadas”. Dizendo acreditar que resgatar a ética não é uma batalha perdida, Isaías afirma que isso vai depender da mobilização individual, em todas as denominações, para pressionar as lideranças. E diz ser preciso fugir do pragmatismo fácil da adaptação sem crítica à cultura brasileira. “Falta lastro doutrinário com a Reforma, que coloca a Bíblia como guia de fé e prática”, conclui.

 

Suspeitos preferem o silêncio

Procurados por CRISTIANISMO HOJE através de suas assessorias, tanto o deputado distrital Leonardo Prudente como seu colega Rubens Brunelli não retornaram os contatos da reportagem para comentar o caso. Segundo a comunidade Sara Nossa Terra, Prudente, que apareceu nas imagens gravadas escondendo dinheiro recebido de Durval Barbosa até nas meias, foi da igreja, mas nunca exerceu cargo de liderança lá. Por meio de nota, a denominação declarou repúdio a “todo desvio ético e a toda forma de corrupção”. O texto afirma que, no caso dos religiosos envolvidos no escândalo, “o dano é maior porque cabe a eles ser luz do mundo e sal da terra.”

A Sara Nossa Terra foi fundada pelo bispo Robson Rodovalho, hoje deputado federal por Goiás. Ex-integrante do DEM e atualmente no PP, Rodovalho ocupou o cargo de secretário de Trabalho do governo do Distrito Federal, mas não foi citado no inquérito que acusa o governador José Arruda e vários de seus assessores. Lembrando que o parlamentar não foi implicado “nem indiretamente” nas investigações, sua assessoria de comunicação disse à revista que o bispo “tem compromisso com a Palavra de Deus e com os valores do Reino de Deus”.

Rubens Brunelli, por sua vez, chegou à Câmara Distrital com o apoio da Igreja Casa da Bênção, denominação fundada por seu pai, o missionário Doriel de Oliveira, na década de 1960. Sobre as cenas, a igreja chegou a divulgar que o deputado estava, na verdade, orando pela justiça e contra a corrupção no DF. Segundo o pastor Caio Fábio, D’Araújo Filho, dirigente da igreja Caminho da Graça, em Brasília, Brunelli o procurou para negar que, na chamada “oração da propina”, estivesse agradecendo por ter recebido dinheiro de corrupção.

 

Caixa aberta

 

A Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal (PF), revelou em detalhes como a corrupção se tornou prática comum na política do Distrito Federal. Escutas autorizadas pelo Superior Tribunal de Justiça e transcritas em extenso inquérito mostram o governador José Roberto Arruda (sem partido) negociando abertamente com assessores a distribuição de dinheiro proveniente de contratos superfaturados. Os pagamentos eram feitos pelo então secretário de Relações Institucionais do governo do DF, Durval Barbosa, que colaborou com as investigações em troca do benefício da delação premiada e já operava desde o governo anterior, de Joaquim Roriz.

De acordo com o inquérito, entre os beneficiários do esquema estariam o governador, o vice Paulo Octávio, grande parte dos deputados distritais, incluindo o presidente da Câmara, Leonardo Prudente, além secretários de governo, empresários, donos de jornais e até membros do Ministério Público do DF. Em sua defesa, Arruda, desfiliado do DEM, disse que a aparelhagem da PF estava com defeito. Além das escutas autorizadas, alimentam o escândalo horas de fitas de vídeo gravadas em 2006 pelo próprio Durval. Em resposta à cena em que aparece recebendo R$ 50 mil em espécie, Arruda disse que o dinheiro seria usado para compra de panetones para os pobres.

 

Tragédia anunciada

 

“Deputado, eu quero abençoar a sua igreja e seu trabalho social”. Assim o empresário Darci Vedoin, dono da Planam, e seu filho Luiz Antônio abordavam parlamentares evangélicos em seus gabinetes. E, simpáticos, como quem não quer nada, muitas vezes doavam dinheiro e ambulâncias fabricadas pela empresa. Corria o ano de 2003, e a estratégia do empresário consistia em negociar com parlamentares a inclusão de emendas no Orçamento da União, visando à compra das ambulâncias que fabricava. Para levar a comissão no negócio, os próprios parlamentares se transformavam em agentes da Planam, fazendo lobby junto a prefeitos para que, nas licitações, terminassem por comprar os veículos.

Muitos parlamentares ligados a igrejas aceitaram a “bênção” dos Vedoin. Em 2006, quando explodiu o escândalo, a bancada crente foi atingida em cheio. Para reduzir uma futura pena, o próprio Darci e seu filho entregaram à Polícia Federal e ao Ministério Público uma extensa lista com os nomes dos políticos que entraram em seu esquema. Dos 68 então integrantes da Frente Parlamentar Evangélica, trinta e quatro foram acusados pelo MP de envolvimento com a chamada máfia das ambulâncias. Como numa corrente, um parlamentar havia puxado outro para o esquema. Na época, Damares Alves, que presta assessoria jurídica à bancada, advertiu com insistência os congressistas crentes contra a estranha abordagem dos Vedoin, antes mesmo de saber que o MP estava com o caso na mira. Ao ter confirmadas as suspeitas, Damares reforçou os avisos. “Fiz uma maratona nos gabinetes. Todos os deputados e senadores foram orientados”, lembra.

voltar ao topo