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O Deus por trás do véu

Os caminhos do Senhor estão ocultos aos olhos comuns, mas não aos da fé.

Eu estava sentado no consultório médico com aquela expectativa receosa pelo resultado dos exames a que fora submetido. Encontrava-me, na verdade, convicto de que não havia nada de errado com minha saúde. Na minha cabeça, a causa daquele desconforto físico era, na pior das hipóteses, uma hérnia; quem sabe, melhor ainda, seria apenas uma distensão muscular. O médico finalmente entrou no recinto com aquele tipo de expressão que causa receio. Só pelo tom da voz, percebi a gravidade do que está para ser dito. "Lamento lhe dizer", começou. "Mas encontramos uma grande massa no seu rim direito, e parece cancerígena". A palavra "câncer", com tudo de ruim que lhe associamos, ardeu em meus ouvidos. Meu estômago embrulhou; meu mundo girou, e eu gritei para Jesus. As melhores esperanças de que havia um engano qualquer se dissiparam quando testes posteriores e mais conclusivos determinaram que eu tinha um tipo de câncer muito raro, para o qual não há tratamento conhecido.
Como marido, pai de dois filhos e teólogo cristão, um turbilhão de pensamentos e questionamentos veio à minha mente nos dias seguintes. A notícia sombria me confrontou com o fato de que a minha vida – se eu resistisse muito tempo – iria mudar drasticamente. Qual seria a situação dos meus filhos se crescessem sem o pai? Como minha mulher lidaria com tudo? E, sobretudo, por que Deus permitira que aquilo acontecesse comigo? Onde estava o Senhor no meio de tudo, justamente na hora mais dramática de minha vida? Como seres humanos, embora cristãos, todos nós sentimos a gravidade da vida caindo sobre nossas cabeças em certos momentos, sobretudo aqueles marcados pela dor. As perguntas sobre a existência ou ausência de Deus, que sempre se intensificam diante de tragédias pessoais ou grandes catástrofes – como a tsunami na Ásia, em 2004, ou o terremoto no Haiti, há três anos, ambos com um saldo de centenas de milhares de vítimas inocentes –, remontam ao que os cristãos tradicionalmente têm chamado a transcendência de Deus e imanência. Ou, para usar uma linguagem mais bíblica, sua aparente "revelação" ou não.
O teólogo G.R Lewis escreve sobre a transcendência e imanência de Deus no Dicionário evangélico de teologia: 'Como transcendente, Deus é exclusivamente diferente de tudo na Criação. A distinção de Deus, em sua essência, para o mundo, tem sido implicada em discussões sobre os atributos de Deus, metafisicamente, intelectualmente, eticamente, emocionalmente e existencialmente. Deus é 'escondido' relacionalmente porque ele é tão bom em todas essas outras maneiras. O ser de Deus é eterno; o do mundo é temporal. O conhecimento de Deus é total; o humano, incompleto". Lewis explica essa alteridade do Senhor através de uma série de comparações entre o finito (a história humana e dos seres humanos em geral) e o infinito, ou seja, a natureza eterna de Deus e a vida interior. Em outras palavras, o que nós, os seres humanos, não somos, Deus é. Em sua vida infinita, ele está acima e além de tudo que nós somos como seres finitos.

PERTO E LONGE
Mas se Deus é transcendente, e se os seus caminhos são desconhecidos, como podemos conhecê-lo? Dentro da tradição cristã, várias vozes têm falado sobre tal dilema. Um teólogo medieval católico romano chamado William de Ockham (1285-1349) é conhecido por defender um dualismo em Deus. Por isso, ele afirmou que há duas maneiras de pensar em Deus e entender sua presença entre nós. Ockham argumentou que Deus se comporta de uma maneira em sua vida "transcendental" e de outra em sua existência "imanente", sendo esta interpretada como sua atividade na história humana, principalmente através da encarnação. Assim, se Deus, por vezes, parece-nos distante e reservado, é porque ele pode agir de uma forma muito acima daquela como age quando se revela em Cristo.
O problema com a perspectiva de Ockham é que ele rompe a vida transcendente de Deus com sua vida imanente. Como resultado, Jesus pode não parecer o mesmo Deus que sempre viveu na eternidade. O pensamento dualista dissolve qualquer relação necessária entre o Deus "velado" e o Deus revelado em Cristo. Isso introduz um elemento de ansiedade em nosso conhecimento do Senhor. Se a revelação divina em Cristo não representa verdadeiramente a natureza eterna de Deus, então o envio de seu Filho poderia ter sido um gesto arbitrário. Deus poderia muito bem ter estendido a mão para a humanidade de uma maneira muito diferente, ou simplesmente ter optado por não alcançar a humanidade caída em tudo. E, a qualquer momento no futuro, ele pode agir de infinitas maneiras imprevisíveis. Contudo, se a atividade de Deus no tempo revelado não reflete sua natureza eterna, não podemos ter certeza acerca das palavras de Jesus a Tomé: "Se você realmente me conhece, você vai conhecer meu Pai também. A partir de agora, você vai conhecê-lo e vê-lo" (João 14.7).
Cerca de dois séculos depois de Ockham, Martinho Lutero entendeu as categorias bastante diferentes que ele havia mencionado. O resultado foi trazer a transcendência de Deus, a sua "ocultação", para mais perto da imanência de Deus – a revelação em Cristo. Lutero argumentou que o ocultamento de Deus, ou transcendência, molda a sua atividade em sua imanência, isto é,. em sua vida revelada. Para Lutero, os olhos e ouvidos da fé nos dão contato com a vida transcendente de Deus, o que para os olhos e ouvidos comuns permanecem ocultos. À medida que o profeta Isaías declarou que os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos, e nem os nossos caminhos, os seus, conforme o capítulo 55 de seu livro, podemos vislumbrar o significado profundo disso. Porque os caminhos de Deus são transcendentes e sua manifestação revelada em Cristo é perceptível pela fé, eles permanecem ocultos para aqueles que não creem. Apenas aqueles que caminham por fé, e não por vista, podem discernir os caminhos transcendentes de Deus olhando através da vida de Jesus.
Lutero escreveu que o verdadeira teólogo compreende as coisas visíveis e a manifestação das coisas de Deus "olhando através do sofrimento e da cruz". Para o reformador, o sofrimento suportado no Calvário pelo Salvador mostra que Deus, mesmo na sua transcendência, nos encontra onde estivermos, no meio do nosso próprio sofrimento. Ele nos encontra na humildade da manjedoura, na indignidade da existência terrena e na agonia da cruz. Em todo esse sofrimento, vemos o enviado de nosso Deus transcendente sendo conduzido por amor e graça, cheio de misericórdia e compaixão, e movido por um cuidado insondável pela humanidade.
Thomas Torrance, teólogo escocês do século passado, pegou algo implícito na teologia de Lutero e tornou explícito: não há distinção entre a vida transcendente de Deus e sua vida imanente. Então, quando olhamos para Jesus, nós realmente vemos Deus em plena exibição. Não temos, portanto, que perguntar se pode haver um Deus diferente se escondendo na eternidade. Torrance escreveu neste sentido: "Ele pertence à essência do Evangelho, a de que Deus veio entre nós e se tornou um de nós. Nessa reconciliação, e de uma maneira milagrosa de como demolir as barreiras da nossa distância de criatura e o afastamento dele, nos falou diretamente e intimamente sobre si mesmo em Jesus Cristo, seu amado Filho – em quem ele se fez conhecido por nós como Deus, o Pai Todo-Poderoso, o Criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis, o único Senhor e Salvador da humanidade". Assim, quando nos perguntamos como é Deus na sua transcendente vida distante, temos que perceber, de acordo com Torrance, que ele é exatamente o mesmo Deus que encontramos na face de Jesus Cristo.

OLHAR PARA JESUS
Olhando para o mistério da imanência e da transcendência divinas através dos olhos de alguns teólogos importantes, como é a melhor forma de seguir em frente? Ou o que podemos dizer sobre os momentos na vida em que o sofrimento e a dúvida nos oprimem, justamente aquelas situações em que Deus nos parece ausente, como diante de um diagnóstico irrecorrível ou ante a face sinistra da tragédia? Um bom caminho seria combinar alguns textos de Lutero com todos os de Torrance. Ambos entenderam que, porque Deus é amor em sua transcendente vida interior, ele vem até nós em sua vida imanente revelada. Portanto, Deus é o mesmo Senhor, tanto na eternidade como no reino da história humana. E, porque Deus é amor, ele conhece bem onde estamos, entende nossa miséria e compartilha nosso sofrimento. Ele nos conhece como o servo sofredor, obediente até a morte, e morte de cruz. Portanto, não temos que ir a lugar algum para nos relacionarmos com um Deus como este.
Quando descobri que estava com câncer, eu não sabia as respostas para a maioria das minhas perguntas imediatas. Mas Deus me lembrou, como ele quer lembrar a todos nós, que não é um Deus distante, mas um Senhor que chegou perto de nós e habitou dentro das próprias circunstâncias de nossas vidas. O Senhor quer que confiemos nele com os olhos da fé, acreditando que ele se revela de maneira redentora nas horas mais difíceis e nos nossos mais profundos anseios. Seus caminhos permanecem ocultos para aqueles que não têm fé; porém, os que creem veem a glória de Deus revelada na face de Jesus Cristo. Quando vemos Jesus, vemos o Deus invisível feito visível. Então, olhe para Jesus. (Tradução: Julianne Mendes)

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