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Moeda de troca

Pastores e líderes usam sua influência ideológica e espiritual para obter vantagens políticas.

Já lá se vão pelo menos três décadas desde que a Igreja Evangélica brasileira percebeu que, mais do que orar, era importante atuar politicamente para mudar os rumos do país. Na época da Assembleia Nacional Constituinte, em 1986, muitos pastores perderam a timidez para tratar do tema e orientaram suas ovelhas no sentido de eleger gente afinada com os valores do Evangelho. Foi a época da substituição do bordão “crente não se mete em política” pela máxima “irmão vota em irmão”, cunhada pelo pastor Orlando Pacheco, da Assembleia de Deus. Ele e cerca de 30 outros candidatos apoiados por igrejas chegaram ao Congresso naquele ano, com a promessa de salgar a terra e iluminar as trevas. Se não conseguiu grande coisa além da festejada inclusão do nome de Deus no Preâmbulo da Carta Magna, a representação evangélica passou à história política nacional pela pior via possível, através do chamado Centrão, negociando apoio à emenda constitucional que conferia mais um ano de mandato ao então presidente da República José Sarney (1985-1990) em troca de concessões na área de radiodifusão a grupos evangélicos. Um escândalo.

Desde então, as chamadas bancadas evangélicas só fizeram crescer nas esferas federal, estaduais e municipais. “Desde a redemocratização, as lideranças passaram a trabalhar junto aos fiéis para conquistar eleitores dentro de suas igrejas”, observa o cientista político Tiago Daher Padovezi Borges, da Universidade de São Paulo (USP). A Igreja, definitivamente, passara a ser um ator político. Só que, de lá para cá, aumentou a percepção de que a presença de membros de igrejas, pastores e bispos evangélicos nos parlamentos brasileiros não faz qualquer diferença em termos de ética, honestidade e eficiência na coisa pública. Ao contrário: episódios como o da Máfia das Sanguessugas, escândalo de corrupção protagonizado por congressistas identificados como evangélicos que drenaram recursos destinados à saúde pública, mostram que a luz dos cristãos na política anda bem apagada.

“Os ‘santos’ se corromperam mais do que os ‘ímpios’”, atesta Saulo de Tarso Cerqueira Baptista, doutor em Ciências da Religião e professor da Universidade do Estado do Pará. “Dos envolvidos na quadrilha que tinha como objetivo desviar dinheiro público do Sistema Único de Saúde, há oito anos – um dos maiores casos de corrupção da história do Parlamento brasileiro –, cerca de 63% da chamada bancada evangélica se corromperam”. No Congresso, como um todo, 37% dos parlamentares enfiaram o pé na lama. É nessa linha, continua Saulo, que a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) geralmente age.

“DEMOCRACIA SOLAPADA”

CRISTIANISMO HOJE encaminhou ao presidente da Frente Parlamentar Evangélica, deputado Paulo Freire (PR-SP), bem como à sua assessoria, um questionário sobre como o grupo atua nesses casos e que tipo de sanção ou disciplina é imposta aos deputados ou senadores do grupo que se envolvam em casos de corrupção, mas não obteve resposta até o fechamento da edição. O próprio Freire é um dos deputados que tiveram seu nome envolvido no esquema conhecido como Máfia do Asfalto, que desviou recursos federais destinados a obras em seu estado. Dados coletados pela ONG Transparência Brasil revelam que 32 deputados federais ligados ao grupo parlamentar dos crentes sofrem processos por sonegação fiscal, formação de quadrilha, peculato, corrupção eleitoral, improbidade administrativa, falsidade ideológica e rejeição de contas de campanhas eleitorais, tanto na Justiça comum como na Eleitoral.

Criada em setembro de 2003, a FPE é formada por membros de diversas igrejas e partidos políticos, e tem feito barulho no Parlamento brasileiro na defesa de posições ligadas a temas morais e de família. Mas o grupo não foge à regra do Congresso Nacional quando o assunto são denúncias de má conduta. Há acusados de corrupção, peculato (desvio praticado por servidor público), crime eleitoral, uso de documento falso, lavagem de dinheiro e estelionato. De acordo com Eduardo Lopes Cabral Maia, doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e professor na Universidade Federal de Santa Maria (RS), é difícil medir o quanto a atuação religiosa no Congresso reforça ou fragiliza o amadurecimento da democracia. Para Maia, o barulho das bancadas religiosas em temas polêmicos é maior do que seu tamanho efetivo permitiria. “Os evangélicos não têm capacidade de determinar os processos políticos. Dependem da mobilização de outras forças, como os próprios católicos”, explica. “As igrejas (em particular a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular e a Assembleia de Deus) passaram a racionalizar os processos de indicação de candidaturas a cargos eletivos e transformaram a disputa política em um importante componente de sua orientação organizacional.”

Segundo o estudioso, no momento em que a dimensão política passa a sobrepor-se à religiosa, a ética perde parte de sua força. “O problema reside na formação de clientela eleitoral por parte de líderes religiosos e no condicionamento do voto dos fiéis através da manipulação da crença e dos símbolos religiosos”, explica. “Muitas vezes, os fiéis não têm consciência de que estão sendo induzidos a votar em representantes que, em outras condições, não seriam sua opção de voto”. “Quando uma igreja organiza seus membros para votar em candidatos de sua escolha, ela passa a funcionar como se fosse um partido político”, continua Saulo Baptista. “E quando a igreja distribui seus candidatos por diversas legendas, ela estimula os mesmos a não respeitarem a fidelidade partidária. Perde-se, portanto, a possibilidade de fortalecer os partidos, que representam concepções distintas de organização da sociedade, assim como um importante espaço de educação política e de fortalecimento da democracia. Enfim: igrejas que assim procedem estão solapando o processo democrático brasileiro.”

PÚBLICO X PRIVADO

O fato de haver políticos crentes respondendo a inquéritos e processos não é, em absoluto, prova de culpa. O teólogo e pastor batista Lourenço Stelio Rega, da Faculdade Batista de São Paulo e especialista em ética cristã, observa que não se pode condenar a ninguém antecipadamente. “Essa é uma prática brasileira deplorável, responsável por inúmeras injustiças”. Mas ele critica o abuso de poder nas igrejas: “Se quem paga a conta é quem manda, então quem pagará a conta do candidato é que vai mandar e transformar o político em seu cabresto na hora de votar um projeto ou de exercer a administração pública”, atesta. “As elites religiosas demonstram seguir a lógica do domínio do poder privado sobre a coisa pública”.

Quando há muito dinheiro em jogo, os interesses aumentam em escala geométrica. As igrejas evangélicas, junto com a Católica, movimentam, por ano, cerca de R$ 20 bilhões, de acordo com a Receita Federal, sendo que 72% desse montante são oriundos de doações – leia-se dízimos e ofertas. De acordo com Alberto Carlos Almeida, diretor do Instituto Análise, entidade especializada em pesquisas e análises conjunturais brasileiras, os políticos ligados a elas são beneficiados com esses recursos: “Parte desse dinheiro é usada para financiar campanhas eleitorais. É só reparar no aumento dos candidatos evangélicos e no fato de mesmo os que não são evangélicos cortejarem as igrejas nas campanhas.”

Quanto custa o voto dos crentes? O apoio do rebanho eleitoral tem sido negociado por valores que vão do dinheiro em espécie a pequenas vantagens ou favores no varejo. “Em época de eleição, somos procurados por muitos candidatos que se apresentam evangélicos”, diz Dermeval dos Santos Telles, missionário da igreja Assembleia de Deus Ministério Pentecostes, de Guarulhos (SP). “Já recebi ofertas que vão de dinheiro a material de escritório, tudo por alguns minutos de apresentação no culto ou uma oração diante da congregação. Nas últimas eleições, um vereador disse que, se a igreja ‘fechasse’ com sua candidatura, ele nos conseguiria um terreno maior”, conta. A tradicional mistura entre interesses privados e recursos públicos costuma ser menos exceção do que regra. Quando governador do Rio de Janeiro (1999-2002), o hoje deputado federal e novamente candidato ao Palácio Guanabara Anthony Garotinho (PR) foi acusado de usar um programa de distribuição de renda do estado para comprar votos evangélicos. O Cheque-Cidadão destinava cem reais mensais a pessoas carentes e chegou a ter mais de 100 mil famílias beneficiadas, estendendo-se pelo governo da sucessora e mulher de Garotinho, Rosinha Matheus, ambos ligados à Igreja Presbiteriana. O que chamou a atenção, na época, foi a montagem de uma ampla rede de igrejas credenciadas a cadastrar os participantes do programa. O governo explicou que a ideia era aproveitar a capilaridade das congregações para facilitar a descentralização na concessão do benefício, mas muitos beneficiados revelaram que sofriam constrangimento, por parte dos pastores e líderes, para frequentar os cultos – além de haver denúncias de tentativa de indução ao voto.

Responsável pela administração do programa, o pastor Everaldo Dias Pereira, subsecretário do Gabinete Civil de Garotinho, hoje é candidato à Presidência da República pelo PSC. Ele tinha, no início de julho, cerca de 4% das intenções declaradas de voto – irrisórias para levá-lo ao Planalto, mas suficientes para lhe dar muito poder de fogo nas negociações políticas. “Ele vai ser um cara forte no segundo turno”, declarou à revista Época o pastor Silas Malafaia, dirigente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC).

O eventual crescimento de Everaldo nas pesquisas de voto, além da possível formação de um blocão evangélico de apoio à sua candidatura, pode prejudicar os planos de reeleição da presidente Dilma.

Estranhamente, Everaldo não conta com o apoio de igreja de que faz parte, a Assembleia de Deus. Por outro lado, o maior adversário de Dilma, Aécio Neves (PSDB), também não goza de muito prestígio no arraial dos crentes. O presidente do Conselho Político da Assembleia de Deus, maior igreja brasileira em número de fiéis, o pastor Lélis Marinhos, diz que a imagem de bon vivant do tucano pode atrapalhar.  “Aécio não comunga do modo de vida pregado por nós”, afirma. “A igreja é muito conservadora. Qualquer fato que destoe disso é considerado desvio de conduta, que não indicamos aos fiéis.”

“O líder religioso possui uma aura mística que lhe é dada pela comunidade. Sua palavra tem um peso revestido de sacralidade”, opina o pastor Elienai Cabral Junior, da Igreja Betesda de São Paulo. “Se ele a usa para outros fins que não o sacerdócio, corrompe sua vocação. O sacerdócio tem de ser um exercício desprovido de qualquer troca”. Ex-assessor do pastor e deputado distrital Peniel Pacheco (PDT), ele lembra que o gabinete era procurado por crentes com as mais diversas solicitações. “Pediam cópias de cartazes para eventos, camisetas, lotes de terreno e até pão e salsicha para as festas das igrejas”. As recusas contrariavam bastante os pastores. Ele lembra o caso de um pastor que pediu a Peniel passagens aéreas para ir a um congresso evangélico. Como não conseguiu, o pastor foi atrás de outros parlamentares. “Pouco tempo depois, ele passou novamente exibindo os bilhetes e perguntando: ‘O deputado não quer mais ser eleito, é isso?’”

“A ênfase que a atual campanha evangélica toma, com maior referência a temas morais, faz com que a vida privada dos parlamentares ganhe maior importância”, avalia o pastor presbiteriano André Mello. “Nos Estados Unidos, os escândalos sexuais e os divórcios derrubam lideranças políticas evangélicas; no Brasil e na América hispânica, são os escândalos financeiros que minam lideranças”. Segundo ele, quando o púlpito vira palanque, ambos se tornam “perfis invadidos” – “Nem o pregador anuncia o Evangelho, nem o político é coerente com a sua fé. Perdem ambos”.

Para o pesquisador Saulo Baptista, erra quem enxerga apenas os problemas na atuação da bancada das igrejas. “Quando alguém me pergunta se a Frente Evangélica no Congresso não tem virtudes, afirmo que sim. Por exemplo, quando defendem programas de combate às drogas, quando são a favor do desarmamento e contra a pena de morte, bandeiras em benefício da população brasileira”, defende. Não se pode, contudo, agir com ingenuidade, conclui – “Mesmo a maioria de evangélicos eleitos é uma espécie de oligarquia das igrejas e denominações que os escolhem para serem parlamentares. Muitos deles, ou seus grupos, manipulam o poder interno de suas igrejas, o que descaracteriza qualquer esforço democrático.”

Cabresto crente

. 19% dos evangélicos dizem que a indicação da autoridade religiosa é “determinante” para seu voto

. 8% é o mesmo percentual entre os católicos

. 1% dos espiritualistas admitem seguir a orientação do líder religioso nas urnas

Fonte: Estudo Eleitoral Brasileiro (CESOP/DataUFF)

Luz apagada

. 95% dos parlamentares evangélicos estão entre os mais faltosos do Congresso Nacional

. 87% deles tiveram seus mandatos considerados menos expressivos, em termos de produtividade e propostas

. 63% dos integrantes da Frente Parlamentar Evangélica têm problemas com a Justiça ou são investigados por irregularidades

Fontes: Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar e Transparência Brasil

Política de Deus

Ao longo da história, diversos políticos usaram o poder e a ética cristã para empreender mudanças sociais significativas. Nascido numa família nobre, o inglês William Wilberforce fez de seu mandato no Parlamento britânico, no fim do século 18, uma cruzada pela abolição do tráfico de escravos. Convertido na juventude, ele abdicou da carreira ministerial para se dedicar à vida pública. “Meu negócio está no mundo, e é necessário que eu me misture nas assembleias dos homens para exercer o cargo que a Providência me impôs”, escreveu. Wilberforce usou sua influência política para criar escolas cristãs para os pobres, reformar as prisões, combater a pornografia e promover a liberdade religiosa no Império Britânico. Quando o comércio negreiro foi finalmente abolido, em 1806, ele foi demoradamente ovacionado por seus colegas parlamentares.

Político, estadista e ministro reformado, o holandês Abraham Kuyper (1837-1920) foi chefe de governo de seu país no início do século 20 e empreendeu profundas intervenções na sociedade, como a universalização do direito ao voto, o combate às injustiças sociais e a consolidação de uma legislação trabalhista mais justa. “O que importa não é a influência que temos agora, mas a que teremos daqui a 50 anos. Quantos da próxima geração serão seguidores dos nossos princípios?”, dizia.

Idas e vindas

São históricas as ligações entre líderes evangélicos brasileiros e políticos. Na histórica eleição de 1989, o então candidato à Presidência Fernando Collor de Mello obteve apoios dos mais variados, desde a liderança da Assembleia de Deus à Igreja Universal de Edir Macedo. O bispo previu que Collor faria um “excelente governo” e transformou seus templos em verdadeiros comitês de campanha, com distribuição de santinhos e bandeiras, em flagrante desrespeito à legislação eleitoral. Nas eleições seguintes, a Universal sinalizou apoio ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, a quem, cinco anos antes, Macedo chamara de “comunista ateu”. O objetivo era arrefecer as investigações que a Receita Federal fazia contra a igreja. Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, candidato do governo Itamar Franco, venceu a eleição.

Presença em igrejas, sistemas de rádio e televisão e aparições públicas ao lado de candidatos constituem o repertório eleitoral de pastores e líderes. O pastor Manoel Ferreira (PPB-RJ), candidato ao Senado em 2002, levou o tucano José Serra, candidato ao Planalto, ao púlpito da igreja sede da Convenção de Madureira da Assembleia de Deus para que falasse a 2,5 mil pastores. No mês de julho do mesmo ano, houve uma reunião em São Paulo em que diversos setores da Igreja Evangélica declararam voto ao candidato Anthony Garotinho, crente presbiteriano.

O pastor Silas Malafaia, em 2002, apoiou Serra no primeiro turno, mas migrou para o PT quando a vitória de Lula se mostrou inevitável. Quatro anos depois, apareceu no programa eleitoral petista, conclamando os evangélicos para que reelegessem Lula. Midiático e dirigente do grupo Central Gospel de Comunicação, Malafaia tem seu apoio disputado, a cada eleição, por candidatos de dentro e de fora da igreja. Este ano, embora dois crentes – Garotinho e o ex-ministro da Pesca Marcelo Crivella, do PRB – concorram ao governo do Rio, o pastor anunciou seu apoio, inicialmente, ao petista Lindbergh Farias. No início de junho, contudo, Malafaia disse que se manteria neutro na disputa por conta de desavenças com o PT.

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