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A casa de Schaeffer não é mais a mesma

Celebrizada por sua importância para o protestantismo contemporâneo, L'Abri mudou e tem à sua frente novos desafios.

A localização não poderia ser mais privilegiada. Incrustada nos Alpes suíços, L’Abri oferece aos seus estudantes e freqüentadores uma visão deslumbrante de montanhas cobertas de neve, vales salpicados de verde e céu de um azul profundo. Para se chegar lá, é preciso atravessar uma estrada que serpenteia desde a cidade de Aigle, um trajeto daqueles de embrulhar o estômago. O isolamento, proposital, é um convite à reflexão. Com três andares construídos em madeira de pinho escura, o chalé principal ostenta flores nas janelas e uma deliciosa combinação de móveis rústicos, tapetes, lareiras e salas aconchegantes. Quem não esteve fora do mundo evangélico nos últimos 50 anos sabe que aquele espaço idílico é muito mais do que um centro de estudos cristãos. A casa onde Francis Schaeffer viveu e trabalhou testemunhou o florescimento de uma das mais interessantes experiências do protestantismo contemporâneo. Hoje, contudo, seu público é bem diferente dos filósofos céticos e dos jovens idealistas que freqüentaram o lugar enquanto Schaeffer viveu. Reflexos da Igreja Evangélica do século 21, os novos alunos de L’Abri sobem os Alpes em busca de significado para suas vidas. Quem chega lá se depara com o que L’Abri se tornou: uma comunidade ambivalente a respeito do legado de Schaeffer, cansada e adoentada com a cultura evangélica fundamentalista.

Meio século após a criação de L’Abri e mais de 24 anos depois da morte de seu fundador, os estudantes trazem questionamentos bem diferentes das primeiras gerações de hóspedes da casa – e olham com desaprovação a fé politizada que os escritos de Schaeffer ajudaram a criar. A jornada espiritual sempre foi prioridade para aqueles que chegam à L’Abri, nome cujo significado (“O Abrigo”) já diz tudo. A rotina diária mudou pouco durante os anos, uma combinação de interação comunitária e estudos privados estipulada para facilitar o crescimento pessoal. Tarefas ocupam metade do dia e os estudantes passam a outra metade lendo, assistindo aulas, participando de debates e ouvindo palestras gravadas na Farel House, o chalé utilizado como a capela de L’Abri e que hospeda uma biblioteca.

Ex-alunos de décadas passadas que visitam o local percebem a mudança. “As pessoas que estão aqui agora são mais superficiais” diz Kyle McCormick, que esteve lá pela primeira vez em 1982. Os monitores e funcionários, muitos dos quais estão ali desde os tempos em que Schaeffer, visto como uma espécie de guru, sentava-se naquelas poltronas rodeado de discípulos, concordam que a ênfase mudou para assuntos mais pessoais. Nos encontros que realizam para instruir os estudantes, eles encontram dificuldade em trazer os jovens para fora de suas próprias mentes – o que, nestes tempos de individualismo espiritual, parece cada vez mais difícil.

 

“Espiritualidade pessoal” – Os estudantes se apertam sentados no chão com as pernas cruzadas e dividem histórias sobre seus romances passados, paqueras e relacionamentos que não deram certo. Essa atmosfera de festa do pijama geralmente acaba após um mês do começo do semestre, quando o pessoal se equilibra e começa a confrontar as reais razões de deixar de lado a segurança da família, a escola e o trabalho para passar uma temporada em L’Abri. Então, os alunos hóspedes começam a questionar sua fé – ou a falta dela – por meios bem diferentes da apologética de Francis Schaeffer. Os poucos que leram qualquer um de seus livros o consideram obsoleto. A filosofia moderna, alvo de muitos escritos de Schaeffer, e o existencialismo parecem ultrapassados. “Agora a questão é: existe alguma verdade?” indaga o canadense Thomas Rauchenstein.

A crítica pós-moderna à verdade é mais um fator no pensamento dos estudantes. Chris Martin, de 23 anos, ouviu falar de L’Abri quando estava em seu primeiro ano na Universidade da Carolina do Sul. Seu perfil é semelhante ao de milhões de outros jovens americanos – de família evangélica, Chris sentia-se paralisado pelas expectativas depositadas nele enquanto estava em casa. Seu papel como líder no ministério estudantil não deixava tempo livre para que ele compreendesse suas próprias dúvidas espirituais. Quando chegou a L’Abri no ano passado, na última primavera, recebeu a indicação para ler o livro O Deus que se revela, uma das mais celebradas obras de Schaeffer, escrita em 1972. Não ficou impressionado: “Schaeffer fez muitas afirmações, mas não tinha base para muitas”, critica. “Ele era muito didático”.

Acontece que nem Chris nem a maioria dos estudantes da nova geração de L’Abri sabem exatamente o que querem obter da experiência de passar pelo menos seis meses nos Alpes suíços. Encontrar alguma autenticidade parece-lhes mais importante do que vencer debates com intelectuais seculares ou fazer digressões acerca do trabalho de grandes pensadores cristãos. Apesar de a maioria se apegar firmemente aos valores sociais conservadores, eles se entristecem com aqueles que assumem que sua fé é ligada a uma posição política prescrita. “Não quero ser rotulada de garota branca americana que vota no Bush”, resume outra estudante da última temporada de L’Abri, Amélia Hendrix, filha de pastor. Paradoxalmente, uma das maiores críticas que se faz hoje ao legado de Francis Schaeffer é à suposta instrumentalização teórica que ele teria fornecido à direita religiosa americana. Coisa que muitos questionam.

 

Contracultura – Pouco tempo após a chegada de Francis e Edith Schaeffer à Suíça, em 1948, como missionários enviados pela Junta das Igrejas Presbiterianas Bíblicas dos Estados Unidos, sua filha mais velha, Priscilla, trouxe para casa amigos universitários que queriam conversar com seu pai sobre religião. A hospitalidade de Edith e a disposição de Francis em responder questões que muitos cristãos evitam logo se espalhariam. O número de visitantes cresceu em proporções geométricas. Assim nasceu L’Abri, em 1955, um tempo em que a fé cristã experimentava certa estagnação – mas a casa dos Schaeffer cumpriria um papel importante na mudança daquele quadro. Entre a criação do espaço e o início dos anos 1970, o ministério atraiu jovens europeus, estudantes de filosofia moderna e existencialismo, bem como mochileiros americanos de passagem pela Europa.

“Naquela época, você encontrava um temperamento de contracultura ali”, define Ronald Wells, professor emérito de Calvin College, que visitou L’Abri no fim dos anos 1960 por três vezes. Schaeffer acreditava que um verdadeiro espírito cristão exigia que ele e Edith recebessem em sua casa jovens que tentavam enquadrar a Bíblia com Sartre e Kierkgaard, e admitia que poderia aprender com eles. A coisa cresceu tanto que chamou a atenção de outros visitantes, digamos, mais profanos. Timothy Leary, ícone da contracultura e divulgador dos supostos benefícios espirituais do LSD, visitou a comunidade duas vezes.

Só que a atmosfera de L’Abri mudou enquanto a popularidade de Schaeffer crescia entre os evangélicos americanos. Em 1965, Harold O. J. Brown, naquela época pastor na Park Street Church em Boston, convidou-o para uma série de palestras no Wheaton College. As conferências foram totalmente diferentes de tudo o que a audiência havia ouvido antes. Usando seu famoso diagrama para traçar o declínio do Ocidente, Schaeffer citou pensadores diversos, como Leonardo da Vinci e Karl Barth, em uma narrativa confiante de que procurava demolir a filosofia secular moderna e promover o Cristianismo. “Ele falava sobre cineastas como Fellini e Bergman numa época em que Wheaton pedia que seus estudantes não assistissem filmes”, destaca Greg Laughery, atual diretor do L’Abri.

A fama de Schaeffer crescia. Ele passava cada vez mais tempo proferindo palestras na América, emplacando seus livros nas listas dos mais vendidos e, quando podia retornar à Suíça, passava tempo entretendo uma multidão de peregrinos. Nessa fase, envolveu-se numa grande frente “pró-vida” e contra a prática do aborto, então legalizado nos EUA, e de combate ao homossexualismo – temas que logo foram encampados por grupos conservadores como a Maioria Moral de Jerry Falwell, processo que Schaeffer definiu como “co-beligerância”.

 

Guinada conservadora – Na metade da década de 1970, a dinâmica de L’Abri já havia mudado radicalmente.  “Estudantes argumentavam muito com ele nos primeiros dias”, lembra John Sandri. Ele casou-se com Priscilla após ter sido convidado por um amigo em comum para visitar os Schaeffer. “Mas depois, você fazia uma pergunta e recebia um monólogo de quarenta minutos. Não era mais possível argumentar”. Os antigos seguidores se distanciaram dele durante os últimos anos de sua carreira, justamente o tempo onde ele demandava fervorosamente sua lealdade.

O processo de afastamento acirrou-se quando Schaeffer começou a fazer conexões com políticos conservadores. Em 1974, seu filho Frank o persuadiu a colaborar com uma série de documentários. Após o grande sucesso do filme Como devemos viver então?, de 1977, Schaeffer continuou com seu padrão de aparar as arestas dos eruditos e dar novo formato à história para apoiar seus próprios argumentos. No início de 1980, ele contratou John Whitehead, fundador do Instituto Cristão Rutherford, para pesquisar um livro sobre a base cristã da América. O resultado foi historicamente dúbio, mas muito influente, sob o título Manifesto cristão.

Lançado em 1981, apenas três anos antes de sua morte, o trabalho foi decisivo para consolidar a idéia de que o pensador progressista, festejado por suas idéias arrojadas acerca da fé cristã, dera uma guinada. Schaeffer foi ultrajado pelos historiadores evangélicos que recusaram apoio à afirmação do livro de que os “pais fundadores” agiram explicitamente com motivações cristãs. Àquela altura, o célebre pensador se tornara um paladino da chamada moral e bons costumes. Os colaboradores mais próximos preocuparam-se com o rumo político que seu líder tomara. “Conversei com Schaeffer sobre seu apoio à guerra da Maioria Moral. Na minha perspectiva, aquilo foi um erro”, lembra Laughery. Já o genro John Sandri, que ainda mora com a mulher em L’Abri, cansou-se de discussões como a da inerrância bíblica, tema que apaixonou Schaeffer por tantos anos. “Não sou a favor da inerrância, mas também não sou a favor da ‘errância’. Ambas estão erradas. O homem os torna pontos de vista opostos, mas a agenda moderna apóia ambas.”

Legado incerto– Tal visão não-ortodoxa é uma imagem do que L’Abri se tornou. Hoje, parece não haver mais utilidade para a pressuposta apologética de Schaeffer, a do “Cristianismo ou nada”. Colabora para o questionamento de seu legado o livro Crazy for God (“Louco por Deus: Como eu cresci como um dos eleitos, ajudei a fundar a direita religiosa e vivi para retirar tudo – ou quase tudo – que disse”), escrito por ninguém menos que filho e braço direito de Schaeffer, Frank, e lançado ano passado. Como o título sugere, a obra provocou um verdadeiro terremoto no legado de Francis Schaeffer. No melhor estilo mea culpa, Frank renega uma série de postulados espirituais pelos quais se bateu anos a fio e faz uma dura crítica ao movimento político que, na sua opinião, o pai ajudou a criar.

“Como análise geral, o livro pode ser visto como uma crítica ao estilo de vida evangélico, já que Frank assume ao final como deixou a religião dos pais e vive uma espécie de espiritualidade ortodoxa em que percebe Deus nos fatos da vida, nos erros e acertos, sem qualquer tipo de dogmatismo”, observa o pastor batista Guilherme de Carvalho, mestre em Teologia e em Ciências da Religião. Ele firmou parceria para implantar o L’Abri no Brasil, projeto que já está em andamento (ver quadro). Guilherme considera um grande erro descartar as idéias de Schaeffer in toto, como se elas de fato fossem a origem de seu apoio ao fundamentalismo americano. Quanto ao conteúdo do livro de Frank, o pastor critica seu estilo sensacionalista. “O excesso de denúncias de faltas de pessoas próximas, sobretudo dos pais, desloca o eixo do livro e fortalece o estigma de que o filho sempre gravitou em torno da obra de Schaeffer.”

“Schaeffer foi um homem que viveu à frente de seu tempo. Sua análise crítica da cultura e da sociedade da sua época continua relevante e atual”, defende o professor Augustus Nicodemus Lopes, pastor e chanceler do Instituto Presbiteriano Mackenzie, de São Paulo. Segundo ele, o mérito de Schaeffer foi ter percebido como poucos os efeitos a longo prazo, no Cristianismo e na sociedade global, da pós-modernidade, que começou a se manifestar em seus dias. “Os temas aos quais Schaeffer se dedicou e sobre os quais escreveu são os mesmos que estamos discutindo hoje, como ecologia, ética na tecnologia, globalização, pluralismo e relativismo. Todos que buscam hoje uma análise social e cultural crítica consistente, justa e inteligente, do ponto de vista evangélico, encontram nas obras de Schaeffer um apoio inestimável”, avalia.

O pastor Caio Fábio D’Araújo Filho, dirigente da Comunidade Caminho da Graça, reconhece que foi bastante influenciado por Schaeffer no início de sua formação. “Li seu livro A morte da razão, que trata da queda do homem e suas conseqüências universais, em 1975. Na época, o tema estava muito presente e relacionado a questões filosóficas básicas.” O pastor ressalta ainda a influência de Schaeffer no Congresso Mundial de Evangelização, realizado em Lausanne, ali mesmo na Suíça, em 1974 – evento que lançou as bases do evangelicalismo, cuja ênfase principal é a missão integral da Igreja. Embora considere que o movimento de L’Abri tenha sido o “salvador dos filhos dos crentes americanos ricos em crise”, Caio acha injusto atribuir a Schaeffer um papel decisivo na formação da direita cristã dos EUA.  “O que ele deu àquele segmento foi um emblema novo: era o Schaeffer dos hippies que passou a falar contra a eutanásia e outros temas da direita na América; e que propunha piquetes e barricadas na frente das clínicas de aborto”, sustenta.

Para os poucos que chegam a L’Abri hoje, contudo, a comunidade ainda conserva algo de sua aura marginal – ou, ao menos, trata-se de uma etapa importante na busca pessoal por algo que quase nenhum dos estudantes sabe exatamente o que é. “L’Abri continuará a existir enquanto a Igreja Evangélica colocar à margem tantos jovens”, sintetiza John Sandri. “Noventa por cento dos que vêm aqui dizem: ‘Eu creio nas coisas certas, mas minha fé não é real’”.

 

(Tradução: Karen Bomilcar; redação e adaptação: Carlos Fernandes)

 

 

L’Abri no Brasil

Fruto de uma parceria com o Conselho Diretor da L’Abri Fellowship International, o projeto de lançar no Brasil uma filial da entidade já está em andamento. O representante no Brasil é o pastor e professor Guilherme de Carvalho, que passou uma temporada de treinamento na Europa, onde conheceu não apenas o L’Abri suíço, como os da Inglaterra e da Holanda. “A partir daí, recebemos a incumbência de iniciar um centro de referência destinado a promover cursos, mentoria para estudantes e profissionais e aconselhamento, além de organizar retiros e conferências”, descreve Guilherme.

O projeto está sendo desenvolvido em Belo Horizonte (MG). “Estamos constituindo a nossa estrutura; não temos ainda um lugar para centralizar as nossas atividades. Mas todos os L’Abris começaram assim”, explica, acrescentando que, tão logo haja condições de adquirir uma propriedade, será montado um centro residencial que possa receber pessoas por longos períodos. “L’Abri Brasil será, como todos as outras unidades ligadas à instituição, estritamente interdenominacional, aberto a cristãos de todas as confissões e também a pessoas que não praticam nenhuma religião”, explica o pastor.

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