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Braços abertos, portas fechadas

Governo etíope dificulta processos de adoção de crianças por famílias estrangeiras, acarretando graves problemas sociais.

O primeiro milagre de Trevor e Marlene Janzen demorou nove meses para se concretizar. Para o casal de Saskatchewan, no Canadá, esse parecia ser o tempo natural de espera por um bebê. Eles adotaram o primeiro filho, Eyob – nascido na Etiópia – em 2005. Apesar de já terem passado pelo mesmo processo antes, a segunda adoção levou o dobro de tempo: dezoito meses depois, os Janzen deram as boas-vindas a Sofoniyas, em 2007. Mas eles queriam mais um membro para a família. "Esperamos e esperamos", lembra Marlene. Em maio de 2011, eles voltaram a Addis Ababa, a capital etíope, para buscar a pequena Biruktawit. O processo chegou ao fim depois de quatro anos.


Há muito considerado um dos países com maior facilidade para adoção, a Etiópia se encontra em meio a mudanças dramáticas que tornam a adoção de crianças por estrangeiros bem mais difícil, demorada e cara do que no passado recente. O governo afirma que as novas regras vão garantir a legitimidade de tais adoções. Mas críticos, inclusive muitos pais adotivos, alegam que as novas políticas só prejudicam as crianças que precisam de uma família, já que a demora pode desanimar os candidatos à adoção, inclusive aqueles que usam os serviços de agências especializadas. Desde que começou a facilitar as adoções na Etiópia, a Holtz International, situada no Oregon (EUA), integrou mais de 500 órfãos em lares norte-americanos. No ano passado, a organização parou de aceitar os pedidos. "Já existem famílias esperando tempo demais", atesta Susan Soon-keum Cox, vice-presidente da Holtz para políticas públicas e assuntos externos. Tais complicações fizeram com que os números de adoções internacionais por famílias americanas caíssem ao nível mais baixo desde 1994.


Uma das primeiras crianças adotadas por famílias de outros países, Suzan foi levada da Coreia do Sul para os Estados Unidos em 1956. Desde então, os americanos adotaram cerca de 250 mil crianças estrangeiras. Ao longo dos anos, houve mudanças nesse fluxo – uma delas, causada pelo crescimento de nações outrora empobrecidas, como Rússia e China, de onde saíam milhares de crianças adotadas. Com isso, agentes de adoção da Etiópia preencheram essa lacuna. Segundo país mais populoso da África, a Etiópia chegou a enviar cerca de 3 mil órfãos para o exterior em 2004. Só as famílias americanas adotaram 1,7 mil crianças etíopes em 2011, e centenas de outros órfãos foram para famílias do Canadá, Europa, Austrália e África do Sul.


O rápido aumento do número de adoções de crianças da Etiópia – e dos recursos captados em taxas pelas agências envolvidos em cada caso – deu origem à corrupção. Investigadores mostraram casos em que famílias biológicas eram pagas e enganadas para entregar seus filhos. Várias agências de adoção cristãs estavam envolvidas em atividades ilegais. No início do ano passado, o Ministério da Etiópia para Assuntos da Mulher decidiu apertar o freio. O órgão anunciou uma redução de 90 por cento no número de casos que iriam analisar – procedimento indispensável antes que qualquer pessoa possa levar uma criança para fora do país.


Os novos regulamentos determinam que todos os órfãos e crianças abandonadas sejam levados primeiro para um lar patrocinado pelo governo, ao invés de uma das dezenas de orfanatos privados espalhados pelo país. Pelo menos 26 dessas instituições foram fechadas, e mais 20 podem fechar nos próximos meses. Acontece que muitas dessas casas costumavam manter relações diretas – e suspeitas – com agências de adoção ocidentais. "Às vezes, essa espera é necessária para assegurar aos pais estrangeiros que não há nenhuma família etíope interessada na mesma criança", explica Suzan Cox.

 

PROCESSO PENOSO


Uma oficial de adoção, que pediu anonimato à reportagem, disse que o governo não tem interesse em encerrar as adoções internacionais. Mas afirmou que mandar crianças para fora do país não é a solução "preferencial". Segundo a fonte, muitos funcionários temem liberar as adoções para estrangeiros temendo que as crianças acabem sendo maltratadas. Há bons motivos para essa desconfiança, diante de relatos de que casais ocidentais adotam crianças africanas para trabalharem como ajudantes domésticas. Não é difícil encontrar casos em que os responsáveis pela guarda tenham abusado de crianças etíopes adotadas. Em setembro, a polícia prendeu Larry e Carri Williams por ligação com a morte de sua filha de treze anos, adotada na Etiópia. A menina morreu fora de sua casa, no estado de Washington, pouco depois da meia-noite, a uma temperatura próxima de zero grau. A Justiça acusa o casal de forçar a adolescente a dormir do lado de fora da casa. Além disso, há suspeitas de que ela recebia alimentação inadequada e era frequentemente trancada em um armário durante dias, submetida a uma gravação de trechos da Bíblia.


"Tais casos são raros, mas são situações que geram manchetes e acabam por contribuir com a crença de que os americanos sempre fazem isso", diz Gail Gorfe, que durante quinze anos conseguiu arrumar centenas de lares para órfãos através da entidade Adoption Advocates International ("Defesa da Adoção Internacional"). Por isso, o governo etíope tem preferido que os órfãos fiquem com outros membros de suas famílias biológicas. Porém, esses familiares muitas vezes se recusam a assumir a guarda, simplesmente porque não podem arcar com o sustento de mais uma pessoa – assim, a demanda é sempre muito maior do que o número de adotantes interessados no país. Milhares de órfãos, na realidade, ficam em abrigos até a maioridade.

 

"DISTORÇÃO"


As Nações Unidas estimam que cerca de cinco milhões de crianças da Etiópia tenham perdido um de seus pais, ou ambos, devido a doenças como a malária e a Aids, verdadeiros flagelos africanos. Muitos outros bebês nascem em famílias carentes, sem condições de cuidar deles. O resultado pode ser visto nas ruas de Addis Abeba e outras grandes cidades etíopes, onde milhares de crianças perambulam sozinhas.


No Orfanato Kidane Mehret, em Addis Ababa, a irmã Lutgarda Camilleri disse que os novos regulamentos ajudam seu trabalho. No entanto, ela apoia as metas do governo para assegurar a confiança no sistema. Mas as mudanças trouxeram consequências involuntárias para seu orfanato, que cuida de 150 crianças – muitas das quais são consideradas "impossíveis" de adotar, em virtude da idade ou de problemas de saúde. As novas regras do governo resultaram em uma menor quantidade de recém-nascidos recebidos no Kidane Mehret, o que diminui o interesse por parte dos possíveis pais em todo o mundo, já que existe muito mais facilidade em conseguir lares para bebês. E, como consequência, há menos suporte para a maioria das crianças mais velhas, que acabam rejeitadas.


"Quando tínhamos bebês, as pessoas vinham aqui. E acabavam apadrinhando as crianças mais velhas", revela Lutgarda. "Nesse momento, temos três crianças que são irmãs; eles têm oito, 13 e 15 anos e precisam ser adotados juntos. Mas quem vai querer adotar uma criança de 15 anos com Aids?", questiona. No centro do lamento da dedicada religiosa está um simples fato a respeito da adoção na Etiópia: ela mal toca a superfície do problema.

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