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Juntando os cacos

Igrejas hispânicas nos EUA enfrentam a crise das hipotecas e reformulam ministérios para socorrer fiéis que perderam tudo.

O pastor Johnny Murillo tem sido frequentemente solidário com os membros de sua congregação no Centro Cristão de Adoração, em Sacramento, Califórnia (EUA). Mas quando um dos fiéis foi ao seu escritório no Natal de 2006, em pânico e desesperado para livrar seu lar da execução da hipoteca, levou um susto. “Sei pelo que você está passando”, Murillo lhe disse. “Existe uma saída”. Ele realmente sentia o drama na própria pele e acreditava que havia uma solução. O problema é que, naquele momento, ele não sabia qual era. Sem que ninguém soubesse, Murillo também estava enfrentando problemas com a hipoteca. Mas não apenas a sua casa estava ameaçada. A igreja também estava lutando para pagar as prestações da propriedade onde se reunia.

Na Califórnia, assim como em muitos outros estados americanos, o índice de execuções de hipotecas de casas está subindo, enquanto os preços despencam. A queda nacional dos preços imobiliários foi de 11% de um ano para cá, alavancando um aumento nas vendas de casas. Em Sacramento, a situação ainda é bem pior que em outras áreas. Casas estão sendo vendidas a 37% menos do preço praticado um ano atrás, e o valor das hipotecas está mais de três vezes acima da média nacional. A região teve 3.640 hipotecas executadas até outubro de 2008, quando a crise no mercado financeiro americano começou a sobressaltar o país e o mundo.

Os líderes cristãos ao redor da nação admitem que não estavam preparados nem para a repentina desvalorização das moradias nem para a implosão do crédito. Ninguém, de fato, estava. Mas, muitos deles têm descoberto durante esse período de sofrimento como a Igreja, como corpo de Cristo, funciona como um lugar de último recurso – mesmo para seu próprio clero e membresia – em tempos de emergência econômica. Parece uma oportunidade dada aos líderes para desenvolver um novo senso de esperança.

“Como disse Jó, eu vim nu ao mundo”, diz Murillo. Seu pai era um alcoólatra compulsivo que morreu atropelado por um trem. O padrasto entrava e saía de prisões por ser membro de uma máfia mexicana e terminou assassinado quando o garoto tinha 11 anos. Murillo e seu irmão uniram-se a uma gangue local, os Barrios Libre Locos, antes de conhecerem Jesus. O grupo de delinquentes foi seu primeiro campo missionário. Vários membros da gangue acabaram tornando-se pastores. O jovem Murillo tornou-se um ministro fundou sua igreja para alcançar os pobres mais pobres.

Ele e a mulher receberam ajuda de uma grande igreja em San Jose, que os colocou em contato com uma agência de hipotecas. Murillo e os agentes eram amigos, e, em 2003, o pastor arrendou um grande prédio para a congregação. Um ano depois, obteve um empréstimo para a compra de sua primeira casa. Uma igreja localizada em um bairro pobre não é garantia segura para um banco, mas naquela época, obter empréstimos, mesmo sem boas garantias de quitação, era fácil. Podia-se fazer pagamentos mínimos, apenas dos juros, e rolar o financiamento por mais dez ou 20 anos.

 

“Atravessamos o inferno” – O agente de Murillo alertou-o sobre os perigos. O aumento dos juros poderia ser mais alto que os pagamentos mínimos que ele faria. Se os pagamentos não fossem honrados, o exercício da dívida seria somado ao saldo credor, resultando em um aumento dramático dos pagamentos restantes. “A minha fé superou os riscos”, diz Murillo. “Nós fomos cheios de fé e entramos no refinanciamento.” Mas em novembro de 2008, o Departamento de Justiça anunciou que havia começado a investigar se o World Savings Bank, agência gestora da hipoteca, estava envolvida em empréstimo predatório.

Logo os ajustes do empréstimo feito por Murillo começaram a dar os primeiros sinais da tragédia que se avizinhava. “Em junho de 2004, compramos nossa casa pagando mensalidades de US$ 1.150. Este valor aumentou para US$ 2.200 em 2006”, lembra o pastor. “Todavia, se a receita da igreja permanecesse a mesma, nós estaríamos bem”. Acontece que os membros do Centro Cristão de Adoração, que nos melhores tempos chegaram a 150 pessoas generosas nas contribuições, começaram a perder seus empregos. E os crentes começaram a perder também suas casas – para muitos, as primeiras adquiridas em suas vidas.

Murillo conseguiu resistir mais um ano, sempre esperando o milagre. “Ele nunca aconteceu”, lamenta. Logo começaram as cartas e os telefonemas ameaçadores. Os banqueiros estavam inflexíveis em não fazer nenhum acordo sobre o empréstimo, pois, àquela altura, o rombo no sistema de financiamentos habitacionais nos Estados Unidos já era evidente. De uma hora para a outra, as perdas do setor superaram um trilhão de dólares e a quebradeira começou.

No fundo do poço, debaixo de todas as fusões de bancos e títulos, prostrava-se o pastor Murillo, que estava tão envergonhado por suas dívidas que começou a pensar se deveria tirar a própria vida. “Eu não estava arriscando apenas a nossa casa, mas a casa de Deus também”, diz ele. Ele estava lutando para conseguir dinheiro para comprar cada litro de leite. Quando alguém deixava mantimentos em sua porta, ficava dominado pela gratidão e pela tristeza. “Tentamos tudo. Vendemos fogos de artifício, biscoitos, tudo o que você pensar”. Finalmente, em 11 de junho de 2008, Murillo foi cambaleando até a Corte Superior de Sacramento para entregar suas chaves. Era o fim de seu lar. Ele orou para que não fosse também o fim de seu ministério. Sem lar, o pastor e a família abrigaram-se com parentes em Nevada. Sentiu o coração apertar diante da pergunta do caçula de seus três filhos: “Papai, por que temos que nos mudar?” Lembrou-se da conclusão do raciocínio de Jó: “Voltarei nu para o Senhor.”

Hoje, a igreja de Murillo reúne-se numa escola secundária. Passado o trauma inicial, tanto o pastor como outras famílias da igreja estão alugando casas e ninguém mais está sem teto. O que a congregação tem em comum é a tragédia – mas também uma boa dose de honestidade e humildade recém-adquiridas. O líder compartilhou suas próprias lutas e foi cercado por manifestações de alívio dos membros da igreja que, então, souberam que as suas lutas e dores haviam sido comuns. Desde então, todos têm se empenhado sobre como manter a retidão em relação às finanças. “As pessoas que perderam suas casas ficaram zangadas com Deus”, reconhece Murillo. “Agora, eles se sentem fortalecidos. Nós atravessamos o inferno, mas vimos o céu no final”.

 

Decadência – Em Santa Ana, uma vila de operários em Orange County, ali mesmo na Califórnia, os sinais do inferno ainda são aparentes. Lee de León atua como ministro auxiliar do Templo Calvário, uma mega-igreja latina com 5,5 mil membros e mais de mil famílias, enquanto seu irmão, Dan, é pastor titular. Por ali, os bons ventos econômicos que sopravam desde a década de 1990 fizeram os crentes prosperarem. Em Camille Street, um bairro residencial, centenas de casas enfeitadas com pinheiros, bougainvilles e gramados verdinhos chegaram a ser comercializadas por 650 mil dólares a unidade durante a bonança financeira. “Os compradores oraram pela compra das casas em 2003, compraram-nas em 2004 e as consagraram em 2005”, diz Lee.

Grandes bancos em Nova York, Londres e outros centros financeiros pediam cerca de bilhões em empréstimos. A indústria financeira recondicionava esses empréstimos e os vendia a investidores que, por sua vez, faziam bilhões em comissões e taxas de negócios. Os tempos não eram generosos apenas para os bancos: muitos dos novos compradores da igreja podiam fazer jogadas com suas casas, vendendo-as com lucros de 100%.

“Foi um período eufórico”, comenta o pastor Lee. A economia estava crescendo rapidamente, e a igreja avançava. Um número recorde de pessoas estava sendo salvas. Agentes imobiliários e de empréstimos dentro da igreja promoviam a compra de terrenos e agenciavam construções. Aproximadamente 30% da congregação tinham hipotecas. O Templo Calvário lançou uma campanha de US$ 60 milhões para obras e ampliação do ministério. Os irmãos pastores estavam absorvidos com a gestão do complexo empreendimento, levantando dinheiro e sem tempo para ver a tempestade no horizonte.

Até pouco tempo, os frequentadores do Templo Calvário não tinham idéia de que estavam tão próximos do epicentro de uma crise financeira global. Os agentes de empréstimos diziam aos clientes que eles não precisavam de advogados e frequentemente – soube-se depois – lhes davam informações falsas. O “sonho americano” ruiu num redemoinho de fraudes e manobras incompetentes do mercado.  Agora, Camille Street tem um dos maiores índices de hipotecas executadas do país, triplicando em menos de um ano. Ratos correm sob os pinheiros ressecados que cercam as casas. Os gramados estão destruídos e as fachadas dos imóveis mostram que evidentemente precisam de reparos. Os tiros que podem ser ouvidos são de policiais perseguindo suspeitos de crimes como furtos e roubos. As gangues de rua utilizam as casas abandonadas como esconderijos e para festas noturnas. Quatro pessoas foram mortas ali ano passado.

Muitas famílias ficaram sem casa por algum tempo e agora alugam imóveis ou vivem nas casas de familiares ou irmãos da igreja. O pastor Lee recorda a dedicação espiritual dos primeiros desses antigos proprietários, as orações dos membros das famílias por suas casas e a tensão nos empregos – e, por fim, a impossibilidade de pagar os juros altíssimos. Nos últimos 18 meses, os irmãos León viram o desespero e a vergonha resultarem em expressões de raiva, alcoolismo e até suicídios.

Hoje, olhando em perspectiva, conseguem enxergar que os problemas não estavam apenas na macroeconomia, aquela realidade distante dos mortais – a crise podia ser vista dentro da igreja.  Lee admite que eles e outros pastores haviam baixado a guarda. “Nós dormimos ao volante, permitindo que nosso povo fosse saqueado”, comenta. “Nós não estávamos equilibrados quanto à mordomia”, diz o pastor. “Tínhamos todos os tipos de meios para ofertar. O que não ensinamos foi como gerir o dinheiro”.

 

Seminário de finanças – Depois de sobreviverem aos piores momentos, os pastores dizem que têm aprendido lições de teologia prática e de liderança pastoral. No norte da Califórnia, o pastor Eva Rodriguez, amigo de Murillo, faz um mea culpa: “Deveríamos ter ficado mais atentos. Mas nossa igreja tem sido encaixotada pela teologia e pela cultura hispânica, onde você não tem permissão para falar sobre finanças”, observa.

Algumas igrejas que tinham financiamento de seminários entregaram-nos para as pessoas da igreja. Mas, frequentemente, essas igrejas não avaliaram as pessoas para que pudessem separar os que estavam honestamente interessados em ajudar, daqueles que apenas queriam expandir a sua clientela através das comunidades evangélicas. Vale lembrar que a chuva – de juros, no caso – cai sobre justos e injustos igualmente. “Nosso método para criar grupos levantou uma questão. Alguns de nossos próprios banqueiros caíram em sua armadilha”, alerta o pastor Lee. “Um banqueiro me disse que comprou casa e dois condomínios para alugar e simplesmente perdeu tudo.”

Neste início de 2009, os pastores hispânicos dos EUA esperam reunir as lições que aprenderam. Através da Conferência de Liderança Cristã Hispânica, estão elaborando um plano para enfrentar a crise. Além de alertar as pessoas interessadas em comprar casas e evitar problemas com empréstimos, a idéia é iniciar um fundo para caridade a fim de ajudar famílias e igrejas na bancarrota.

Enquanto isso, em Nova Iorque, uma igreja de predominância negra do Queens, o Tabernáculo Evangélico Betel do Sul da Jamaica, está situada no ponto zero, a nordeste da área mais afetada pela recessão. Lá existem mais casas com hipotecas executadas ou próximas disso do que em toda a cidade de Nova Iorque. Das 2 mil famílias da igreja (algumas delas com membros que trabalham em Wall Street), menos de cinco sucumbiram. O bispo Roderick Caesar está longe de ser convencional. “A igreja precisa fazer com que as pessoas cresçam com fé e hábitos, não apenas sendo cristãos de duas horas por semana”, defende. Nos últimos dez anos, ele sempre encontrou espaço em seus sermões para pregar contra a questão das hipotecas. A congregação pode recitar de cor os quatro pontos do credo de Caesar sobre o uso do dinheiro: “Entregue o dízimo e pague as contas em dia”; “Poupe e invista”; “Gaste com sabedoria dentro de seu orçamento”; e “Nunca compre aquilo de que você não precisa”.

Além disso, o líder trabalha individualmente os membros da igreja que estão à deriva, em meio aos destroços do mar de sonhos perdidos. “Nós, na igreja, devemos nos juntar e resgatar os cristãos que estão em apuros”, pontifica. Um resgate semelhante está ganhando força na Califórnia. Ele combina evangelismo e assistência financeira. A Life Inner City, em Los Angeles, está lançando uma parceria com outras 120 igrejas para uma chamada de fé: “Assistência aos casos de hipotecas executadas no bairro”. O ministério fornece uma lista das pessoas com problemas com financiamentos imobiliários ao redor da igreja e treina os crentes para visitarem cada família atingida, oferecendo orações e seminários de aconselhamento sobre finanças pessoais.

O líder do movimento, Ken Frech, diz que a maioria das pessoas da área de Los Angeles não vê a igreja como um lugar para procurar quando a execução das hipotecas se aproxima. “Elas vêm para a igreja depois de já estarem na rua”, diz. “E como a Igreja pode ser relevante para a nossa situação? Simplesmente, trazendo um cristianismo radical que vai até as raízes das catástrofes pessoais do povo.”

Em Santa Ana, os irmãos León estão planejando seminários para hispânicos em risco de execução. Tais eventos vão envolver bancos, companhias hipotecárias, conselheiros financeiros cristãos e advogados. A igreja está trabalhando com uma equipe confiável junto às pessoas a fim de manter afastado o tubarão das hipotecas. O pastor Lee diz que a credibilidade deles está baseada numa nova realidade: “Nós passamos por tudo isso e voltamos nossas vidas para Cristo”.

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