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Os erros do ministério da encarnação

Nossa missão não é "ser Jesus" para outras culturas, mas nos juntarmos ao Espírito Santo na formação de uma nova humanidade em Cristo.

Em décadas recentes, dezenas de livros, manuais e sites defendendo o chamado "ministério da encarnação" têm encorajado muitos cristãos a irem além das tradicionais maneiras de cumprir o chamado de Cristo para pregar o Evangelho a toda criatura – o evangelismo pessoal, o chamado missionário e a contribuição para a obra. Essa nova abordagem do "ide" propõe uma espécie de imersão quase total nos contextos e culturas locais, como se o obreiro encarnasse a pessoa de Cristo. Alguns desses livros e materiais oferecem um passo a passo do "processo de encarnação" para cristãos cruzando culturas. Alguns nos chamam "ser Jesus" para aqueles que estão à nossa volta. De fato, muitas dessas fontes apresentam perspectivas valiosas sobre ministérios interculturais e relacionais. Existem, no entanto, problemas sérios no âmago de grande parte dessas abordagens ao ministério da encarnação – e são problemas com implicações bíblicas, teológicas e práticas.
Eu mesmo já me deparei com esses problemas como um praticante do ministério da encarnação. Em uma universidade cristã, aprendi que, assim como Deus se fez carne em uma determinada cultura, há 2 mil anos, seria meu dever encarnar-me também em outra cultura. Oito meses mais tarde, equipado com treinamento em antropologia cultural, comecei a aprender a língua e a cultura de um grupo étnico de Uganda. Mas rapidamente tive dúvidas a respeito do método da encarnação. Os ugandenses necessariamente "veriam Jesus" como resultado dos meus esforços de identificação cultural? Eu acaso estava supondo que minha própria presença – e não a de Cristo – era redentora? O ato divino de encarnação da Palavra de Deus é realmente um modelo adequado para o ministério?
Tais perguntas se multiplicaram à medida que continuei minha educação teológica. Teólogos e estudiosos bíblicos foram categóricos em assegurar que a Bíblia e a teologia cristã ortodoxa nada ensinam sobre nos encarnarmos. Na última década, vim a perceber que tal ministério, na verdade, obscurece a bastante rica teologia do servo-testemunha e do ministério intercultural do Novo Testamento: um ministério fundamentado na união com Cristo pelo Espírito. Ver a encarnação como modelo de ministério leva a um desequilíbrio perigoso de duas maneiras. O problema não é a doutrina da encarnação, que é central para a fé cristã. A dificuldade resulta de uma distorção dessa abordagem, que transforma o ato exclusivamente divino da Palavra tornando-se encarnada em Cristo em um "método para ministério" que é repetido em nossas próprias vidas.
Para os defensores do método, se habitar entre nós e imergir entre as pessoas foi a estratégia de Deus para o ministério, então certamente deve ser a nossa. Assim, o obreiro deve adotar uma segunda cultura com sendo a sua – mas, aparentemente, não há a necessidade de se mencionar Jesus. Já que Cristo forneceu o modelo para se imergir em uma cultura diferente, o conteúdo específico de sua vida e seus ensinamentos, bem como sua morte e ressurreição, são menos relevantes. Isso reduz o ministério da encarnação à sua metáfora central: a questão é identificar-se com outra cultura, em vez de testemunhar a vida, morte e ressurreição de Jesus. De fato, em uma recente conferência missionária de uma conhecida denominação, missionários afirmaram que não precisavam dar testemunho de Cristo. Ao invés disso, eles teriam sido chamados apenas para tornarem-se encarnados em sua segunda cultura. O lema nesses círculos é "viva as boas novas, ao invés de pregar as boas novas". Sem dúvida é importante oferecer um ministério presencial àqueles que passam necessidade. Mas quando o Evangelho é reduzido a uma mera identificação com os outros, a singularidade da encarnação de Cristo fica em segundo plano, e o Evangelho torna-se pouco mais que uma ética pessoal.
É verdade que muitos defensores do ministério da encarnação dão testemunho de Cristo sem hesitação. Seja na cultura jovem, no contexto da missão urbana ou em qualquer outro ambiente, o objetivo final da imersão é testemunhar – afinal, antes de sua ascensão, o próprio Jesus disse que deveríamos fazê-lo "ate aos confins da terra". Porém, ao usar a encarnação como modelo, perdem-se as implicações do que aparece anteriormente na passagem: que o comissionamento não depende de uma segunda encarnação, mas sim do poder do Espírito Santo. Da mesma maneira, esses evangélicos frequentemente citam a passagem de João 20:21, onde Jesus diz: "Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio". Eles supõem que isso significa imitar o ato de tornar-se encarnado; mas deixam de fora o versículo seguinte: "E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: 'Recebei o Espírito Santo'". Não se trata, portanto de nossa própria encarnação, mas a do Espírito Santo, que faz Cristo presente em nós. É o Espírito que faz nosso testemunho ser eficaz.
Quando se toma a encarnação como modelo de ministério, o perigo é presumir-se que a presença do obreiro – e não o Espírito Santo – é que faz Cristo presente no mundo. Nesses círculos, muitas vezes se ouve o slogan: "Eu e você podemos ser o único Jesus que algumas pessoas jamais conhecerão". Líderes da mocidade são exortados a ser "Jesus" para a juventude, onde quer que estejam. Fundadores de igrejas são encorajados a "ser Cristo" para as pessoas que encontram. O fardo da encarnação, e da revelação, passa a estar sobre seus ombros. Uma teologia como essa muitas vezes leva à exaustão. Apesar de sua motivação relacional e evangelística, essa abordagem nega, funcionalmente, a adequação da encarnação singular de Jesus e o trabalho do Espírito Santo, a testemunha suprema de Cristo, conforme João 15.26. Esquece-se, assim, que não fomos equipados para representar Cristo para o mundo sem sermos unidos a Ele, como uma comunidade, através do Espírito.

UNIDOS A CRISTO
A união com Cristo é uma das imagens mais abrangentes e difundidas que o Novo Testamento usa para descrever a salvação, a vida cristã e o ministério. Os cristãos não acreditam em Cristo simplesmente, ou o imitam à distância; nós fomos unidos a Jesus pelo poder do Espírito. Estamos unidos a ele como os ramos estão unidos à videira, e estamos "em Cristo", unidos à sua morte, ressurreição e ascensão, como enfatizou Paulo. Nós já morremos para o pecado, mas ainda assim somos chamados a crucificar o velho homem, e tudo isso se dá através do Espírito, pois "se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" (Romanos 8.9).
Lamentavelmente, as abordagens do ministério da encarnação não reconhecem passagens bíblicas fundamentais a respeito da união com Cristo. O Novo Testamento contém fortes reivindicações sobre a "missão" do Filho e do Espírito no mundo. Isso faz com que o "envio" da Igreja seja fundamentalmente derivado e subordinado. Somos adotados em Jesus pelo Espírito; não possuímos, portanto, uma natureza divina, como o Cristo encarnado, mas sim uma natureza humana. O Espírito nos traz os benefícios do Filho de Deus, como aqueles que pertencem a ele; fundamentalmente, a Igreja é enviada como testemunha e embaixadora da reconciliação em Cristo. Por isso, como testemunhas, devemos sempre apontar para além de nós mesmos. Cristo vive em nós pelo Espírito. Não somos enviados ao mundo para realizar outra encarnação, mas como discípulos para dar testemunho de Cristo e seu Reino pelo Espírito.
Além disso, o Novo Testamento considera o ato de Deus tornar-se encarnado em Cristo, totalmente único. Assim, somos chamados a seguir a Jesus, o homem-Deus, e não a Palavra divina pré-encarnada. Isso é particularmente pertinente na interpretação de Filipenses 2:5-7, o texto mais usado das Escrituras para apoiar a ideia da imitação da encarnação: "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana". Essa passagem pode parecer dizer que devemos nos tornar encarnados, assim como Jesus tornou-se em "semelhança de homem". Tal interpretação, no entanto, vai contra o contexto mais amplo da passagem. Paulo acabara de admoestar os crentes a pensarem "a mesma coisa", agindo uns para com os outros em humildade e harmonia, exortando-os a não terem "em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros". O apóstolo estava preocupado com a atitude dos crentes. Ele desejava que os irmãos servissem uns aos outros com uma humildade semelhante à de Cristo, e não que imitassem cada detalhe do trabalho e da vida redentora do Filho de Deus.
Ter o sentimento de Cristo, como o texto da epístola enuncia, significa apresentar uma vida de serviço, obediência e harmonia em Jesus, e não, imitar o ato da encarnação. Apenas à luz de nossa união com Cristo – o servo que vive uma vida de obediência sacrificial – é que Paulo escreve sobre sua estratégia missionária em I Coríntios 9.22: "Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns". Defensores do ministério da encarnação frequentemente afirmam que essa identificação cultural de Paulo imita a encarnação. Mas estudiosos como Richard Hays destacam que tal passagem está enquadrada no contexto da união com o Cristo encarnado, o servo que se sacrifica. A verdade é que nenhuma passagem do Novo Testamento sugere que devemos imitar a ato divino da encarnação. Pelo contrário – os textos bíblicos usados para apoiar o ministério da encarnação ilustram a tese da união com Cristo através do Espírito. Assim, nós nos tornamos de fato unidos com Cristo, o Senhor, pelo poder do Espírito.

"NOVA HUMANIDADE"
Diferentemente do modelo da encarnação, muitas vezes individualista, o ministério em união com Cristo aponta para o propósito final de toda missão intercultural: participar do trabalho do Espírito em criar uma "nova humanidade" em Cristo, onde um povo culturalmente diverso reúne-se para adorar o Deus trino. No envolvimento com outras culturas, a igreja do Novo Testamento não recorreu a uma teologia de ministério da encarnação com as culturas da época; ao invés disso, respondeu à obra do Espírito de criar um novo povo em Cristo. O começo disso se deu em Pentecostes, quando o Espírito Santo veio sobre os seguidores de Jesus e lhes deu a habilidade de "falar em outras línguas" sobre os feitos poderosos de Deus, conforme Atos 2. Aquele foi o primeiro ato para superar divisões culturais, confirmado pelo Senhor nas visões que Pedro e Cornélio – um gentio – tiveram, mostrando que as boas novas do Evangelho são para todas as nações, porque o Espírito nos faz um só corpo em união com Cristo.
Diante disso, não é surpresa alguma que a visão final de redenção registrada nas Escrituras envolva uma reunião culturalmente diversa da humanidade adorando a Jesus, o Cordeiro crucificado – "Os que procedem de toda língua, tribo e nação", conforme Apocalipse 5.9. Mas essa visão não está limitada ao futuro. Escrevendo aos efésios, Paulo indica que a realidade presente da união com Cristo antecipa a unidade do povo de Deus, quebrando as paredes divisórias entre os povos: "E, vindo [Cristo], evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto; porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito." Assim é o trabalho do Espírito Santo em união com Cristo: Jesus é a paz que acaba com as divisões entre grupos hostis, os reconcilia em um só corpo através da cruz e num só Espírito, e ajunta os que estavam longe e perto para servir ao Pai. Então, Deus os adota em uma nova família, uma nova humanidade, na qual as paredes divisórias são derrubadas por Cristo.
Quais são as implicações de sermos enviados como testemunhas para descobrir e participar da obra do Espírito na criação dessa nova humanidade? Uma delas é que, embora a evangelização seja essencial, ela não pode ser feita de qualquer maneira, através de uma simples mensagem, ou através da criação de novos métodos e programas. Significa também que somos enviados a diferentes culturas do mundo para dar testemunho de Cristo de uma forma que revele a nova e unida humanidade. Assim, nós, de fato, precisamos aprender sobre outras culturas, com paciência para ouvir, estando presente e demonstrando amor com nossas atitudes – no entanto, em contraste com o que pleiteia o ministério da encarnação, não precisamos fazer de conta que "encarnamos" em determinada cultura, ou que "somos Jesus" para ela, pois isso mostra falta de confiança na obra do Espírito, que media a presença viva do nosso Senhor. O teólogo Andrew Purves nos adverte a "ter cuidado com todos os ensinamentos que sugerem ser nosso dever encarnar Jesus", já que isso seria "tornar Jesus um mítico Senhor ausente", em vez de reconhecer que Cristo é o Deus vivo que age através do Espírito.
Além disso, a Igreja não é apenas enviada, mas também reunida pelo Espírito para adorar ao Pai. Essa é uma das fraquezas de muitos ministérios da encarnação: as pessoas estendem a mão para a juventude, cidades ou culturas estrangeiras, mas como a metáfora da encarnação enfatiza o envio, há pouca ênfase em reunir. Muitos jovens alcançados por esse ministério não participam de uma comunidade multigeracional; na verdade, alguns de seus defensores tratam o culto coletivo como uma distração do verdadeiro ministério, que seria o de caminhar ao lado das pessoas em seus contextos diversos. Apesar dessa ênfase no aspecto relacional ter seu valor, focar apenas na igreja dispersa acaba promovendo o individualismo e desvalorizando as maneiras pelas quais Jesus se apresenta pelo Espírito através da palavra e do sacramento no culto coletivo.
A imagem escatológica do Apocalipse é formada por pessoas de "toda tribo, língua, povo e nação" em adoração coletiva. O Espírito une pessoas de diferentes culturas e tribos justamente para que tenham acesso ao Pai em um Espírito. Assim, a adoração comunitária é essencial se a igreja deseja exibir sua unidade reconciliada, ainda que com algumas diferenças, como testemunha para o mundo. No centro da fé cristã encontra-se uma ousada afirmação: que em Jesus Cristo, o Verbo se fez carne. Muitas pessoas podem ter uma vida de serviço, e até mesmo morrer de forma sacrificial. Mas Jesus não é o primeiro de muitas encarnações. Apenas ele é Deus encarnado – e, fora desse ato único e divino, a obra de Cristo em nosso favor não teria valor algum para salvação.
O tempo é propício para os evangélicos redescobrirem as muitas implicações do espantoso ato da encarnação do Filho de Deus. Nós, muitas vezes, manifestamos uma atitude gnóstica em relação a nossos corpos e ao mundo material, agindo como se coisas físicas não importassem muito quando uma pessoa é "espiritual". Mas, na encarnação, vemos como Deus age através da carne e do sangue de Jesus Cristo. Por causa dessa ação única, o "estar em Cristo" é estar em comunhão com Deus e com o corpo de Cristo, a Igreja. Precisamos defender a singularidade da encarnação e perceber como ela leva a uma teologia dinâmica de união com Cristo, na qual o Espírito nos reúne para adorar e servir como uma comunidade incorporada e culturalmente diversificada, porém unida no Senhor. (Tradução: Julia Ramalho)

J. Todd Billings é professor de Teologia Reformada do Seminário Teológico Western, nos Estados Unidos

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