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Construtor de pontes

Aos 77 anos, morre o pastor Nilson Fanini, um dos maiores líderes evangélicos do país.

Entre os anos 1960 e 70, a presença evangélica no Brasil era pouco perceptível. Não havia grandes igrejas e os pastores de maior expressão tinham sua influência restrita aos próprios rebanhos. Foi por esta época que o pastor batista Nilson do Amaral Fanini tornou-se conhecido. Ministro batista, ele construiu uma trajetória ministerial de destaque, tornando-se a figura de referência do segmento protestante nacional. Desde então, consolidou seu nome na vida pública brasileira, dando visibilidade a um segmento até então discriminado. A maior demonstração disso ocorreu em agosto de 1982, quando, diante de um Maracanã lotado, Fanini recebeu o então presidente da República, João Figueiredo, numa de suas cruzadas.

O pastor que ajudou a pavimentar o caminho entre a Igreja Evangélica e a sociedade brasileira morreu no dia 19 de setembro, em Dallas, nos Estados Unidos, aos 77 anos de idade. Ele fora ao lado da mulher, Helga, visitar sua neta recém-nascida, e segundo relatos, sentiu-se mal já no avião. Internado no dia 13 com uma série de complicações, sofreu um grave acidente vascular que o deixou em coma profundo. De acordo com a junta médica que atendeu o religioso, a situação era irreversível, e a família resolveu autorizar o desligamento dos aparelhos. O evangelista teve seu corpo cremado nos EUA e recebeu uma série de homenagens em Niterói (RJ), cidade que acompanhou de perto suas realizações e onde os restos mortais foram sepultados.

Fanini foi uma das maiores personalidades evangélicas da segunda metade do século 20. Onze vezes presidente da Convenção Batista Brasileira, também exerceu um mandato à frente da Aliança Batista Mundial, entidade que congrega mais de 100 milhões de fiéis. Detentor de passaporte diplomático concedido pelo governo brasileiro, era interlocutor de autoridades internacionais, como o papa João Paulo II, que o recebeu no Vaticano. O evangelista pregou a Palavra de Deus em mais de 120 nações, inclusive na extinta Cortina de Ferro, na África e na Ásia, ajudando a construir pontes para a fé cristã. Por sua atuação, recebeu diversas comendas e honrarias, como a Medalha Suprema Distinção da Câmara dos Deputados.

Ministério frutífero -– Nilson Fanini nasceu em Curitiba, em 18 de março de 1932. Converteu-se ao Evangelho aos 12 anos de idade, e logo passou pelo batismo. Já na juventude, sentiu-se chamado para o ministério e seguiu para o Rio de Janeiro, onde graduou-se em teologia pelo Seminário Batista do Sul do Brasil em 1955. Foi ordenado ao pastorado na Igreja Batista de Tijuca e, no ano seguinte, casou-se com a gaúcha Helga Kepler, jovem estudante do Instituto Bíblico de Educação Reformada (Iber). O casal teve três filhos – Otto Nilson, Roberto e Margareth. Fanini deu prosseguimento aos estudos teológicos no Southwestern Baptist Theological Seminary, em Fort Worth, no Texas (EUA), onde concluiu mestrado e doutorado.

De volta ao Brasil em 1958, Fanini assumiu a direção da Primeira Igreja Batista de Vitória (ES). Dali, passou à Primeira Igreja Batista (PIB) de Niterói, onde permaneceu por 41 anos. Durante sua gestão, aquela congregação tornou-se uma das maiores do país, chegando a reunir 7 mil membros. Paralelamente, desenvolveu profícua atividade social e assistencial. Fundou e presidiu por muitos anos o Reencontro Obras Sociais, entidade de orientação cristã voltada ao desenvolvimento de projetos nas áreas de educação e saúde para a infância, beneficiando milhares de carentes. Fanini também foi um pioneiro no uso evangelístico da televisão no país, com o programa Reencontro.  Bem articulado em Brasília, recebeu a primeira concessão de televisão dada a um grupo evangélico. Mas o projeto da Radiodifusão Ebenézer não foi bem sucedido, e o pastor acabou transferindo a emissora para a Igreja Universal do Reino de Deus em 1989. A transação, que deu margem a muita controvérsia, originou a Rede Record.

Polêmicas, aliás, também acompanharam o ministério do evangelista. Seus críticos diziam que ele era ligado à maçonaria, fato nunca confirmado. Nos últimos anos, Fanini também foi muito contestado por conta de uma transação malsucedida em torno da construção da Catedral Batista de Niterói. O projeto foi abortado após um rombo de R$ 1,6 milhão nas contas da PIB-Niterói. O pastor foi investigado, e embora não tenha havido qualquer confirmação de dolo, o desgaste o levou ao afastamento. Desde 2005, Fanini exercia seu ministério na Igreja Batista Memorial, também em Niterói. À posteridade, o religioso deixa um valioso legado de inserção da fé evangélica na sociedade.

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