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Dedo na própria ferida

Pastor e jornalista, J.Lee Grady que é editor da "Charisma" faz de seu trabalho uma voz profética contra as mazelas do movimento carismático.

J. Lee Grady não é exatamente o que se costuma chamar de metralhadora giratória, aquele tipo de crítico que fala somente a partir de suas observações, sem comprometimento com o alvo de seus ataques. A começar pelo fato de que exerce duas funções muitas vezes vistas como antagônicas: é pastor e jornalista. Na verdade, era jornalista antes de se tornar pastor. Editor da revista Charisma, publicação americana de natureza pentecostal, Grady é considerado um dos profissionais mais combativos da mídia cristã americana. E é que reside o aparente paradoxoele não abre mão da crença carismática, embora critique abertamente as práticas de muitos dos seus expoentes, ou seja, seus colegas de púlpito. E faz isso não apenas através de seu trabalho, como na coluna Fire in my boones (“Fogo nos meus ossos”, nome por si instigante), lida por gente do mundo todo ano passado, mas também em seus sermões.

Equilibrar-se entre a agudeza que caracteriza um profissional de imprensa e a piedade que se espera de um ministro do Evangelho não é nada fácil, mas ele tem se saído tão bem que goza do reconhecimento até dos detratores – boa parte deles, registre-se, dirigentes que viram suas mazelas expostas através do trabalho de Grady. Ele não abre mão do papel de atalaia: “O que nós sabemos fazer é subir nos telhados e gritar para que haja uma reforma”, apregoa. Assim, pode dar-se ao luxo de denunciar descalabros que afetam denominações e ministérios, como desvios morais de líderes, escândalos financeiros e teologias mal intencionadas ao mesmo tempo em que defende a legitimidade da Igreja de Cristo como agência de Deus no mundo. Crente fervoroso, o pastor-repórter crê na manifestação dos dons do Espírito Santo na vida do crente com a mesma convicção com que ataca a manipulação das massas em nome da . “Devemos contestar aqueles que distorcem as Escrituras para fazer as pessoas abrirem suas carteiras, como era feito nos tempos medievais com as indulgências”, dispara.

Natural do estado americano da Geórgia, J.Lee Grady é ligado à Igreja Nova Aliança. Casado com Deborah, ele tem quatro filhos e vive com a família na região de Orlando, na Flórida. Ele recebeu os colegas de Christianity Today em seu escritório na cidade que é a meca do turismo de entretenimento. Contudo, o ambiente de superficialidade não parece contaminar seu estilo de vida. Recostando-se na poltrona, ele lembra de como começou sua trajetória espiritual. “Eu tinha tinha 18 anos e era membro de uma Igreja Batista”, lembra. Na época, conheceu um professor de Escola Dominical que lhe fez um apelo inusitado para um batistão, como se costuma dizer. “Ele me encorajou a orar e buscar o batismo com o Espírito Santo e o dom de línguas”. A experiência pentecostal, naquela épocaanos 1970 –, não era algo tão disseminado e aceito como hoje, mas o jovem Grady topou o desafio. Após a experiência de renovação, ele saiu de sua cidade e foi para o Berry College no noroeste da Geórgia. , conheceu Deborah e envolveu-se no ministério universitário.

 

Contra o autoritarismoMas, mesmo naquela época, Grady via alguns problemas dentro do ministério no qual servia. O seu líder tinha um estilo de liderança muito controlador, o que acabou provocando a dispersão do grupo. Esse tipo de comportamento despertou nele um pensamento crítico agudo em relação à Igreja. Foram fatos como aquele que deram origem a um de seus livros mais conhecidos, O que aconteceu com o fogo?, lançado em 1994. Na obra, ele fala sobre a derrocada de grandes igrejas e organizações evangélicas, relacionando-as diretamente a desmandos de liderança. “O fator principal que causa a queda de ministérios é o autoritarismo. E este continua sendo um problema nas igrejas carismáticas e pentecostais”, aponta.

Os últimos anos têm sido, em particular, problemáticos para alguns dos nomes mais conhecidos dentro do segmento. Grady tem julgado tal tumulto como indicativo do que chama de “desmanche carismático”. O bispo Thomas Weeks III, por exemplo, casou-se pela segunda vez em outubro do ano passado, apenas dois anos depois de ter sido acusado de agredir a ex-mulher Juanita Bynum, no estacionamento de um hotel. A Catedral da Chapel Hill, em Atlanta, uma das igrejas pentecostais mais festejadas nos Estados Unidos, teve de vender sua propriedade em agosto de 2009 após um escândalo que abalou suas estruturas. O fundador da igreja, o falecido Earl Paulk Jr., enfrentou acusações ao longo de seu ministério dando conta de que coagia mulheres a praticar sexo com ele, além de molestar crianças. Em 2007, um teste de DNA revelou que Paulk era pai de um menino, filho da esposa do seu irmão.

Casos como estes foram objeto de duros artigos de Grady, alguns dos quais chocaram até mesmo seus leitores mais fiéis. Em novembro de 2008, ele cobriu a execução da hipoteca contra a Without Walls International Church, a megaigreja liderada por Randy e Paula White, casal que havia anunciado seu divórcio um ano antes. “Deus requer santidade na sua casa e verdade na boca dos seus servos”, escreveu. O jornalista defende não menos que uma “faxina feita pelo Espírito Santo” no movimento carismático. “Vamos examinar os nossos corações e nossos ministérios. Esta é a única maneira de sobreviver a tal corrosão”, escreveu.

 

“Fogo estranho” Grady conta que perdeu vários amigos após questionar publicamente o evangelista Todd Bentley e as suas reuniões de avivamento, que no verão passado atraíram 30 mil pessoas por semana em Lakeland, na Florida. Desde os primeiros dias do evento, o jornalista questionava os métodos de Bently na sua coluna editorial. “Quando colocamos um comportamento bizarro no altar, estamos dizendo que tal prática é a norma de conduta,” escreveu Grady. “É assim que o fogo estranho se espalha”. Em março do ano passado, o pastor Rick Joyner, da Carolina do Norte, anunciou que Bentley, quem ele havia patrocinado, largou da mulher e uniu-se a uma estagiária que havia trabalhado com ele. Joyner então fez um apelo para obter fundos que seriam direcionados ao novo ministério de Bentley.

Quando Grady ironizou o remorso de Bentley, Joyner o atacou violentamente “Quais são suas credenciais de juiz? Qual é o mover de Deus que você tem liderado? O que construiu?”. Reações deste gênero não parecem incomodar tanto Grady. Ele vai mais a fundo no seu clamor para que haja uma nova reforma em seu novo livro, Fogo nos meus ossos – Como recuperar o poder genuíno do Espírito Santo na era do meio-termo, publicado em abril: “Nós possuímos este poder genuíno e autêntico, que Deus quer dar para a sua Igreja, mas não podemos misturá-lo com outras coisas, como impureza sexual, teologia indistinta ou racismo”.

Lee Grady advoga que o movimento carismático sejas expurgado como condição para que os crentes possam tomar posse do Espírito Santo. “Martinho Lutero tinha que dizer algo ou a venda de indulgências teria continuado”, afirma. A eclosão da recessão mundial no fim de 2008, cujo epicentro foi o sistema financeiro dos EUA, o motivou a batalhar de maneira mais incessante ainda contra a teologia da prosperidade. “Agora, nós vemos isso acontecendo em nosso meio. Se alguém diz coisas como ‘envie seus US$ 100 para ser abençoado’, isto é vender indulgências, e gente fazendo isso na Trinity Broadcasting Network”, reclama. Os apelos financeiros de líderes pentecostais na televisãoprática que vem se repetindo também no Brasilestão entre os alvos mais frequentes de Grady.

Ligado atualmente à New Covenant Church (Igreja Nova Aliança), que desligou-se da Igreja Episcopal em 2004, ele expressa sua profissão de no trabalho do Espírito Santo. “Eu ainda creio nos valores centrais do movimento”, enfatiza. “Eu vejo como o Senhor tem trabalhado de maneira poderosa em muitos lugares, e não quero deixar esse movimento apenas porque algumas pessoas o sequestraram. Ele não lhes pertencia, para que pudessem sequestrá-lo”.

Segundo George O. Wood, superintendente das Assembleias de Deus americanas, Grady tem sido uma voz profética no meio evangélico. “Ele está aplicando uma palavra de correção aos excessos que estão acontecendo e que estávamos ignorando”, destaca o líder. “Ele não é uma pessoa conhecida como os pregadores que estão na televisão, mas tem influência”, concorda Vinson Synan, professor de história da igreja na Regent University e um dos principais especialistas na história do pentecostalismo. É dele a definição mais completa do trabalho de J.Lee Grady: “Ele promove os pontos fortes do mover carismático, mas também alerta sobre os pontos fracos. É uma voz sensata, embora se

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