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O doutor Bíblia

Médico e colecionador, Aristóteles Alencar costuma peregrinar em busca de exemplares raros e já tem 1,5 mil edições da Palavra de Deus.

O número 1.426 da Rua Estados Unidos, em São Paulo, esconde tesouros e segredos vistos por poucas pessoas. Lá, no badalado bairro dos Jardins, um antigo sobrado abriga a livraria do médico Aristóteles Alencar, que trabalha com alfarrábios raríssimos. Alguns com mais de 600 anos de idade e histórico de terem pertencido a reis, clérigos e presidentes, além de exemplares autografados pelos principais mestres da literatura nacional. Uma paixão que fez do doutor apenas o seu Ari, do Belo Artístico, nome do antiquário.

Mas, é na coleção de bíblias que está seu maior orgulho. “Tenho mais de 1,5 mil volumes diferentes. Esses eu não vendo e nem negocio”, avisa. O gosto pela coleção do livro sagrado surgiu quando foi presenteado por seu pai, aos 13 anos de idade, com um exemplar. Gostou tanto que começou a comprar compulsivamente diferentes modelos de bíblias.  “Como evangélicos, aprendemos que a Bíblia não é um livro comum. Nela está a Palavra de Deus”, conta o colecionador, que é membro da Assembléia de Deus do bairro do Ipiranga, zona sul da capital paulista.

O acervo é organizado. De um lado, bíblias raras e antigas; de outro, traduções em diferentes idiomas e dialetos; e, por fim, nas mais diversas versões. “Esse último é o mais difícil de completar. Todo dia surgem bíblias novas – para pastor, obreiro, criança, mulher, líder, missionário...”, enumera. A diversidade de peças impressiona. De volumes que, de tão pesados, são difíceis até de levantar do chão, a uma microbíblia, que pode ser escondida entre os dedos de uma mão.

Aristóteles não esconde o carinho por algumas peças em particular. Caso de uma Bíblia inteiramente manuscrita por um amigo, trabalho que consumiu mais de mil horas. Outro manuscrito, só que em pergaminho do século 15, é um exemplar que pertenceu aos etíopes coptas, que segundo a tradição, tornaram-se cristãos na época dos apóstolos. Em dialeto ge’ez, usado atualmente apenas nas liturgias religiosas, traz iluminuras e é revestido por capas de couro. Do século 15 também há um incunábulo em latim, impresso em Veneza, no ano de 1444. “São livros da primeira época da imprensa, até 1500 ”, explica o médico.

 

Sorte e empenho – Para abastecer sua coleção de bíblias raras, o livreiro costuma percorrer todo sebo e antiquário que vê pela frente. “Uma vez estava no Rio de Janeiro e avistei, em uma vilela, uma pequena livraria. Lá, encontrei a coleção completa da primeira edição católica da Bíblia no Brasil”. Praticamente atirada a um canto, junto a um monte de revistas pornográficas, era uma preciosidade composta por nada menos que 23 volumes, impressos em 1778. Sua importância, incalculável em temos simbólicos, é ainda mais quando se sabe que foi traduzida pelo padre Antonio Pereira de Figueiredo, primeiro tradutor católico das Escrituras para o português. Ari foi rápido. Pagou em dinheiro, sem pechinchar ou exigir troco. Colocou os exemplares no carro e voltou para saber como a coleção foi parar ali. “O livreiro explicou que comprou de um rapaz que recolhia garrafas na rua, que por sua vez tinha achado a coleção na frente de uma casa, destinado ao lixo. O garrafeiro ficou todo feliz em receber 20 reais pelo lote”, espanta-se.

Em outra andança, Aristóteles buscava bíblias raras por livrarias de Belo Horizonte (MG) quando ficou sabendo de um misterioso colecionador que chegara antes dele e arrematara uma série de exemplares. Curioso, decidiu investigar. “Descobri que o colecionador era um pastor, chamava-se Pedro e que, por sua vez, havia vendido a coleção para um engenheiro”. Dias depois de uma busca minuciosa, localizou o tal engenheiro. O médico comprou tudo que ele tinha. “Saí de Belo Horizonte com meu Del Rey completamente lotado, arrastando o escapamento de Minas até São Paulo”, lembra, divertido.

Fornecedor de livros para colecionadores famosos – como o presidente do Instituto Pró-Livro, Jorge Yunes; o empresário e maior bibliófilo brasileiro, José Mindlin; o também colecionador de bíblias e ex-ministro da Agricultura, Antonio Cabrera; o escritor Fernando Moraes e o até o apresentador Jô Soares –, Ari acalenta o sonho de montar seu próprio museu. “Queria instalá-lo aqui, no centro da cidade, próximo ao metrô e que fosse acessível a qualquer pessoa”, planeja.

O colecionador também costuma circular pelas feiras de livreiros e antiquários de Londres e Nova Iorque. E foi no exterior que ouviu falar de um missionário americano que possui um raro exemplar da tradução de João Ferreira de Almeida, que seria uma das primeiras bíblias no idioma português. Animado, Aristóteles já pensa numa nova aventura em busca da Bíblia perdida. “Por enquanto, a única coisa que sei é que o missionário mora nos Estados Unidos. Acho que vou até lá para tentar achá-lo”. É bom não duvidar de que ele consiga.

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